Aos 29 anos, Jeeh Diana acaba de se tornar a primeira bailarina anã a se formar pela Escola de Teatro e Dança da UFPA, e já recebeu um importante convite: ela vai representar o Pará no “2º Encontro Nacional Nanismo Brasil”, apresentando-se por meio de um documentário que vai relatar sua trajetória na dança, sua rotina em uma cidade do Norte e dançando em um dos palcos mais famosos do país, o Theatro da Paz. O evento - que talvez seja realizado apenas no formato virtual - está marcado para ocorrer em 25 de outubro, Dia Nacional do Combate ao Preconceito Contra as Pessoas com Nanismo.
A bailarina conta que começou muito cedo na dança, ainda aos cinco anos de idade, em um projeto municipal de dança moderna, mas os caminhos calçando sapatilhas não foram fáceis. “Eu moro em Ananindeua, mas duas vezes por semana ia até Belém ter aulas. O tempo foi passando e eu parei por problemas de saúde. Com 15 anos, consegui uma bolsa integral em uma escola famosa de balé em Belém. Estudei por três anos lá, mas na hora de subir na sapatilha de ponta, o sonho de toda bailarina, a professora disse que eu não teria capacidade pela minha estatura, que minha perna não iria aguentar e eu poderia ter uma lesão”, conta Jeeh, que com isso decidiu parar de dançar.
Sete anos atrás, ela teve o seu reencontro com a dança ao frequentar a Igreja Quadrangular, onde passou a se apresentar junto com outras jovens. De volta à sua paixão, resolveu seguir o conselho de um amigo para se inscrever no curso técnico de dança clássica da ETDUFPA, e foi uma das dez primeiras selecionadas. Com duração de dois anos, a formatura seria em março, festa que acabou adiada pela pandemia, mas não deixou de trazer orgulho para a bailarina. “Também quero entrar na licenciatura em dança para, quem sabe, ter meu próprio estúdio um dia”, projeta, depois de uma experiência inicial dando aulas.
E mesmo antes de passar o que aprendeu a novas bailarinas, ela conta que já vem deixando sua marca. “Na escola que eu fazia balé, não tinha nada adaptado anos atrás, eu ainda batalhava muito para ser reconhecida na sociedade, como qualquer pessoa com deficiência, mas eu, especificamente, sinto que quebrei muitos paradigmas - todo mundo vê bailarina como uma mulher alta e magra. Lutei para ter uma barra adaptada pra mim na ETDUFPA, junto com a professora Rosana Rosário. Ela fez várias solicitações de recursos para ser providenciado. No final do ano passado, no meu último semestre, finalmente consegui a barra e a agora ela vai estar lá. Eu saio deixando esse legado na escola”, orgulha-se.
NO PALCO DO TP
De volta à dança, Jeeh também reencontrou sua paixão por grandes clássicos do balé, como “Dom Quixote”, que apresentou pela ETDUFPA, em abril do ano passado, no Theatro da Paz; e “Cisne Negro”, que escolheu para apresentar no documentário, também gravado no centenário teatro de Belém, junto com o seu solo intitulado “Cupido”, com o qual conquistou o terceiro lugar no “Festival Belém Dance”, ano passado.
“Eu me sinto muito feliz desde o convite e depois com a aprovação para representar o Pará. Mostrar minha dança através desse documentário ensina que, independente de qualquer deficiência, a gente tem que lutar pelos nosso sonhos. Eu acredito que não existe limitação para aquilo que nosso coração quer”, ensina a bailarina, que no documentário também mostra com orgulho os troféus que conquistou.
Sobre a gravação, ela conta que ficou muito feliz de dançar no palco do Theatro da Paz. “Mesmo sem ninguém te vendo, ainda é no teatro mais reconhecido do Pará, e também reforça como a arte está fazendo muita falta nessa pandemia. Foi uma emoção imensa gravar lá, houve horas em que não pude conter o choro”, diz ela. Depois de ser exibido durante o evento, em outubro, o documentário vai ficar disponível no canal da bailarina no YouTube, onde ela já costuma compartilhar seu trabalho, como incentivo a outras bailarinas.
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