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Parque da Cidade reinventa antigo Aeroclube e vira novo cartão-postal de Belém

No ano em que Belém celebra 410 anos, antigo aeroclube se reinventa como um espaço requalificado de convivência, memória e projeção para o futuro.

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Parque da Cidade foi inaugurado em 2025. camera Parque da Cidade foi inaugurado em 2025. | Alexandre Costa/Agência Pará

Belém chega aos 410 anos como uma cidade que carrega o peso e a beleza do tempo. Uma capital que cresce, se expande, enfrenta desafios históricos, mas que também encontra formas de se reinventar sem romper com a própria memória. Em meio a avenidas movimentadas, casarões centenários e rios que moldaram a existência da capital, um espaço novo em especial traduz essa capacidade de transformação: o Parque da Cidade.

Ali, onde por décadas aviões cortaram o céu e marcaram gerações de apaixonados pela aviação, hoje é um local de lazer, convivência e memória, que reflete a evolução urbana e social da cidade. Antes ocupado pelo antigo Aeroclube de Belém, a área deu lugar a um dos maiores equipamentos públicos de lazer da cidade, um território que mudou de função, mas não de importância.

Onde a modernidade chegou de asa aberta

“O Brasil, especialmente no início do século XX, almejava a modernidade. E a aviação trazia esse rótulo. Voar era estar à frente do tempo”, lembra o historiador Fabiano Veloso, ao contextualizar o surgimento do Aeroclube de Belém, fundado em 1937 e com efetivação em 1939.

Fabiano Veloso.
📷 Fabiano Veloso. |Arquivo pessoal

Segundo ele, a história do aeroclube está intimamente ligada à história da aviação no país. “Os primeiros cursos de piloto no Brasil surgem com italianos, como Gian Felice Gino e Angelo Bigliani, que vieram até Belém para fazer demonstrações aéreas. Infelizmente, Bigliani sofreu um acidente fatal em 1912, aqui mesmo na cidade, e foi sepultado no Cemitério de Santa Izabel”, detalha Veloso.

Os dois pilotos haviam sido contratados pelo empresário Donato Roto. O campo de aviação improvisado usado por Bigliani ficava nos fundos do Instituto Lauro Sodré não tão longe da atual pista de pouso e decolagem do Aeroporto Internacional de Belém. Com a tragédia, Bigliani se tornou o primeiro aviador a decolar nos céus da capital paraense e também a primeira vítima de um acidente aeronáutico registrado na Amazônia.

Segundo Veloso, após o acidente, Gian Felice Gino seguiu para o Rio de Janeiro, então capital do Brasil, epóca em que o Ministério da Guerra financiou a criação da Escola Brasileira de Aviação (EBA) em 1913-1914. Embora a escola tenha durado apenas quatro meses, a criação marcou o início do interesse das Forças Armadas na formação de pilotos no Brasil e, consequentemente, na criação do Aeroclube de Belém.

Em 1925, foram criados os Serviços Civis de Navegação Aérea, regulamentando a atuação de empresas privadas, nacionais e estrangeiras, na aviação civil. Já em 1930, o Ministério de Viação e Obras Públicas indicou a região do Estaleiro de Val-de-Cans, hoje Base Aérea e Aeroporto Internacional de Belém, para a construção de um aeródromo.

O aeródromo foi concluído em 1936, com sua área operacional na Arthur Bernardes e núcleo administrativo no Palácio Lauro Sodré. No mesmo espaço surgiu o Aeroclube de Belém. De acordo com o historiador, durante a Segunda Guerra Mundial, a base foi parcialmente ocupada pelos norte-americanos e modernizada. Nesse contexto, com a criação do Ministério da Aeronáutica e da Força Aérea Brasileira já em 1941, o Aeroclube consolidou-se como referência na região Norte, sendo o único centro autorizado a formar aviadores civis em Belém.

O espaço escolhido para o aeroclube, hoje Parque da Cidade, ficava entre as avenidas Júlio César, Brigadeiro Protasso, Pedro Álvares Cabral e Doutor Freitas. “Tudo isso era propriedade do Exército Brasileiro. A Base Aérea de Belém foi construída ali, e o Aeroclube surgiu como núcleo de formação para a aviação civil. Era o único lugar legalizado para isso na região Norte”, explica Fabiano.

