O cuidado com a saúde na terceira idade vai muito além de consultas e exames de rotina. Às vezes, uma simples atitude aparentemente inofensiva, tomar um remédio “por conta própria”, pode trazer riscos graves. A automedicação é uma prática comum entre idosos, mas os efeitos podem ser silenciosos e cumulativos, afetando desde a funcionalidade física até a cognição. A cena é conhecida.
Um comprimido para dor aqui, um chá “natural” ali, um anti-inflamatório indicado por um vizinho. Para muitos, essa é uma forma de aliviar sintomas do dia a dia, mas pode gerar consequências sérias. É o caso de Dona Doralice Lima Roberto, 89 anos, diagnosticada com demência mista e portadora de múltiplas comorbidades, como hipertensão, insuficiência cardíaca, glaucoma e osteoporose.
Ela é acompanhada por uma geriatra e pelo médico da família da UBS, e faz uso contínuo de diversos medicamentos, colírios, vitaminas, três anti-hipertensivos, uma estatina, dois remédios para cognição, antipsicóticos, ansiolíticos e medicação para insônia.
“Quando surgem intercorrências, mais medicações são acrescentadas, o que exige atenção redobrada de nós, cuidadoras”, relata uma das filhas.
Para organizar a rotina, as três irmãs criaram um sistema rigoroso: tabela com nome, dosagem, horários e observações dos medicamentos, replicada em versões digitais e impressas. Todos os frascos ficam fora do alcance da mãe e de crianças, em caixas organizadoras.
“Sempre que uma de nós precisa sair, repassamos um relatório a outra sobre o que foi administrado ou se houve esquecimento. A comunicação é essencial”, reforçam.
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O caso de Dona Doralice ilustra como a polifarmácia (uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos) exige vigilância constante. Segundo Izabela Fuentes, geriatra e professora da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Abaetetuba, os riscos vão além dos efeitos colaterais esperados: “A automedicação pode causar interações perigosas, mascarar sintomas graves e levar a internações evitáveis. O organismo do idoso tem alterações fisiológicas próprias do envelhecimento, por isso cada novo medicamento deve ser visto com cautela.”
Com o envelhecimento, o corpo absorve, distribui, metaboliza e excreta medicamentos de forma diferente. Alterações no fígado, nos rins, na composição corporal e nos receptores celulares aumentam o risco de acúmulo de substâncias, intoxicações e efeitos exagerados, como queda de pressão, sedação excessiva ou confusão mental. Anti-inflamatórios, sedativos, calmantes, antialérgicos, antibióticos e fitoterápicos podem desencadear interações graves, agravando doenças crônicas e comprometendo tratamentos essenciais.
Os Critérios de Beers, referência internacional sobre medicamentos potencialmente inapropriados para idosos, incluem muitos desses fármacos. Além disso, fitoterápicos e suplementos (como ginkgo biloba, erva-de-são-joão e óleo de peixe) podem interferir em tratamentos e aumentar riscos de sangramentos, arritmias ou descompensar doenças como diabetes e hipertensão.
Para minimizar riscos, a prevenção envolve diálogo constante com médicos, revisão periódica de todos os medicamentos e atenção a sinais de alerta, como sonolência excessiva, quedas, confusão, fraqueza ou alterações no apetite. O cuidado seguro, como no caso de Dona Doralice, inclui organização rigorosa, listas atualizadas e descarte de frascos sem rótulo. “Todo sintoma novo em um idoso deve levantar suspeita de efeito medicamentoso. Essa é a pergunta que nunca pode faltar na prática clínica e no cuidado diário”, reforça Fuentes.
Para a especialista, cuidar de um idoso é também gerenciar medicamentos com prudência. “A automedicação parece simples, mas pode ser muito perigosa. Prescrever para um idoso é um ato de amor, responsabilidade e cuidado. Revisar doses, simplificar esquemas e manter diálogo com a equipe de saúde faz toda a diferença na qualidade de vida”, conclui.
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