Um local inusitado serviu de cenário para os momentos mais decisivos na negociação que possibilitou a aprovação da Comissão da Verdade no plenário da Câmara na noite de quarta-feira. Com o aumento da tensão entre governo e oposição pondo em risco a tentativa de acordo, os principais interlocutores foram parar no banheiro.
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, recorreram à privacidade do banheiro do gabinete do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), para telefonar para a presidente Dilma Rousseff, em viagem a Nova York, e ouvir, como resposta, a desaprovação dos termos negociados por seus representantes, naquele momento, com a oposição.
Como os líderes Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA) e Duarte Nogueira (PSDB-SP) já davam como encerrada a tentativa de acordo, novamente os negociadores recorreram ao reservado do banheiro. Para salvar a votação ainda naquela noite, Marco Maia engrossou a população do local, levando os dois líderes de oposição para a reunião com os ministros, que se mantinham no banheiro.
A essa altura, já se apertavam nos cerca de 1,5 metro por 2,6 metros Cardozo, Maria do Rosário, Marco Maia, José Genoino (assessor do Ministério da Defesa), o líder do governo, Cândido Vaccarezza (PT-SP), e os líderes ACM Neto e
Duarte Nogueira. O acordo saiu e o projeto foi aprovado. “Foi uma noite inusitada”, constatou Maia. “(O banheiro) Foi a busca por um espaço para se fazer uma conversa sem que todos ouvissem. Uma busca de privacidade”, justificou o presidente da Câmara.
Antes, porém, uma reunião preliminar ocorreu no banheiro do gabinete da liderança do DEM. Os líderes ACM Neto, Duarte Nogueira, e o da minoria, Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), se reuniram com Marco Maia para apresentar o texto que a oposição concordava em votar. “As duas salas da liderança estavam tomadas por deputados”, argumentou o anfitrião ACM Neto.
O banheiro já foi local de curtos encontros em gabinetes do presidente da Câmara e de líderes partidários, quando se requer uma resposta rápida com privacidade dos interlocutores e as salas estão ocupadas por parlamentares. Para evitar essa situação, na liderança do PMDB, no entanto, há uma salinha, de proporções ao do banheiro de Marco Maia, para as conversas reservadas do líder.
O grande problema discutido no banheiro foi a imposição de restrições para a indicação de integrantes da Comissão da Verdade, criada para apurar violações de direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988. No final, a oposição conseguiu emplacar no texto uma proibição de indicação de quem não tiver “imparcialidade” para analisar o tema.
NO SEN ADO
O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), defendeu a manutenção pelos senadores do texto aprovado pela Câmara que cria a Comissão da Verdade. Jucá disse que o texto deve ter uma tramitação célere na Casa, mesmo passando por algumas comissões antes de ser discutida em plenário.
Para o líder, o acordo costurado entre governo e oposição para a votação na Câmara facilita a discussão da proposta no Senado. (Brasília/AE)
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