Parque da Cidade reinventa antigo Aeroclube e vira novo cartão-postal de Belém
📷 |Reprodução

Ainda segundo o historiador, com o passar dos anos, o aeroclube não era apenas um espaço de aprendizado, mas também se tornou um centro social e econômico, contudo fechado para apenas uma parte da população. “Havia restaurantes, bares, apresentações de aeromodelos. Além disso, todos os voos privados, transporte de órgãos para hospitais e emergências médicas passavam por lá. Ele tinha papel fundamental para Belém e para o Pará”, completa o historiador.

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Entre memória e transformação urbana

O aeroclube influenciou também a ocupação urbana ao seu redor. A região, antes distante do centro, se tornou central à medida que Belém crescia. “As áreas do Souza, da Maracangalha e até a Marambaia começaram a se urbanizar, muitas vezes de forma desordenada, mas conectando o antigo centro aos novos bairros. Esse processo fez com que o entorno do aeroclube se tornasse estratégico para a cidade”, comenta Veloso.

Ao longo das décadas, o Aeroclube organizou eventos que marcavam a memória da cidade. “Portões abertos, voos de monomotor, bimotor, turboélice. Era um ponto de encontro para entusiastas e curiosos. A aviação civil tinha ali sua vitrine”, diz o historiador.

Parque da Cidade reinventa antigo Aeroclube e vira novo cartão-postal de Belém
📷 |Reprodução

O encerramento do aeródromo ocorreu oficialmente com a última transmissão da Torre Protásio no dia 31 de dezembro de 2021, em uma mensagem carregada de emoção. “Atenção todas as aeronaves na escuta da Torre Protásio…sempre lembraremos dos momentos de aprendizado, Na primazia da frequência 118-3 e agora levamos conosco a sua história para que jamais seja esquecida”, resume a mensagem do controlador da torre.

Escute a mensagem:

DIREITO À CIDADE

Parque da Cidade reinventa antigo Aeroclube e vira novo cartão-postal de Belém

Por DOL -

Parque da Cidade foi inaugurado em 2025.

Segundo Fabiano Veloso, aquele adeus não simbolizava apenas o fechamento de um aeroporto, mas também o fim de um ciclo social e histórico.

Novo uso para um espaço histórico

A área do aeroclube passou para o governo do Pará e se transformou no Parque da Cidade, inaugurado como principal legado da COP30, realizada em Belém em novembro de 2025. Com 500 mil metros quadrados, o parque recebeu cerca de R$ 980 milhões de investimentos e serviu como ponto de encontro entre delegações internacionais, autoridades e o público local.

Parque da Cidade reinventa antigo Aeroclube e vira novo cartão-postal de Belém
📷 |Tânia Rêgo/Agência Brasil/Divulgação

Para a arquiteta Sâmyla Blois, o parque representa mais do que lazer e é uma oportunidade de conectar a cidade ao futuro climático. “O direito à cidade também é o direito ao lazer, ao esporte e à natureza. Um parque, neste porte, tem o potencial de prover, para a população, uma conexão com o seu território muito profunda e perpassa por diversas necessidades como áreas de práticas esportivas ou espaços de lazer para crianças na primeira infância”, afirma.

Sâmyla Blois.
📷 Sâmyla Blois. |Arquivo pessoal

No entanto, ela também reconhece desafios urbanos que ainda precisam ser resolvidos. “O Parque da Cidade está localizado em uma área gigantesca, que tem potencial não só de ser esse parque acolhedor, mas também, um importante aliado à adaptação climática se repensarmos o repertório de cidade que vem sendo investido em Belém”, comenta.

“No contexto atual, o espaço público de qualidade, ainda, precisa estar antenado ao futuro climático. Com o avanço dos efeitos associados à crise do clima, os espaços livres e permeáveis se tornam, cada vez mais, imprescindíveis para o equilíbrio local. Isto é, espaços livres não impermeabilizados, arborização adequada, infraestrutura de drenagem aliada ao sistema da cidade e que o espaço precisa estar pensado dentro da cidade, não isolado dela”, completa.

