Diário Online
SEMANA DA MULHER

8M: Ser Ninguém ao lado de todas as mulheres do mundo

O Dol celebra o Dia Internacional da Mulher durante a semana toda com conteúdo feito por mulheres que pesquisam e vivem a luta por direitos femininos. No texto de hoje, a doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Pará (PPGA-UFPA), Camille Castello Branco, aborda questões de rótulos e liberdades da mulher na sociedade.

sexta-feira, 11/03/2022 - Autor: Camille Castelo Branco - Especial para o Dol

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Autorretrato da fotógrafa Vivian Maier.
Autorretrato da fotógrafa Vivian Maier. | ( Reprodução )

Há algum tempo me voltam à mente ecos e imagens do documentário Finding Vivian Maier. O filme me ajudou a pensar sobre arte de mulheres entocada em caixas. Trata-se de uma história em tudo impressionante. Vivian Maier trabalhou, durante quase toda a vida, como babá de crianças em Nova York. Muito reservada, tinha tendências à compulsão acumulatória – especialmente de manchetes de jornais com notícias chocantes –, um sotaque francês de origem desconhecida e um temperamento taciturno que, por vezes, poderia se tornar colérico. Maier nunca se casou e a forma como falava de homens, com temor e repulsa, dava indícios de que sofrera abuso sexual. Não teve filhos e viveu como morreu: no anonimato. Até que John Maloof, anos após sua morte, acidentalmente esbarrou com sua história.

Maloof tinha o hábito de participar de grandes e pequenos leilões em busca de tesouros que passariam despercebidos como quinquilharias. Um dia, adquiriu uma caixa de negativos. Eram fotografias tiradas por Maier. Quando as revelou, tomou um impacto. Eram fotografias em preto em branco, carregadas de uma forte sensibilidade e um apurado olhar artístico sobre pessoas, paisagens e animais circulando pelas ruas de Nova York. Maloof se lançou em uma investigação com ares sherlockianos para descobrir mais sobre os retratos, e seu percurso desembocou em um acervo não de centenas, mas de milhares de negativos de fotos tiradas por Maier ao longo da vida e nunca reveladas. A câmera que a artista usava era uma Rolleiflex, uma máquina mais branda quanto ao gesto fotográfico, adequada para retratistas acanhados, como era o caso de Vivian. Pendurada no pescoço por uma alça, a Rolleiflex possui visor localizado em seu topo, de modo que o fotógrafo precisa olhar para baixo e não para frente, ao capturar a imagem.   

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As fotos continham muitas camadas de complexidade. Eram, ao mesmo tempo, ternas e melancólicas. Retratavam afeto e solidão. Sofisticação e pobreza. Alegria e desamparo. Quando Maloof trouxe as fotografias ao público em exposições e galerias virtuais, centenas de pessoas se comoveram e se apaixonaram pelo trabalho de Maier. Ela não sabia quanta gente iria tocar. Não viveu para ver a emoção que as fotografias que produziu com tanto esmero, quanto sigilo iria produzir.

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 Há, é evidente, uma série de mitos e arquétipos envolvendo mulheres e caixas na cultura ocidental. O mais conhecido, sem dúvidas, é o de Pandora, que comete o pecado feminino imperdoável da curiosidade e abre a caixa com a qual foi presenteada pelos deuses, libertando assim todos os males do mundo, que recaíram como suplício para a humanidade. Mas há também a caixa especialmente concebida pela Rainha Má, para guardar o coração arrancado de Branca de Neve, um coração puro e bom, que a distinguia como a mais bela do reino. Também é conhecida a imagem de pequenas bailarinas de plástico, presas pelos pés por ímãs, levantando e rodopiando cambaleantes em caixinhas de música.   

Camille Castelo Branco, antropóloga: " Há, é evidente, uma série de mitos e arquétipos envolvendo mulheres e caixas na cultura ocidental. O mais conhecido, sem dúvidas, é o de Pandora, que comete o pecado feminino imperdoável da curiosidade e abre a caixa com a qual foi presenteada pelos deuses, libertando assim todos os males do mundo, que recaíram como suplício para a humanidade".
Camille Castelo Branco, antropóloga: " Há, é evidente, uma série de mitos e arquétipos envolvendo mulheres e caixas na cultura ocidental. O mais conhecido, sem dúvidas, é o de Pandora, que comete o pecado feminino imperdoável da curiosidade e abre a caixa com a qual foi presenteada pelos deuses, libertando assim todos os males do mundo, que recaíram como suplício para a humanidade". | ( Reprodução )
Nos baús de Emily Dickinson, outra artista que viveu e morreu no anonimato, foi encontrado um poema que nem em muitas vidas eu teria a competência necessária para traduzir. Por sorte, um dos melhores tradutores do país, Adalberto Müller, se encarregou da tarefa:

Eu sou Ninguém! Você é Quem?

Você – é Ninguém – também?

Então somos um par!

Não conta! Podem te expulsar!

Que chato – ser – Alguém –

Se mostrando – como o Sapo –

Na beira do Brejo –

Sempre com o mesmo papo –

Me agrada a ideia de ser Ninguém. Autoria e autoridade muitas vezes são tratadas como sinônimos e, em se tratando de arte, são sinônimos infelizes. Recordo do que diz Joni Mitchell: "Você esquece quem sou quando canto, chora e sente sem lembrar meu nome. Este é o sinal de que sou boa no que faço". Eu gostaria de ser Ninguém ao lado de todas as mulheres do mundo. Mas não um Ninguém trancafiado. Não um Ninguém aprisionado. Meu desejo é que o som do nosso anonimato se espalhe por todos os lugares, preencha todos os espaços. Sem arreios. Sem caixas. 


Camille Castelo Branco é cientista social, antropóloga e poeta. Ela é ainda doutoranda Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Pará UFPA) e tem experiência em discussões sobre gênero, feminismos, etnicidade, violência e mobilização social na Amazônia.

O título original do texto da autora é "Caixas e baús para guardar mulheres".


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