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INDICAÇÃO OBRIGATÓRIA

Hapvida obrigou uso de cloroquina: "não deixe de prescrever"

Em uma das telas, uma mensagem é destacada em vermelho: "Não deixe de prescrever".

segunda-feira, 04/10/2021, 09:19 - Atualizado em 04/10/2021, 09:19 - Autor: Com informações de Folha de S. Paulo


A quarta maior operadora de planos de saúde do país, com sede no Ceará, promoveu uma ostensiva interna pelo uso de medicamentos do chamado "kit Covid"
A quarta maior operadora de planos de saúde do país, com sede no Ceará, promoveu uma ostensiva interna pelo uso de medicamentos do chamado "kit Covid" | Divulgação

Forçar a prescrição do "kit Covid" e apelidar de “ofensores” os profissionais da rede de assistência médica que exerciam sua autonomia para não receitar medicamentos sem comprovação científica de eficácia contra a Covid-19. Promover blitz na saída de consultórios para averiguar e até mesmo substituir receitas médicas que não prescreviam esses remédios e fornecer hidroxicloroquina gratuitamente a pacientes. Essas são algumas das práticas relatadas por médicos da rede Hapvida.

Elas apontam que a quarta maior operadora de planos de saúde do país, com sede no Ceará, promoveu uma ostensiva interna pelo uso de medicamentos do chamado "kit Covid" mesmo diante de evidências de sua ineficácia aferida em ensaios clínicos. As informações são do Jornal Folha de São Paulo. 

Imagens do sistema de registro médico da Hapvida mostram os profissionais eram induzidos a receitar esses medicamentos sem eficácia. Em uma das telas, uma mensagem é destacada em vermelho: "Não deixe de prescrever".

Na tela inicial do sistema, dois gráficos exibiam dados do Ministério da Saúde e informações supostamente observadas em hospitais da rede Hapvida que poderiam até impressionar algum profissional menos familiarizado com a pesquisa científica, mas ofereciam uma comparação que ignora preceitos fundamentais da pesquisa científica.

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Segundo o  o médico e advogado Daniel Dourado, pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (Cepedisa/USP) .“Esse tipo de conduta é grave porque claramente quer empurrar o médico para prescrever o kit. Usaram dados que não comprovam absolutamente nada”, ressaltou.

Ainda segundo ele, “como a maioria dos médicos não faz pesquisa e não tem formação para isso, podem ser iludidos por esse tipo de coisa”. “A gente não sabe o que é ignorância e o que é má-fé. E, de um modo ou de outro, é lamentável.”

A Hapvida informou, em nota, que “no melhor intuito de oferecer todas as possibilidades aos nossos usuários”, houve uma “adesão relevante da nossa rede” ao "kit Covid", mas que é coisa do passado. “Há meses não se observa a prescrição dessa medicação nas nossas unidades.”

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Segundo uma médica de um hospital adquirido pela Hapvida no interior de São Paulo, o protocolo com “kit Covid” já existia em junho de 2020. Ela afirma que havia cota de prescrição de hidroxicloroquina, e o plano dava a medicação para todos os pacientes com suspeita de Covid. Ela questiona a “fixação” do plano pela medicação, enquanto outras não eram distribuídas.

AUTONOMIA OU IRRESPONSABILIDADE?

O Conselho Federal de Medicina (CFM) evocou a “autonomia médica” ao dar seu aval para a prescrição da hidroxicloroquina no país, por meio do Parecer nº4/2020. Ao mesmo tempo, médicos de operadoras de saúde eram coagidos a receitar medicamentos ineficazes sob o manto deste mesmo argumento.

O CFM é alvo de uma ação da Defensoria Pública da União (DPU) por sua responsabilidade na chancela do uso consentido de cloroquina e de hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com sintomas leves, importantes ou críticos decorrentes da Covid-19.

O argumento da autonomia médica também foi repetido pelo próprio presidente Jair Bolsonaro (sem partido), principal garoto-propaganda do "kit Covid" e dos medicamentos nele contidos, como ficou claro em diversas de suas lives e no discurso recente na Assembleia-Geral da ONU, em que defendeu o que chamou ainda de tratamento precoce.

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