Certa vez a cantora paraense Aíla viu Dona Onete comentar, em um programa de TV, sobre uma boate que tinha como público os jovens LGBT. E pelas tantas, divertida que só ela, Onete disse que o local deveria se chamar “lesbigay”. A palavra inventada naquele momento foi o estalo para que Aíla a convidasse para compor. Até que se encontraram em São Paulo e no hotel mesmo tiraram do violão a letra e a melodia da canção, que ficou com esse mesmo nome, e faz parte do repertório do disco “Em cada verso um contra ataque”, lançado ano passado pela jovem. Agora, ela lança o clipe de “Lesbigay”, no mesmo tom de como a música surgiu, nesta terça-feira, 29 - Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.
“Lembro que ela disse também que estava escrevendo uma letra e cantou ‘senti saudade voltei, lá no lesbigay’. Fiquei com essa parte na cabeça, liguei para ela e disse que já tinha outra letra e sugeri fazermos uma música juntas. E fiz essa versão lambada eletrônica, de pista, para dançar, mas para refletir também. É uma música bem pop, as pessoas se identificam, me senti muito livre, à vontade. É uma mensagem que pode transformar. Sinto essa força”, diz Aíla.
Por se tratar de uma música que defende a diversidade sexual e está no bojo conceitual do álbum, que trata sobre ativismo, Aíla convidou a diretora Vera Egito para dirigir a produção. O clipe foi gravado no prédio da Ocupação Ouvidor, em São Paulo, um imóvel que estava abandonado e foi ocupado por artistas de diversas linguagens há três anos, nos seus 13 andares. No clipe, Aíla aparece percorrendo por cada andar até chegar ao topo do edifício, onde está ocorrendo uma festa.
“Lá na ocupação, cada andar representa uma arte, tem mulheres feministas, artistas de circo, músicos, e escolhemos fazer ali pelo significado dessa ocupação. O roteiro passa por essa história de entrar num prédio escuro e abandonado e está rolando uma festa e eu vou subindo as escadas e em cada andar vou encontrando, gays lésbicas, trans, que estão se preparando para essas festa, e essas pessoas vão compondo meu figurino, e cheo na festa montada e toda pintada, é uma grande alegria.
Não se trata sobre uma questão de falar de gueto é uma utopia que poderia ser realidade, é um espaço de libertação, um manifesto festivo de ser quem você é, ser quem quiser. Me vejo nesse lugar para fazer nosso corpos dançarem e se libertarem”, diz Aíla.
A direção de arte é de Vitor Nunes, artista de Altamira, no sudeste do Pará, e que fez um figurino inusitado especialmente para o clipe, onde Aíla aparece com uma capa cheia de luvas coloridas. Ele também foi o responsável pela concepção da máscara de vidros que a cantora usou para performar para as fotografias da capa de seu mais recente álbum. Ele também trabalha com outros artistas paraenses sediados em São Paulo, como Jaloo. “Gosto de trabalhar com ele porque ele pensa no figurino como uma obra de arte”, explica Aíla.
Já o convite para a diretora Vera Egito, que chamou para a co-direção Jéssica Queiroz, se deu por meio das redes socias. Aíla fez um post em seu perfil questionando sobre as mulheres na guitarrada e por lá Vera comentou sobre a situação no audiovisual também.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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