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Caso Vini Jr. amplia debate sobre racismo no esporte

O racismo no futebol, exemplificado por Vinícius Júnior, exige ações efetivas e políticas públicas para combater a intolerância e promover inclusão.

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Imagem ilustrativa da notícia Caso Vini Jr. amplia debate sobre racismo no esporte camera Mais uma vez, Vinícius Júnior se tornou o centro de uma discussão que ultrapassa as quatro linhas e alcança dimensões sociais e políticas. | Reprodução

O novo episódio de racismo contra Vinícius Júnior, atacante do Real Madrid, voltou a expor ao mundo uma ferida que insiste em permanecer aberta no futebol. Durante partida contra o Benfica, no Estádio da Luz, válida pela UEFA Champions League, torcedores foram flagrados imitando macacos em direção ao jogador brasileiro, além da suspeita de um jogador do clube português, Gianluca Prestianni, ter dito a palavra mono (macaco) em direção ao astro brasileiro.

O caso rapidamente ganhou repercussão internacional, pressionando a UEFA e reacendendo o debate sobre a efetividade das punições aplicadas no futebol europeu. Mais uma vez, Vinícius Júnior se tornou o centro de uma discussão que ultrapassa as quatro linhas e alcança dimensões sociais e políticas.

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Para o advogado Paulo Victor Squires, o protagonismo do atleta pode ser um divisor de águas, desde que produza efeitos concretos.

“O protagonismo dele pode vir a ajudar. A gente não sabe qual vai ser o resultado disso, mas é importante que esse posicionamento dele, pela visibilidade que ele tem, ganhe amplitude e traga essa discussão para dentro do futebol, para dentro da instituição FIFA, e que isso possa resultar em políticas públicas para combater o racismo estrutural.”

Segundo o especialista, o futebol no Brasil tem um alcance social incomparável. “Falando aqui de Brasil, é o esporte mais visto, mais consumido. É o futebol da massa. Tem o poder de atingir homens, mulheres, crianças, adultos, todas as classes sociais. Tendo essa discussão dentro desse esporte, pode vir a causar políticas públicas de combate ao racismo.”

Advogado Paulo Victor Squires
📷 Advogado Paulo Victor Squires |Arquivo pessoal

Ainda assim, Squires faz um alerta: não basta que o debate fique restrito às redes sociais.

“As discussões estão acontecendo, mas precisam fazer essa transposição da rede social para políticas públicas efetivas. As punições precisam ser mais severas, mais profundas. Precisam atingir o clube, impedir que receba jogos por determinado período. As sanções precisam ser mais efetivas.”

Ele também destaca que a luta não pode ser personalizada. “Pode transformar um atleta em figura central, mas a gente precisa ter cuidado. Essa não é uma luta personificada. Não é um problema dele pessoal. É uma questão muito mais ampla, social.”

O caso Remo x Avaí

Se na Europa o caso envolvendo Vinícius Júnior ganhou as manchetes, no Brasil o racismo também mostrou sua face recente durante partida entre Clube do Remo e Avaí Futebol Clube, na Ressacada, em Florianópolis, pela Série B de 2025

Vídeos divulgados nas redes sociais mostraram uma mulher, apontada como ex-conselheira do clube catarinense, proferindo ofensas racistas e xenofóbicas contra torcedores paraenses. O jogador azulino Reynaldo também foi alvo de ofensa racista em áudio que circulou online.

O Avaí informou na época que identificou a torcedora e suspendeu suas atividades relacionadas ao clube, iniciando apuração interna. O Remo, por sua vez, classificou o episódio como “clara manifestação de racismo e intolerância” e afirmou que não tolera qualquer forma de discriminação. O clube recorrentemente vem promovendo campanhas de conscientização, com lançamentos de uniformes oficiais em alusão à luta.

Em janeiro, a Justiça recebeu a denúncia apresentada pelo Ministério Público de Santa Catarina contra a torcedora do Avaí, acusada de praticar racismo e xenofobia contra jogadores e torcedores do Clube do Remo. Os fatos teriam ocorrido no dia 15 de novembro de 2025, durante partida realizada na Ressacada.

