Pedidos para empregar parentes e amigos eram frequentes na relação entre o ex-diretor da Agência Nacional de Águas Paulo Vieira e a ex-chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo Rosemary Noronha, como mostra o inquérito da Operação Porto Seguro, da PF.
Os e-mails rastreados pela PF mostram que Rosemary pediu empregos para amigos ou parentes. Em 10 de novembro de 2009, ela escreveu e-mail para Vieira cobrando uma vaga para um primo dela, o arquiteto Marcelo de Lara Peixoto, na extinta Rede Ferroviária Federal. Vieira recorreu a José Francisco da Cruz, para quem mandou o currículo de Peixoto em 11 de novembro de 2009. “Segue em anexo o currículo do nosso indicado para ajudar nos trabalhos de inventário dos bens móveis e imóveis da ex-RFFSA no âmbito do Estado de São Paulo. Peço-lhe encaminhar com urgência ao gabinete do senhor ministro de Estado dos Transportes para fins de nomeação”, escreveu Vieira a Cruz.
Em 16 de dezembro de 2009, Rosemary cobrou urgência na colocação do primo: “POR FAVOR faça algo para o MARCELO meu primo ser nomeado antes do Natal. Isso é muito importante”. Peixoto foi mesmo nomeado às vésperas do Natal, em 23 de dezembro de 2009, em cargo comissionado na RFFSA e, segundo o Ministério dos Transportes, ainda trabalha no escritório de São Paulo.
José Francisco Cruz tinha sido contratado na RFFSA depois de um pedido de Vieira para Rosemary. A nomeação de Cruz foi publicada no Diário Oficial em 30 de setembro de 2009. Em 27 de novembro de 2012, Cruz foi exonerado. Ele não é indiciado no inquérito da Porto Seguro.
Em nota, o Ministério dos Transportes disse acreditar que a inventariança da RFFSA não foi prejudicada por quaisquer atos de Cruz ou Peixoto. Segundo o ministério, as decisões de Cruz no cargo eram constantemente acompanhadas por órgãos de controle interno e externo do governo.
Rosemary também solicitou a Vieira emprego para o cunhado Luís Ismael de Noronha, que, segundo a PF, foi contratado pela empresa Tecondi, cujo vice-presidente era outro indiciado no inquérito, o empresário Carlos César Floriano. A Tecondi atua com contêineres no porto de Santos, e foi beneficiada por Vieira com pareceres fraudados pela AGU. A PF afirma que Noronha tem vínculos com a Tecondi desde janeiro de 2010.
O advogado de Paulo Vieira, Pierpaolo Bottini, disse que enquanto não tiver acesso a toda a investigação da PF, não vai comentar o assunto. O advogado de Rosemary não foi encontrado e não retornou os recados do GLOBO.
“PETEQUEIRA”
Foi unânime entre os membros do Diretório Nacional do PT a defesa do ex-presidente Lula no escândalo da Operação Porto Seguro e sua relação com a ex-chefe de gabinete do escritório da Presidência da República, em São Paulo, Rosemary Noronha.
Para os petistas, é preciso preservar seu maior líder no que chamam de tentativa da aposição de desgastar a imagem do PT. A estratégia é apoiar publicamente a investigação e manter distância entre Rose, chamada de “petequeira” ou pessoa de “função secundária”, e seu padrinho político.— O Lula e a Operação Porto Seguro foram discutidos dentro do contexto da criminalização e da busca do desgaste da imagem do PT — disse o ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont.
Os petistas tomaram do ex-deputado Roberto Jefferson o termo “petequeiro”, usado por ele ao falar sobre o ex-dirigente dos Correios Maurício Marinho, flagrado embolsando um pacote com cerca de R$ 3 mil, no grampo que originou o escândalo do mensalão. Na gíria, “petequeiro” é quem se vende por pequenos valores.
— Houve uma posição quase unânime de defender o presidente Lula contra o uso político do caso pela oposição. Temos que preservar nossa principal liderança — disse o ex-deputado Jorge Bittar (RJ).
Para o secretário nacional de Comunicação do PT, André Vargas, Rosemary tem papel secundário no caso:
— Nenhum homem público é responsável pelo que faz o seu assessor no exercício do mandato. Muito menos um ex-assessor. Por isso, não vamos comentar esse tipo de procedimento. Está muito nítido que Rosemary tem papel absolutamente secundário.
(Diário do Pará)
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