No projeto do Parque da Cidade, ele buscou incorporar soluções de sustentabilidade, com mais de 1.500 árvores, 190 mil plantas ornamentais, energia solar fotovoltaica e sistema de captação de água da chuva. Além disso, a integração entre áreas gramadas, arborizadas e infraestrutura urbana tem como objetivo ajudar a reduzir o calor e a criar microclimas agradáveis para visitantes.

“Em tempos atuais, acredito que os principais desafios giram em torno da usabilidade do espaço e do futuro climático”, alerta Sâmyla.

Projeto do Parque da Cidade.
📷 Projeto do Parque da Cidade. |Raphael Luz/Agência Pará/Divulgação

Um lugar que conecta passado e futuro

O Parque da Cidade já faz parte da vida dos belenenses. Gabriele Silva do Egito, frequentadora assídua para caminhar e se exercitar, e que estava acompanhada do amigo Bruno Varela, valoriza o espaço como uma novo lugar de lazer na cidade, além de ser uma alternativa à saúde e bem-estar.

“Eu acho super importante o Parque da Cidade e espaços como ele. Nossa cidade era tão esquecida em comparação com outros estados. Eu já conheci vários lugares e ver que algo assim acontecendo aqui é incrível. Estou amando”, compartilha Gabriele.

Gabriele Silva do Egito e Bruno Varela.
📷 Gabriele Silva do Egito e Bruno Varela. |Júlia Marques/DOL

Ela também lembra a importância da preservação do local. “Espero que as pessoas mantenham assim. É importante conservar, porque tudo isso vem dos nossos impostos. É para ter mais turistas e mais visibilidade para Belém”, diz.

O Parque da Cidade atrai não apenas moradores de Belém, mas também visitantes de outras cidades. Marcos Camões, de Breves, no Marajó, conheceu o parque pela primeira vez e se encantou. “Achei o espaço muito bonito e confortável. Além disso, ele é bastante seguro. É satisfatório correr aqui. É muito importante locais como esse que tem variabilidade de opçoes de lazer para as pessoas”, comentou.

Marcos Camões.
📷 Marcos Camões. |Júlia Marques/DOL

Já para Luana Pimenta, que costuma levar a filha Pérola, de 2 anos e 10 meses de idade, o parque é um espaço de infância e lazer. “Antes era um local que aparentava estar abandonado. Agora, o Parque da Cidade deu um ‘up’ total no espaço. Acho maravilhoso ter um lugar de lazer assim na cidade”, afirma.

Luana Pimenta e a filha Pérola.
📷 Luana Pimenta e a filha Pérola. |Júlia Marques/DOL

Nos 410 anos da cidade, Luana deixa uma mensagem para Belém as pessoas que moram e visitam a capital. “Belém, aproveite as oportunidades, reclamem menos e agradeçam pelo que vocês têm e valorizem. Não destruam, valorizem e zelem pelo que vocês têm”, diz.

Um novo capítulo da cidade

Segundo Fabiano Veloso, o Parque da Cidade não apaga o Aeroclube, mas amplia o acesso à história. “Antes, só um grupo seleto tinha acesso ao aeroclube. Hoje, o parque é para todas as classes sociais. Ele ensina, preserva memória e cria novas experiências para a população”, disse.

O espaço, que antes ensinava a voar, agora ensina a caminhar, a brincar, a se encontrar. Do hangar à pista, da torre de controle ao chafariz, o Parque da Cidade é um território de memória viva, onde a cidade celebra passado, presente e futuro.

“Eu acredito que se a gente tomar o passo certo de integrar esses espaços, de trazer eles para próximo da própria população nessa mudança, nessa dinâmica social e urbana que as cidades tendem a ter, todo mundo sai ganhando. Todo mundo sai ganhando enquanto cidadão, enquanto pessoas que vão viver a modernidade, mas sem esquecer da sua história”, conclui Veloso.

Parque da Cidade reinventa antigo Aeroclube e vira novo cartão-postal de Belém
📷 |Arte/RBA
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