Em regiões onde a geografia impõe convivência diária e a política internacional atravessa estradas, rios e relações humanas, qualquer abalo além da linha imaginária da fronteira costuma ecoar do lado de cá. No extremo Norte do Brasil, Roraima acompanha com atenção os sinais vindos da Venezuela, ciente de que estabilidade regional, segurança pública e rotina da população caminham juntas quando o cenário geopolítico se tensiona.
Foi nesse contexto que o governo de Roraima divulgou nota neste sábado (3) afirmando que monitora os acontecimentos recentes na Venezuela e possíveis impactos na fronteira. O Executivo estadual ressaltou o compromisso com a paz, a ordem pública e a segurança da população roraimense, destacando a posição estratégica do estado e suas relações históricas de cooperação com países vizinhos, como Venezuela e Guiana.
CONTEÚDO RELACIONADO
- Lula condena os ataques dos EUA à Venezuela: "Inaceitável"
- Lula convoca reunião emergencial após ataque dos EUA à Venezuela
- Helder Barbalho condena ataque dos EUA à Venezuela: 'retrocesso histórico'
DESDOBRAMENTO DA CRISE
Segundo o comunicado, as autoridades estaduais mantêm contato permanente com órgãos da União para acompanhar eventuais desdobramentos da crise. O governo reforçou ainda a defesa de soluções diplomáticas e do diálogo internacional como forma de evitar uma escalada de conflitos que possa comprometer o bem-estar dos povos da região.
Quer mais notícias nacionais? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.
A manifestação ocorre após a confirmação de bombardeios realizados pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, durante a madrugada, em Caracas e em outras áreas do território venezuelano. Após a operação, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Brasil e Venezuela compartilham mais de 2 mil quilômetros de fronteira, e, de acordo com o ministro da Defesa, José Múcio, a área segue "tranquila, monitorada e aberta".
"PROFUNDA PREOCUPAÇÃO"
O governo roraimense informou ainda que os órgãos estaduais de segurança pública permanecem articulados e em funcionamento normal, sem alteração nas rotinas de atuação até o momento.
Na cidade de Pacaraima, que faz fronteira direta com a Venezuela, o prefeito Waldery D’ávila declarou “profunda preocupação” com os ataques registrados em Caracas. Segundo ele, a prefeitura acompanha a situação em conjunto com forças de segurança para garantir estabilidade e paz na região fronteiriça.
ROTA CLANDESTINA NA FRONTEIRA FECHADA
Relatos de quem estava do lado venezuelano ajudam a dimensionar o clima local. O servidor público federal Jean Oliveira, de 54 anos, contou que deixou a cidade de Santa Elena de Uiarén por uma rota clandestina, já que a fronteira estava fechada no início da manhã. "Tivemos que passar por uma rota alternativa", afirmou.
Segundo Jean, após sua saída, autoridades venezuelanas passaram a permitir apenas a entrada de brasileiros no território nacional, mantendo restrições para cidadãos venezuelanos. Apesar da apreensão inicial, ele relatou que a situação aparente era de normalidade. "A população estava tranquila. Os mais apreensivos eram os brasileiros que estavam hospedados em hotel, mas não vimos alterações significativas no cotidiano local", disse.
INTERVENÇÕES NA AMÉRICA LATINA
A ofensiva dos EUA contra a Venezuela marca um novo capítulo das intervenções diretas de Washington na América Latina. A última invasão norte-americana a um país da região havia ocorrido em 1989, no Panamá, quando o então presidente Manuel Noriega foi capturado sob acusação de narcotráfico.
No caso venezuelano, os Estados Unidos acusam Nicolás Maduro de chefiar um suposto cartel conhecido como “Los Soles”, alegação contestada por especialistas em tráfico internacional de drogas, que questionam a existência da organização. Antes da operação, o governo norte-americano oferecia uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levassem à prisão do presidente venezuelano.
MOTIVAÇÕES GEOPOLÍTICAS
Críticos da ação apontam motivações geopolíticas, como o interesse em afastar a Venezuela de alianças com China e Rússia e ampliar o controle sobre o petróleo do país, que detém as maiores reservas comprovadas do mundo. Enquanto o tabuleiro internacional se rearranja, Roraima observa a fronteira com cautela, buscando preservar segurança e estabilidade em um território onde a política externa deixa de ser abstração e se torna experiência cotidiana.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar