Encurralado por conta de uma condenação por estupro pela Justiça italiana, o jogador de futebol Robinho, causou repulsa ao fazer pouco da vítima do crime, ocorrido em 2013, em algumas colocações e relacionou a existência do feminismo com a caracterização do ato violento que ele alega não ter cometido. A declaração de que “infelizmente, existe esse movimento feminista” ecoou pelo país e rendeu muitas respostas indignadas, além da reflexão sobre a importância, principalmente, de conhecer e entender a importância de ampliar a presença, o papel e os direitos da mulher na sociedade.
Psicóloga, professora e feminista, Bárbara Sordi, explica que os movimentos feministas se articulam em prol da garantia dos direitos das mulheres, como creches, salários e condições dignas de trabalho, respeito à licença-maternidade, saúde sexual e reprodutiva, e o reconhecimento/combate das violências estruturais, que desembocam em violência doméstica, sexual, assédio, feminicídio e outros.
“Parte da luta dos movimentos feministas está na problematização daquilo que é naturalizado, tido como ‘normal’, e que produz desigualdade nas relações de gênero. Discursos que ocultam questões sociais e históricas. A falta destas reflexões e compreensões contribui para produção de violências, além de assimetrias e desigualdade nas relações de gênero, especialmente em relação às mulheres”, explica.
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Ela destaca que, por tratar-se de uma temática tão ampla, é pertinente afirmar a existência de movimentos feministas, no plural, posto que as mulheres sofrem processos históricos de opressão e privilégios distintos, de acordo com sua raça, classe, etnia, geração. “Quando a gente tem uma política de extrema-direita, os valores conservadores recaem sobre o controle dos corpos femininos, as pessoas mais vulneráveis tendem a ser as mais prejudicadas”, reforça Bárbara. “Os movimentos feministas lutam pela garantia de direitos para tentar ofertar melhor qualidade de vida para as mulheres, em suas diferenças realidades e opressões, fazendo isto por meio de conquistas, como políticas públicas de segurança, saúde, educação, além de proposições no campo jurídico, entre outras”, reforça Bárbara.
CARICATURA
Adriana Souza Simões também é professora e integra o grupo de pesquisa Filosofia prática, investigação em Política, Ética e Direito (Filped). Ela aponta que a visibilidade provocada pelo jogador, por outro lado, pode ajudar a desfazer uma imagem de “caricatura” do feminismo. “Não se trata de igualdade perante os homens. Na verdade, nós queremos uma situação de podermos ser donas de nossas escolhas, espaços que nos são de direito, não sermos subalternizadas ou invisibilizadas em detrimento do nosso gênero. Mostrar para essa sociedade machista e patriarcal que nós estamos aqui, temos vozes, não precisamos que ninguém nos dê voz; precisamos de respeito, sermos vistas como sujeitos, protagonistas”, complementa.
A pesquisadora confirma que os movimentos feministas vêm assumindo cada vez mais um papel importante não só para quem levanta a bandeira do movimento, mas para todas. “Ainda existe essa ideia ruim e errada de que o feminismo destrói famílias, lares, odeia os homens, quer tornar a vida deles mais difícil. É quando a gente percebe que ainda tem muita gente sem o menor entendimento do que é o movimento. Com a extrema-direita na presidência, vemos ataques muito fortes, articulados e bem direcionados, o que torna não só os movimentos feministas como os movimentos sociais ainda mais importante no sentido de impedir o retrocesso, explicar o óbvio. É uma constante construção”, admite, Adriana.
REPRESENTAÇÃO
A paraense Rayza Sarmento, doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma das fundadoras da Rede de Pesquisas em Feminismos e Política, avalia que a própria ação, não só a fala, de Robinho revelam uma desigualdade estrutural, no sentido de que não se trata de um caso isolado, mas de uma compreensão disseminada e naturalizada, que atravessa a nossa sociedade e se materializa de muitas formas, sendo uma das mais graves a violência física e sexual.
“Ao mesmo tempo, a reação e indignação diante do crime e da postura do atleta revela também uma mudança de compreensão por parte da sociedade acerca dessas práticas. É inegável que a repercussão negativa, para além da questão financeira que impactou a quebra do contrato, vem da visibilidade crescente que as reivindicações feministas estão tendo. A questão da violência contra as mulheres, especialmente no Brasil, é tematizada pelos movimentos feministas desde a década de 1970, e é notável o quanto a sociedade, e os meios de comunicação, foram se engajando em um debate mais responsável”, atesta a cientista.
Ela atualmente estuda o feminismo jovem e sua força nas redes sociais, um fenômeno que não pode ser ignorado, diz. Rayza entende a necessidade de sempre dialogar a partir de questões cotidianas, de comportamentos e situações que permeiam as nossas vidas, como as diferenças salariais mesmo em postos de trabalho iguais, e a baixa representatividade em cargos políticos. “Gosto sempre de mencionar conquistas que só foram possíveis no nosso país pela atuação do movimento feminista, como poder trabalhar fora de casa (basta lembrar que era preciso ser autorização de um homem, pai ou marido), ter direito ao divórcio quando assim desejar, a construção da Lei Maria da Penha que foi literalmente escrita em conjunto com as parlamentares por mulheres do movimento feminista, além de lutas que continuam como direito a um parto humanizado e sem violência obstétrica, a vivenciar a cidade como pedestre ou usuário do transporte público com mais segurança, e sempre atento as diferentes dimensões e a diversidade das mulheres”, analisa.
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