Quis o destino que a morte de Alcides Ghiggia, herói da conquista uruguaia mais celebrada e carrasco do Brasil pelas mesmas razões, coincidisse com a data histórica do Maracanazo. Há exatos 65 anos, no dia 16 de julho de 1950, o veloz e franzino ponta-direita (então com 23 anos) silenciou 200 mil torcedores presentes ao então maior estádio do mundo e outras milhares de pessoas espalhadas pelo país.
Partiu ontem certamente recompensado pelas lembranças da glória conquistada naquela tarde distante no Rio de Janeiro. Talvez tenha sido a homenagem derradeira dos deuses da bola.
Cá pra nós, o trauma de 50 só não é maior para a torcida brasileira porque foi substituído pelo recente vexame de Belo Horizonte. A surra aplicada pelos alemães fez abrandar a dor sentida pela perda da primeira Copa do Mundo promovida no Brasil.
Vi inúmeras entrevistas de Ghiggia falando sobre o Maracanazo e sempre pareceu um sujeito tranquilo, humilde, alegre e de bem com a vida. Uma postura comum aos craques que atuaram na era dourada do futebol, quando a menor das preocupações era em amealhar fortunas.
Nos dias de hoje, acima de qualquer outra motivação, os boleiros elegem a independência financeira como meta inicial a alcançar. O que vier depois é lucro. Por isso mesmo, rareiam exemplos como o de Gigghia, cujo impulso na carreira só viria depois da conquista da Copa do Mundo.
Depois de uma punição decorrente de briga em campo no campeonato uruguaio, deixou o seu amado Peñarol e foi jogar na Itália. Ganhou dinheiro e fama como atacante do Roma. Acima de tudo, se divertiu muito, com a vida noturna de então, a mesa farta e o conforto que o futebol italiano oferecia.
Em campo, correspondeu plenamente à expectativa. Comandou a recuperação do clube e chegou a defender a Azzurra, beneficiando-se do fato de ser um oriundi (descendente de italianos). Os gols, a identificação com a torcida e as conquistas eternizaram seu nome na história do clube
Viveu bem, mesmo depois de se aposentar dos gramados. Foi, enfim, um homem feliz. Só por isso já é merecedor de todas as homenagens. Era o último sobrevivente daquele grupo de 22 jogadores que terminou aquela partida inesquecível no Maracanã. Tinha 88 anos.
(Artigo humildemente inspirado em crônica premonitória de Giovanni Guerreiro, publicada no portal ESPN, antes do falecimento de Ghiggia)
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