“Ao contemplar Maria contemplamos Deus e nossa fé em Cristo. Nesse caminhar do Círio estamos seguindo a Deus e só aumentamos nossa fé. Não há como não se emocionar. Estamos nos braços de Maria”. São com essas sábias palavras que o professor de matemática Augusto César dos Reis Costa faz a sua reflexão. Ele está de pé, na sua sala de estar, rodeado de senhoras comovidas pelo momento de oração. É início da noite de quinta-feira: e asim começa mais um encontro de um dos grupos mais tradicionais do bairro da Cremação, entre os que fazem peregrinações durante o período que antecede o Círio.
Semanas antes da festa da Padroeira da Amazônia, fiéis de todos os bairros de Belém fazem as peregrinações, uma preparação espiritual para o Círio. Ao todo, são 15 encontros em que imagens de Nossa Senhora de Nazaré vão, de casa em casa, abrindo a contagem regressiva para a Festa.
Tudo começou na Missa do Mandato, celebrada no final de agosto na Basílica Santuário, dando a largada à 222ª edição do Círio. Com três mil fiéis e dirigentes de 80 paróquias da Grande Belém, a bênção da imagens marcou o início das peregrinações que estão percorrendo quase 200 mil lares paraenses até o dia do Círio - numa das mais emocionantes e bonitas tradições que antecipam os festejos nazarenos. São centenas de senhoras que se preparam com esmero para receber em suas casas, em novenas, imagens que peregrinam em diversos bairros de Belém.
Há mais de 30 anos, Dona Ana Araújo, hoje com 89 anos, e Dona Ruth Araújo, de 82 anos, estão à frente de um dos grupos peregrinos mais antigos do bairro da Cremação. A fé e a união é o fator principal que move esse grupo, que só tem crescido com o passar do tempo. A dona de casa Estelina Figueiredo, 56 anos, conta que cada um procura sempre trazer alguém da família e torce para que todos os anos o número de pessoas reunidas aumente.
“Não sei dizer quantas pessoas participam do grupo num total. Tem dia que vem mais gente, tem dia que alguém traz algum parente, mas ainda sinto falta de uma participação maior. A figura masculina infelizmente ainda é ausente, mas sou daquelas que acreditam que isso pode mudar. A participação de todos da família nesse momento é fundamental”, diz.
Mesmo com alguns membros que já não estão mais presentes e com algumas dificuldades da vida, desistir não é uma opção. A anfitriã do grupo, Dona Ana Araújo, teve uma perda muito forte. Há um ano, Ana perdeu seu filho mais velho, que a acompanhava em todas as novenas. E ela conta que, mesmo com toda a dor, nunca desistiu da sua fé. Apesar da perda, ela diz que conseguiu dar a volta por cima e está firme e forte com Maria. “Ainda não estou totalmente recuperada, mas por Nossa Senhora consegui me reerguer. Ela me fortalece e nunca desistirei dela. Todos os anos eu mudo meu altar e deixo a minha santinha linda”, conta emocionada.
A octogenária sempre foi muito católica desde a juventude. Ela e sua família são a prova de que a união entre todos é o que faz a fé se renovar. Suas filhas, Carmen Lúcia e Vitória Ribeiro, têm os encontros como algo tradicional na família. “Quando o mês de outubro começa a se aproximar, o clima parece que muda”, sorri Carmen Lúcia.
Nesses mais de trinta anos, o grupo reúne pessoas com histórias de fé. Marina Kato, 60 anos, uma das romeiras mais antigas, conta que graças a Nossa Senhora ela pode se tornar mãe e hoje tudo o que ela conquistou foi graças à fé na santinha e também pela participação no grupo. “Depois de cinco anos no grupo, pedindo sempre para que Nossa Senhora me abençoasse, pude realizar o sonho de ser mãe. Hoje minha primeira filha é uma mulher realizada, tenho minha casa própria e posso me considerar uma mulher completa”.
O final de cada ciclo sempre é finalizado com uma missa onde todos confraternizam. Esse ano, o último encontro deve acontecer entre os dias 6 e 7 de outubro, na casa de Dona Ruth Araújo, e como todos os anos, no último encontro cada um levará um alimento não perecível para doação a alguma instituição de caridade.
O Círio é movido pela devoção. E contribuem com essa veneração os voluntários que levam a mensagem de amor e fé em Nossa Senhora de Nazaré aos lares paraenses. Esses mensageiros são conhecidos como dirigentes de peregrinação e têm a tarefa de cumprir a missão dada por Jesus. Senhoras como Ana, Ruth, Estelina, Marina, assim como tantas outras, são destinadas a orar juntas a Nossa Senhora de Nazaré em lugares diferentes, num só coro, para manter acesa a chama da fé. E assim seguem renovando uma das mais belas tradições paraenses.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.

Comentar