Há sempre um convite para tomar um cafezinho, para sentar e almoçar. Depois do almoço, um cochilo. Seja na Belém metropolitana ou na comunidade quilombola do Baixo Acará, há hábitos cotidianos, há traços físicos, há sempre um quê que nos acompanha e gera identificação como “nascidos e criados” no Pará. “Esses dois costumes são tão sagrados que algumas vezes tive que almoçar duas vezes porque fui em casa de pessoas diferentes para fotografar, e dizer não é uma desfeita”, conta o fotógrafo belenense Rafael Araújo.
Em sua primeira mostra individual, o artista traz uma série construída ao longo de seis anos de trabalho, que, com a curadoria de Emanuel Franco, resgata esse olhar cotidiano – bem distante da Amazônia exótica, estrangeira –, abrindo ao público nesta quinta-feira, 16, às 19h, na Casa das Onze Janelas. As fotografias falam dos lugares, mas também daquilo que as pessoas sentem, como elas vivem.
Esse registro feito com a intimidade de quem cresceu por aqui, diz Rafael, “é importante principalmente para a gente relembrar ou perceber claramente como o ritmo da nossa vida é uma coisa particular nossa. Só voltando o olhar para nós mesmos percebemos isso. Independente do mundo moderno, globalização, padronização de vestimentas, tem coisas que são peculiares de quem é nascido e criado aqui”. Daí o nome da exposição. “Nascido e Criado”, mote também para as escolhas do curador.
“Ele (Rafael) me ofereceu muitas imagens, desde o início até as atuais, e comecei a tentar selecionar com base no nativo, de você perceber a essência da nossa visualidade, do habitat natural amazônico. Isso se tornou uma coisa emblemática na carreira dele, ficar aqui e contribuir com essa permanência para a cultura, estabelecer identidades com base nesse lugar. Fui me respaldando no nosso caboclo, na natureza das matas, esse universo nosso bem peculiar. A exposição foi toda pautada nisso”, diz Emanuel Franco.
Uma publicação compartilhada por Rafael Araujo (@rafaelaraujopa) em
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O ARTISTA
Após um tempo dedicado à propaganda, Rafael Araújo largou a vida entre quatro paredes para dedicar-se à fotografia. “Nascido e criado” nos rios, furos e igarapés da região, ele trabalha como fotógrafo profissional desde 2009, atuando nas áreas de fotografia publicitária, institucional e documental. É pós-graduado em Práxis e Discurso Fotográfico na UEL- Universidade Estadual de Londrina-PR. Já realizou trabalhos para diversas ONGs e agências de publicidade de dentro e fora do Pará e atende clientes como Itaú Cultural, Imazon, Instituto Peabiru e The Nature Conservancy. É membro do Núcleo de Formação e Experimentação da Associação Fotoativa.
POR DENTRO
Os registros apresentados por Rafael Araújo vão Pará adentro, passando por unidades de conservação - espaços criados por lei para a preservação dos habitats e ecossistemas e manutenção do patrimônio biológico -, junto aos diversos povos tradicionais da região amazônica, como ribeirinhos, quilombolas, extrativistas e indígenas. Mas também passam por dentro do artista, suas próprias memórias afetivas, suas viagens como um fotógrafo apurando o olhar e se reconhecendo no outro.
“Passei boa parte da infância viajando por esses lugares com a minha mãe. Tem pessoas nesses lugares que me conheceram criança. Eu digo que todo mundo tem que tirar um período para conhecer a Amazônia que vive em função dos rios, da água, do que a natureza proporciona. É meio paradoxo viver em uma cidade com tantos problemas sociais, trânsito, sendo que a poucos quilômetros você encontra um ritmo de vida completamente diferente”, diz Rafael.
Para o fotógrafo, uma das imagens que destaca bem a proposta da exposição é aquela em que pés estão mergulhados em um rio, sob o fluxo de uma cachoeira. “Ela resume bem o que é a Amazônia, com floresta, rios, e o homem fincado nisso tudo. Acho que é imagem com potência forte visual e até estética, que resume muito bem a proposta da exposição, esse enlace em que natureza e homem são uma coisa só”, finaliza.
Veja
Exposição “Nascido e Criado”, de Rafael Araújo
Abertura: Dia 16 (quinta),
às 19h.
Visitação: Até 21/04, de terça a sexta-feira, das 10h às 16h. Sábado, domingo e feriados: 9h às 13h.
Onde: Sala Gratuliano Bibas do Museus Casa das Onze Janelas (Praça Frei Caetano Brandão, s/n, Cidade Velha)
Quanto: Gratuito.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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