Na ação penal, o Ministério Público requer a condenação da acusada à pena de reclusão que pode variar de dois a cinco anos. Além disso, pede a fixação de indenização mínima no valor de R$ 30 mil por danos morais coletivos, quantia que, se determinada pela Justiça, deverá ser destinada ao Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL).

Números que preocupam

O 10º Relatório Anual do Observatório da Discriminação Racial no Futebol apontou que, apenas em 2023, foram registrados 136 casos de racismo no futebol brasileiro — aumento de quase 40% em relação a 2022 e crescimento de 444% desde 2014.

Além disso, levantamento sobre diversidade no futebol brasileiro indica que 41% dos profissionais negros já sofreram racismo, enquanto 52% presenciaram ataques contra colegas. As ocorrências se concentram principalmente em estádios, mas também nas redes sociais e centros de treinamento, demonstrando que o ambiente esportivo ainda reproduz desigualdades estruturais.

O “Programa Vini Jr.” e os limites da lei

Diante desse cenário, ganhou força na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 3.089/2023, que cria o “Programa Vini Jr. de Combate ao Racismo”. A proposta prevê campanhas educativas obrigatórias, capacitação de profissionais do esporte e protocolo de interrupção de partidas diante de manifestações racistas.

A advogada Tayse Silva explica que a iniciativa atua em duas frentes: “Basicamente, visa criar medidas de combate ao racismo estruturadas de dois modos: ações educativas e preventivas — promovendo campanhas, paralisando partidas e capacitando funcionários — e medidas para formalização da denúncia quando o crime já aconteceu.”

“O ‘Programa Vini Jr.’ não visa criar um novo tipo penal. O racismo continua sendo crime imprescritível e inafiançável. O projeto atua antes e durante o fato, no plano administrativo e preventivo, reforçando a aplicação das leis já existentes.”

Advogada Tayse Silva
📷 Advogada Tayse Silva |Arquivo pessoal

No entanto, Tayse ressalta que a legislação, sozinha, não resolve o problema estrutural.

“Dentro de uma acepção do racismo como projeto de manutenção de privilégios estruturais, há muito a se mobilizar para ser prevenido e efetivamente reparado. Quando acontecer, é preciso responsabilização efetiva em todas as esferas — policial, judicial e também pela própria CBF.”

Ela também alerta para o risco de a norma se tornar simbólica. “Sem regulamentação detalhada, pode haver insegurança jurídica e ausência de efetividade. Existe o risco de virar uma ‘lei para inglês ver’, com certificações simbólicas e sensação de injustiça para as vítimas.”

Educação, punição e mudança cultural

Para Paulo Victor Squires, o combate ao racismo exige mais do que punições isoladas. “Não basta só entrar numa faixa no estádio com ‘não ao racismo’. Isso precisa ter medidas efetivas e estruturais.”

Ele defende, inclusive, a formação social dos atletas. “O atleta é um cidadão. Muitos não tiveram formação adequada sobre questões sociais. Os clubes poderiam proporcionar cursos, palestras, capacitações. Pensar no ser humano, não só na alta performance.”

Segundo ele, o impacto da postura de Vinícius Júnior já começa a provocar mudanças no debate interno do futebol. “Isso contribui muito para a cultura dentro do meio do futebol, que ainda é muito racista, muito machista, muito homofóbico, e isso precisa mudar.”

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Desafio além do gramado

Entre os episódios internacionais e os casos regionais, o futebol segue refletindo desigualdades históricas da sociedade brasileira e mundial. A Constituição Federal já classifica o racismo como crime inafiançável e imprescritível. A Lei nº 7.716/1989 e a Lei Geral do Esporte reforçam mecanismos de punição.

O desafio agora é transformar indignação em ação permanente. Entre punições mais severas, políticas públicas estruturadas, capacitação e educação, o futebol tem a oportunidade — e a responsabilidade — de deixar de ser palco de intolerância para se tornar exemplo de inclusão.

O grito contra o racismo ecoa dos grandes estádios europeus às arquibancadas brasileiras. Resta saber se ele será ouvido além do apito final.

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