Com 98 anos de história, a Rádio Clube do Pará é reconhecida como uma das mais importantes instituições da comunicação no Norte do Brasil. Ao longo de quase um século, a emissora acompanhou as transformações de Belém e da Amazônia, registrando acontecimentos marcantes e contribuindo diretamente para a construção da memória regional, ao mesmo tempo em que consolidou uma relação de forte proximidade com o público.
A trajetória da emissora começou no dia 22 de abril de 1928, apenas cinco anos após a criação da primeira rádio no Brasil. Sob a liderança de Edgar Proença, Eriberto Pio e Roberto Camelier, nasceu a primeira emissora de rádio da Amazônia. Inicialmente, utilizava o prefixo PRAF e o nome “A Voz do Pará”, que permaneceu até meados da década de 1930, quando passou a adotar definitivamente o prefixo PRC-5. Foi nesse período que Edgar Proença consolidou o slogan que atravessaria gerações: “PRC-5, a voz que fala e canta para a planície”.
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Para o jornalista e radialista Tony Gonçalves, que trabalhou por nove anos na Rádio Clube e atualmente escreve um livro sobre a história da emissora, foi a forte presença na memória afetiva da população que fez com que a marca PRC-5 se incorporasse à própria identidade do veículo. Segundo ele, nos primeiros anos, a rádio funcionava quase como um clube comunitário. “As rádios surgiam como clubes de amigos. A colaboração entre os integrantes ajudava a manter a estrutura. Alguns anúncios existiam, mas ainda de forma pouco organizada”, explica.

Ele também destaca que as dificuldades técnicas eram constantes. Sem infraestrutura adequada, falhas eram frequentes e a emissora chegava a sair do ar por dias. Ainda assim, mesmo com limitações, o vínculo com os ouvintes se fortalecia, consolidando a importância da rádio na história da comunicação amazônica.
1937: o ano em que o povo salvou o rádio
Um dos episódios mais marcantes da história da emissora ocorreu em 1937, quando uma determinação federal passou a exigir que as rádios operassem com potência mínima de 1.000 watts. Na época, a Rádio Clube contava com apenas 400 watts e não tinha recursos financeiros para se adequar, colocando a continuidade da emissora em risco.
Diante da situação, Edgar Proença fez um apelo histórico ao vivo. “Foi necessário que o Edgar Proença, um dos fundadores, falasse no ar: ‘vocês têm colaborado muito para a manutenção da rádio… mas a gente não tem dinheiro suficiente’”, relembra Toni.
Após o apelo, a resposta imediata. “Isso comoveu tanto os ouvintes que todo mundo acabou ajudando. Foram feitas doações de toda a sociedade”, conta. O apoio foi tanto, que veio também de autoridades como o interventor federal do Pará José da Gama Malcher e o prefeito de Belém Abelardo Conduru. No final, o episódio consolidou um traço que marcaria a emissora para sempre: a relação direta e afetiva com o público.
Futebol, improviso e a era dos grandes nomes do microfone
A paixão pelo futebol ajudou a moldar a identidade da Rádio Clube, mas também gerou episódios quase inacreditáveis. A primeira transmissão esportiva do Norte ocorreu em 1935, com Edgar Proença, que mais tarde daria nome ao Estádio Mangueirão.
Mas nem tudo saía como planejado. “Chegavam na véspera para montar os equipamentos e, quando voltavam, tinham roubado tudo”, relembra Toni. Ainda assim, a rádio insistia.
Em 1950, o filho de Edgar, Edir Proença, participou da cobertura da Copa do Mundo, narrando jogos em condições extremamente improvisadas. Essa tradição abriu caminho para uma geração de narradores e comunicadores que se tornaram referências.
Entre eles, nomes como Cláudio Guimarães, com mais de 63 anos dedicados ao esporte, Carlos Castilho, com cerca de 67 anos de rádio, e Jorge Dias, conhecido como o “locutor da máquina”, marcaram época. “Ele deu esse nome porque narrava o Remo da época da ‘máquina de fazer gols’”, explica Toni.
No jornalismo policial, a linguagem popular também virou marca registrada. J.R. Avelar, conhecido como “O Mensageiro da Morte”, popularizou expressões que entraram no vocabulário do público. “Ele dizia: ‘Olha, ele se funerou, ele morreu’. Isso foi adotado pelo povo”, lembra o radialista.
Personagens, bordões e a construção do imaginário popular
Ao longo das décadas, a Rádio Clube ficou marcada por personagens que ultrapassaram o rádio. Bordões e vozes viraram parte do cotidiano dos ouvintes. “Aconteceu, ligue na Clube”, dizia Gentil Filho, cuja voz marcou época. Outro nome lembrado é Agenor Santos, o “Trovão”, responsável por aberturas icônicas da programação.
O humor também encontrou espaço com figuras como o Coronel Virgulino, descrito por Toni como um talento comparável aos grandes nomes nacionais. “Se estivesse no eixo Rio-São Paulo, seria do nível de Chico Anysio ou Tom Cavalcante”, afirma.
Programas como “O Regatão Vem Aí”, comandado por Jacy Duarte, reforçaram a conexão com a cultura amazônica, trazendo personagens caboclos, histórias do interior e forte identidade regional. “Um dos programas mais duradouros da emissora”, destaca Toni.
Ele relembra ainda um exemplo de criatividade que se tornou marca interna da emissora: a diferenciação entre repórteres de rua por meio de trilhas sonoras específicas. No caso dele, apelidado de Carapirá, o operador passou a associá-lo à música “Pássaro Grande, Carapirá”, enquanto outro repórter, fã de Raul Seixas, era identificado pela canção “Maluco Beleza”. “Só pelo sinal no estúdio já sabiam quem ia entrar na transmissão”, conta.
Da radionovela ao auditório
A Rádio Clube também foi protagonista da era de ouro das radionovelas. “A primeira radionovela paraense foi 'Ressurreição'. Ela estreou na PRC-5 em 25 de novembro de 1945. O ator principal era o Otávio Cascaes. Depois veio o maior sucesso da Rádio Clube, que foi 'Renúncia'. Na PRC-5, 'Renúncia' era de Oduvaldo Vianna, o mesmo autor de 'A Grande Família', lá do Rio", conta Toni Golçaves.
“As famílias ficavam em volta do rádio, como hoje ficam em volta da televisão”, reforça o jornalista. Esse hábito transformou o rádio em principal entretenimento doméstico por décadas.
A programação também se expandiu com eventos ao vivo. A chamada “Aldeia do Rádio”, com auditório de cerca de 200 lugares, recebia artistas como Carmen Miranda e Orlando Silva, além de programas de auditório que misturavam música, humor e participação popular.
Hoje, aos 98 anos, a Rádio Clube do Pará é uma instituição que ajudou a construir a própria ideia de comunicação na Amazônia. Entre crises financeiras, improvisos técnicos, personagens inesquecíveis e uma audiência fiel, a história da emissora segue sendo construída com a participação dopúblico.
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