Considerado a sétima arte, o cinema tem resistido há mais de cem anos a várias adversidades e inovações tecnológicas. E elas são muitas, vão desde a criação do televisor, até o surgimento dos videocassetes, DVDs, TVs por assinatura, plataformas de streaming e crises econômicas. A capacidade de reinvenção do setor está à prova, mais uma vez, com a pandemia do novo coronavírus.
A recomendação de se evitar aglomerações e ambientes fechados para preservar a saúde vai de encontro ao espaço das salas de exibição com suas poltronas coladas, em ambiente escuro e com ar condicionado. Sem funcionar em Belém desde março, com o avanço da Covid-19, a pergunta que cinéfilos e o próprio setor se fazem é sobre qual o futuro dos cinemas?
“Em um cenário de pandemia, trancar 200 pessoas em uma sala com ar condicionado é inviável por questões sanitárias”, admite o cineasta Fernando Segtowick. “Muitos cinemas não vão conseguir se segurar, terão dificuldades em se manter. Uma sala fechada um mês é um custo gigante, sem nenhuma receita, é bem preocupante. No mundo todo está se discutindo como será esse futuro”, pontua.
No Brasil e na capital paraense, a discussão tenta acompanhar o protocolo de outros países para quando os cinemas puderem reabrir. Cinéfilo e programador das exibições do Cine Olympia, Marco Antonio Moreira teme que o mercado perca salas. “A questão não é quando, mas quais salas de cinema vão reabrir? Vi em uma reportagem que, na China, cerca de 20% das salas não vão reabrir. No Brasil não tem perspectiva para isso, mas quando você vê notícias de outros países terem essa possibilidade é uma preocupação”.
Mesmo com a incerteza, Marco explica que já existe um protocolo sendo montado pelos cinemas, de acordo com as determinações dos órgãos de saúde pública, mas nada oficializado ainda. “Salas de 200 lugares devem passar para 100 lugares. Vi na Europa cinemas tirando uma poltrona a cada duas. É menos poltrona, menos público, menos sessões”, exemplifica.
CINE OLYMPIA
No Cine Olympia, a ordem é esperar, mas já se sabe que a volta será com o chamado “novo normal”. “No caso do Olympia se deve vender metade dos ingressos, tudo para não prejudicar o público”, explica, sobre as futuras sessões com menos aglomeração. “Ainda não sei o protocolo específico. Não dá para decidir nada agora. É preciso ter um pouco de cautela, porque o cenário da pandemia todo dia muda. E nenhum exibidor quer expor o público ao risco”, garante Marco.
LÍBERO LUXARDO
No Cine Líbero Luxardo, a situação é semelhante. A sala de exibição da Fundação Cultural do Pará tem 88 lugares e está fechada desde o dia 18 de março. Uma “sessão de drama” para os cerca de mil espectadores que acompanhavam os filmes do circuito alternativo, que eram exibidos em até três horários por dia.
“Como o cinema é muito limitado, mesmo que eu higienize e deixe o espaçamento para um metro não conseguiria. A pessoa espirra e é o suficiente para contaminar tudo”, lamenta a gerente do Líbero, Annie Carvalho, que afirma não estar nos planos da casa retirar poltronas, que são unidas. “A gente vai tentar ver a melhor forma. Não tenho como dar essa resposta agora, mas tentaremos voltar em agosto, provavelmente, com os filmes que estreariam em abril”.
Apesar do protocolo não estar definido, Annie adianta algumas determinações. “A volta será com padrões de segurança, higienização da bilheteria, vamos limitar mais as filas, que são grandes quando tem filme muito aclamado”, cita. “No geral, conseguiremos fazer esse distanciamento na fila. A cada sessão terá limpeza dos corrimões, funcionários usarão luvas, terão instruções para receber o ingresso, dinheiro, tudo com a higiene redobrada”.
GRANDES REDES
A preocupação com o mundo das películas é mundial e tira a paz também das grandes redes cinematográficas. Em participação em uma ‘live’, no último dia 22 de maio, no site Mercado e Consumo, o diretor de expansão da Rede Cinépolis, Adrían Aguilera, considerou a pandemia um dos maiores desafios do setor. “Talvez seja o pior período que estamos passando em nossa história. Nem a revolução digital, Netflix, quando se inventou a TV a cabo, nenhuma dessas foi tão agressiva como isso”.
