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CÍRIO DE NAZARÉ

Fé move os passos dos devotos rumo a Belém

Aos 71 anos, Nilza Salvador era uma exceção. Enquanto quase todos buscavam um lugar para sentar, deitar, massagear os pés, passar algum gel que amenizasse dores e calos, na primeira parada de descanso, Nilza mantinha-se serena, tomando uma água de coco, s

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Aos 71 anos, Nilza Salvador era uma exceção. Enquanto quase todos buscavam um lugar para sentar, deitar, massagear os pés, passar algum gel que amenizasse dores e calos, na primeira parada de descanso, Nilza mantinha-se serena, tomando uma água de coco, sombrinha ao lado. Nilza fazia parte das cerca de 400 pessoas, segundo a Polícia Rodoviária, que encaravam os 78 quilômetros que separam o município de Castanhal da capital Belém, na “caminhada da fé”, a romaria de fiéis que a pé demonstram a fé em Nossa Senhora de Nazaré.

“Já são 19 anos acompanhando essa caminhada”, diz a mulher, que carrega no nome a lembrança de Jesus Cristo. Nilza Salvador morava em Paragominas quando aceitou o convite do filho para acompanhá-la no percurso. “Meu filho teve um acidente e fez um pedido à Nossa Senhora. Ele decidiu vir com os amigos dele e me convidou. Tomei gosto”. A romaria saiu de Castanhal às 8h30, um pouco mais tarde do que havia previsto o coordenador José Nazareno Henriques, que planejava uma saída mais cedo para ganhar tempo. A primeira parada foi num posto à saída de Castanhal. O almoço em Americano. A previsão de chegada a Belém é às 8h de hoje.

A caminhada a Belém é considerada a mais antiga romaria vinda do nordeste paraense rumo à capital. A origem, segundo a Fundação Nazaré, foi há 40 anos, quando a devota Nádia Magalhães decidiu pagar uma promessa que tinha feito à Nossa Senhora. Mas foi outro devoto, Raimundo Nonato Magalhães, conhecido como ‘Zé do Bode’, o personagem que ajudou a difundir com mais vigor a romaria.

Isso porque, além do sacrifício da caminhada, Magalhães ainda acrescentava um ingrediente pesado. Uma cruz de madeira que chegou a medir oito metros de comprimento. ‘Zé do Bode’ inspirou o surgimento da Associação Comunitária dos Devotos e Romeiros de Nossa Senhora de Nazaré de Castanhal, a Aderca, em 2005. “Esse ano ganhamos um terço de madeira, presenteado pela paróquia de Igarapé-Açu”, diz Rebertt Galvão. O terço, feito de uma madeira leve, conduzia a peregrinação.

A caminhada de Castanhal espalhou-se por outros municípios do nordeste paraense. Curuçá, Igarapé-Açu, Nova Timboteua, Magalhães Barata e Maracanã são municípios onde os moradores devotos decidiram pegar a estrada rumo a Belém no período que antecede o Círio.

De Magalhães Barata saíram 75 pessoas na última segunda-feira. Eram 17h quando os romeiros iniciaram a caminhada. É um percurso longo. São 165 km até Belém. A previsão de chegada é na sexta-feira.

É a primeira caminhada de Elinalda Ferreira Silva, 28 anos. Pôs o pé na estrada para cumprir a promessa de sete anos atrás. O filho tinha convulsões que não eram bem diagnosticadas. Depois do acordo divino, curou-se, segundo a mãe. Elinalda demorou a saldar a dívida. Este ano decidiu quitar o débito com Nossa Senhora.

PROMESSA

“Aqui todo mundo tem uma promessa”, diz Daniel Rodrigues, presidente da Associação Romeiros de Nazaré. Em relação à própria, faz mistério. “Foram conquistas realizadas. Enquanto eu tiver vida, farei essa caminhada”. Os caminhantes de Igarapé-Açu saíram do município às 16h de terça-feira. Serão 127 quilômetros até Belém. Nada que assuste Rosa Lopes Cardoso, 47 anos. Há nove anos ela cumpre o mesmo ritual, desde que se livrou de uma incômoda ‘dor de cadeira’. “Agora é para o resto da vida”.

De Curuçá saíram 27 romeiros. Bem mais do que os cinco que meia década atrás iniciaram a caminhada. Ideia de Adinei Araújo e mais alguns amigos. “A gente deixa para caminhar mais à noite. De dia as pessoas se recuperam, descansam”, diz ele.

Era o que se via às margens de um igarapé em Apeú, com redes atadas e pés descansando nas águas geladas do rio. Pés inchados como o de Joane Brasil, 28 anos. Os últimos metros de caminhada foram apoiados nos ombros do marido Lailson Fausto, 30 anos. É o terceiro ano de caminhada do casal, juntos há uma década. Joane mal conseguia se manter de pé. Mas nem as lágrimas, nem o inchaço nos tornozelos, segundo ela, impediriam a chegada a Belém. “Não é a primeira vez que sinto isso. Das outras vezes consegui. Dessa vez também”.

Vigília: momentos de reflexão e preparação

Missa e comunhão dos devotos, reza do terço, canções religiosas e leitura do Evangelho durante 48 horas ininterruptas. Serão ao todo 130 congregações católicas, revezando em uma escala de orações que reúne seis grupos a cada duas horas, até a madruga desta sexta-feira. Iniciada na manhã de ontem, a Vigília de Adoração ao Santíssimo Sacramento serve como uma espécie de aquecimento para o Círio de Nazaré.

Criada em 2001 pela coordenação da festa, a vigília é encarada pelos fiéis como um momento de reflexão e preparação para a procissão deste domingo (9). “É um momento a mais para viver a minha espiritualidade. O Círio vai muito além do que acontece na procissão. Outubro inteiro acaba ganhando uma dimensão especial”, define Eliana Oliveira, devota da paróquia de São José de Queluz.

Realizada na Capela Bom Pastor, no Centro Social de Nazaré, a vigília funciona como um grupo de oração, conduzida pelos próprios fiéis. A maioria de seus frequentadores é formada por membros das paróquias de Belém, moradores vizinhos e parte dos voluntários que participam da organização da festa. A capela, apesar de pequena, com lugar para 105 pessoas, vem recebendo cada vez mais gente ao longo de cada edição. Na passada, foram 1.775 devotos. Para este ano, as estimativas são de dois mil, no mínimo.

“A grande novidade é que o evento será televisionado. A missa de encerramento será realizada na Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, por Dom Alberto Taveira, com cobertura ao vivo pela Rede Vida”, afirma Francisco José Silveira, que, ao lado de sua esposa Carla, organiza esta vigília. Todos os anos um casal fica responsável pela organização da vigília.

COMO PARTICIPAR

A vigília segue até as 6 da manhã desta sexta-feira, na Capela Bom Pastor, no Centro Social de Nazaré. Neste dia, haverá uma missa na Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, a partir das 9h, que dará inicio ao traslado da imagem de Nossa Senhora para Ananindeua.

Saiba tudo sobre a quadra nazarena no hotsite do Círio

(Diário do Pará)

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