O dia 23 de abril é marcado por diversas celebrações em diferentes partes do Brasil. Igrejas recebem fiéis devotos de São Jorge, enquanto terreiros de religiões de matriz africana reverenciam Ogum com cantos, tambores e rituais. O que une esses dois espaços é a fé em figuras que, ao longo do tempo, passaram a caminhar lado a lado no imaginário popular.
De acordo com o sacerdote e historiador Pai Robson de Ogum, da Casa de Umbanda Cabocla Toia Jarina, essa ligação entre São Jorge e Ogum nasce de um processo histórico. Ele explica que, durante o período da escravidão, africanos trazidos à força ao Brasil encontraram no sincretismo religioso uma forma de manter vivas suas crenças. “Esse sincretismo nasce como estratégia de resistência, quando os africanos foram proibidos de cultuar seus Orixás livremente. Assim, associaram suas divindades aos santos católicos”, disse.

Ele explica que, em épocas que não se podia cultuar Orixás do Panteão Africano, se usava a imagem do santo católico de forma visível sobre o assentamento do Orixá. "Era a estratégia utilizada para que segredos e saberes fossem preservados no momento que se viveu a escravidão. Aqui, a gente entende que o sagrado se manifesta de muitas formas. Se a imagem ajuda alguém a se conectar com a espiritualidade, ela tem seu valor. Mas sempre com consciência de quem é quem dentro da nossa religião", disse.

Segundo o sacerdote, São Jorge, também conhecido como Jorge da Capadócia, foi um soldado romano que, de acordo com a tradição cristã, renunciou à carreira e à riqueza para defender sua fé. Já Ogum tem origem no povo iorubá, na região da atual Nigéria. “Ogum é o senhor da forja, aquele que nos ensina a manipular os metais, um orixá relacionado às batalhas”, conta Pai Robson.
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Entre a história e a fé
A imagem do guerreiro que enfrenta o dragão ajudou a aproximar São Jorge de Ogum no Brasil, especialmente em contextos populares. Mas essa associação carrega camadas mais profundas. “Quando nós falamos de São Jorge e Ogum, estamos falando do sincretismo e dessa associação, nós falamos dos nossos mais velhos, dos nossos ancestrais recém sequestrados na África para a escravidão, que para preservar saberes e conhecimento, fizeram essas associações de suas divindades com os santos que aqui eram cultuados”, diz o sacerdote.
Ele lembra que, com o tempo, veio também a compreensão das origens distintas. “Hoje já temos consciência que São Jorge não é Ogum. Por um motivo histórico e cronológico. São Jorge existiu na Capadócia há dois mil anos. Já Ogum existe há mais de 10 mil anos na cidade de Ire, na Nigéria”, explica.
Ainda assim, a convivência simbólica entre os dois permanece como herança histórica. “O sincretismo não foi submissão, foi inteligência ancestral. Foi estratégia de sobrevivência cultural e religiosa. A associação de Ogum a São Jorge permitiu que a fé atravessasse séculos de opressão sem ser apagada. Isso é resistência, é ancestralidade viva", completa.
Celebração, resistência e partilha
Nos terreiros, o dia é de festa e devoção. Pai Robson descreve o clima vivido na Casa de Umbanda Cabocla Toia Jarina. “Ogum é o Orixá de meu Orí, logo é o Orixá de nossa Casa, no terreiro a gente celebra com firmeza, respeito e alegria. Tem a partilha de comida votiva, a feijoada, que carrega fundamento. Tem um festejo com toque dos atabaques para homenagear Ogum, mas sobretudo é um dia de renovar os pedidos de abertura de caminhos, de proteção e de coragem. Também é dia de agradecer pelas batalhas vencidas”, disse.
Como explicou o sacerdote, as celebrações incluem toques de atabaque e cantos. Já sobre a tradicional "feijoada de Ogum", ele conta que o alimento passou a carregar um significado especial. "A feijoada é alimento forte, coletivo, de partilha. Quando a gente prepara uma feijoada pra Ogum, não é só comida, é união, é irmandade, é energia de abundância e de resistência. Ela representa o povo reunido, alimentado e fortalecido. Isso tem tudo a ver com Ogum", compartilha.
Além disso, Ogum recebe oferendas ligadas à essência dele. “Estamos falando de alimentos como inhame, dendê, cará, feijão, além de elementos simbólicos como o ferro. É sobre alimentar a ligação com o orixá e sua energia”, diz.
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Muito além da guerra
Embora frequentemente associado à batalha, Ogum também representa outros valores. “Ogum não é só guerra no sentido de conflito. Ele é estratégia, disciplina e ação. Ensina que caminho não se abre só com pensamento, mas com atitude”, destaca Pai Robson.
Essa presença se reflete no cotidiano dos fiéis, seja na busca por proteção ou na força para enfrentar desafios diários. A forma de culto pode variar entre tradições, como Umbanda e Candomblé, mas a essência permanece. “Ogum continua sendo o desbravador, o senhor dos caminhos e da tecnologia do ferro”, afirma.
Para o sacerdote, a data marcada pelo sicretismo religioso entre São Jorge, santo católico, e Ogum, um Orixá africano, também carrega um convite à reflexão. “A escravidão influenciou a forma como Ogum é compreendido no Brasil. Ele se torna também símbolo de resistência e sobrevivência. Por isso, é importante transformar esse dia em um momento de reflexão sobre o racismo religioso", afirma.
Herança que atravessa gerações
As histórias sobre Ogum também atravessam o tempo por meio da oralidade. Segundo Pai Robson, há relatos que apontam para uma origem ligada a figuras históricas. “Os itans (lenda) afro diz que muitos Orixás, como Ogum, podem ter origem em figuras históricas que foram divinizadas com o tempo. Ogum teria sido um grande líder, um guerreiro, um desbravador que marcou seu povo. Com o passar das gerações, sua memória teria sido sacralizada até se tornar Orixá. Na tradição africana, não existe essa separação rígida entre mito e história como no pensamento ocidental. O ancestral pode se tornar divino porque sua existência foi extraordinária e memorável", conta.
Hoje, seja nas igrejas ou nos terreiros, o 23 de abril segue reunindo diferentes formas de fé. Em comum, a permanência de uma herança construída entre dor, resistência e espiritualidade, e que segue viva nas celebrações que tomam conta do país.
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