A Cinépolis está presente em dois shoppings da capital paraense. Além dela, a região metropolitana conta com outras duas grandes redes, a Moviecom e a Cinesystem. Junto com o Líbero Luxardo, Olympia e Cine Ópera, são mais de 40 salas de exibição com as portas fechadas.
O prejuízo é incalculável no mundo inteiro, lembra Adrían Aguilera. “A nossa decisão foi de fechar porque não dava mais. Março já foi um resultado horroroso, as pessoas não queriam mais ir em um ambiente fechado. Hoje não podemos recorrer à venda on-line, dependemos das pessoas que vêm ao nosso espaço, também dependemos dos shoppings: 99% de nossas operações no Brasil são assim”, lembra.
Apesar disso, o diretor estima a possível reabertura. “Julho é uma data provável, a gente está se preparando, mas tem os protocolos”, frisa. “A principal mudança é fazer transações on-line. A gente quer que a pessoa chegue e passe o menor tempo em ‘áreas de perigo’, corredores, chegue com tudo pago, vá pegando e vá passando, com o menor tempo transitando”, planeja.
O problema maior é sobre o que será determinado pela saúde pública. “Imagine se as autoridades mandarem higienizar as salas depois de casa sessão? Não vale a pena nem abrir, seria uma força de trabalho enorme com um (alto) custo”, observa. “Há questões em que é preciso esperar. Não será de um dia para outro, abre e pronto”.
De qualquer forma, o diretor explica que o setor vai replicar as experiências de outros países. “Na Espanha e Costa Rica devemos abrir em três semanas. Coisas que se estão fazendo lá, serão feitas aqui. É olhar o que vai dar certo, o que não vai dar certo”, diz. “Tenho certeza que nos próximos seis a oito meses o distanciamento nos cinemas será exigido”.
MATE A SAUDADE
Enquanto os cinemas não reabrem, vários festivais cinematográficos optaram por realizar versões on-line.
- O Festival Varilux de cinema francês oferece mais de 50 curtas e longas metragens no site.
- O Festival Olhar de Cinema, de Curitiba (PR), também segue com oferta de produções on-line, até o próximo dia 11, no site.
- No YouTube, o evento “We Are One” reúne produções cinematográficas do mundo todo com co-curadoria de mais de 20 festivais internacionais de cinema, entre eles Cannes, Sundance, Berlim e Veneza.
CINEMAS DA GRANDE BELÉM
GRANDES REDES
Moviecom Pátio Belém, Moviecom Castanheira, UCI Bosque Grão Pará, Cinépolis Parque Belém, Cinépolis Boulevard Belém, Cinesystem Metrópole
CIRCUITO ALTERNATIVO
Cine Líbero Luxardo, Cine Olympia, Cine Ópera
Cinema “drive-in” pode voltar?
Sobre o interesse em retornar com as sessões de cinema “drive-in”, em que o espectador assiste à projeção dentro do próprio carro em um grande estacionamento, as opiniões dos entrevistados são divergentes.
“Drive-in não vai, é um cinema do passado, é outro tipo de entretenimento”, acredita Adrían Aguilera. De qualquer forma, vale lembrar que as poucas experiências com essas sessões, que retomam aos anos 50 e 60, têm sido um sucesso durante o isolamento social. Tanto que a Arena Palmeiras, em São Paulo, vai promover essas exibições com ingressos que custarão de R$ 95 a R$ 150 por veículo. Uma maneira de fazer renda enquanto não voltarem jogos, shows e espetáculos.
“Os cinemas drive-in, nessa época, são uma opção. Você, no seu carro, não tem contato com outras pessoas”, lembra Fernando Segtowick. Já Marco Antonio Moreira tem o mesmo ponto de vista, mas fica na incerteza de que seja apenas uma escolha durante a pandemia. “Talvez os complexos de exibição façam parcerias com os shoppings. Pode ser uma alternativa, acho muito bom, mas não sei se é uma tendência ou algo provisório”.

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