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Luê lança segundo disco, 'Ponto de Mira', embalado no pop contemporâneo

quinta-feira, 23/11/2017, 09:34 - Atualizado em 23/11/2017, 09:34 - Autor:

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A vida sozinha em São Paulo fez com que a cantora paraense Luê começasse a observar os seus caminhos de forma mais autocentrada. O que é natural no processo de mudança de cidade. Após quatro anos na capital paulista, ela diz que já se sente absorvida pela dinâmica da megalópole e que gosta dessa urbanidade toda, o que provocou uma nova forma de ver a vida – e de compor. “Acho que o lugar que você está inserido no momento te influencia, eu sinto isso. Quando estou em Bragança me sinto de um jeito, em Belém, de outro, e aqui em São Paulo também é diferente. São jeitos de existir”, comenta.


Esses jeitos dela acabaram formatando o seu novo disco, “Ponto de Mira”, que será lançado nesta sexta-feira, 24, às 20h30, no Teatro do Sesi, em Belém. Para o show na cidade, dentro do programa Natura Musical, Luê vem acompanhada do DJ B8, de Regis Damasceno (guitarra), Willian Aleixo (teclado), Daniel Lima (baixo) e Lenis Rino (bateria).


“São Paulo demanda uma grande carga emocional e energética. São quatro anos morando só, sem família, mas não é drama, não. É isso mesmo, penso como se faz para existir numa cidade que te cobra, te engole, exige que estejas em atividade o tempo inteiro, tem as cobranças dos outros e de você mesmo. São muitas quedas, mas a gente se ergue muito também. Isso nos modifica e entrei em contato com faces minhas que só longe e sozinha pude conhecer, nessa selva de pedra. As fichas estão caindo e me sinto bem comigo mesma. Foi a minha revolução estar em São Paulo. Hoje penso que tudo acontece no seu tempo e tem uma razão, e tento ver isso com leveza”, revela.


A mudança de cidade provocou uma entrega à proposta do disco, que é bem perceptível, tanto de forma visual quanto sonora. Se no trabalho anterior, “A Fim de Onda” (2013), ela aparecia com o cabelo liso e ao lado de um violino, agora ela está mais livre, com os cabelos crespos e volumosos, e usando um outro instrumento importante em sua formação - a rabeca -, de forma  experimental. Esse embate e a virada estética vieram de sua própria formação, já que Luê foi aluna do Instituto Carlos Gomes e estava acostumada às partituras e todas as exigências impostas pela música erudita. O resultado dessa maturidade na carreira é uma opção pop contemporânea, com letras de amor, sobre relacionamentos, a vida na cidade, embaladas por mixagens eletrônicas e por diversas referências.


A cantora diz que seu segundo álbum não tem um conceito fechado, mas que fala de autodescoberta. (Foto: José de Holanda/Divulgação)


Encontro com a liberdade de criar 


 “Tem um pouco de Erykah Badu, ela é demais, é a maior. Gosto do som dela e do jeito que ela bota a voz, como fala das coisas. Tem também a Bjork, que sempre ouvi muito. Plumbetto e tanta coisa que tenho ouvido. Mas foquei nas coisas com que me identificava. Outro compositor que ouvi muito para compor esse disco foi o Jorge Mautner, ele toca rabeca também, é livre, meio louco, cigano, vampiro, tentei beber dessa fonte. Quando a gente vem da música clássica, exige-se muita disciplina. Só que na música popular é diferente, é mais livre, não tem o que obedecer, pode até ter, mas não tem essa necessidade, pode acontecer de forma natural. Gosto de pensar na rabeca de forma livre, não sei se consegui colocá-la como gostaria, mas é processo de descoberta desse instrumento também”, diz.


Por conta da conexão entre os seus lugares, as três cidades, ela diz que o disco foi feito de forma orgânica, sem um conceito pré-estabelecido. E que valeu mais todo esse processo pessoal para formatar o álbum. “Não sinto muito que seja um disco conceitual, que foca num tema somente ou que tem uma sonoridade específica. Tive vontade de produzir algo sobre esse meu momento pessoal, esse meu lado mais para fora, sobre eu enquanto mulher. O álbum fala de um processo de autodescoberta muito forte e como musicalmente isso foi se dando também, uma caminhada conjunta. São coisas que estava sentindo. E sonoramente reflete o que eu estava escutando, que é tanta coisa que no final das contas virou isso, como um reflexo da minha vida nesse momento, com os sons dos sintetizadores”, explica.
Com produção de Zé Nigro, o disco tem ainda participação de Curumin e do especialista em música jamaicana, Victor Rice, que assina a mixagem do CD, e Saulo Duarte, da banda Saulo Duarte e a Unidade. A faixa “Cheiro de Saudade”, de Alceu Valença, foi regravada com autorização do músico e compositor pernambucano, que ao final, disse que havia apreciado bastante a versão da paraense.


(Dominik Giusti/Diário do Pará)

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