A Amazônia brasileira é a região com a maior disponibilidade de água doce do mundo, mas enfrenta um paradoxo: sua população continua sofrendo com uma série de privações e até mesmo doenças de veiculação hídrica, resultantes da falta de água potável e de um saneamento adequado.
A reportagem de hoje do projeto “Pará que Orgulha e Transforma” mostra exemplos de iniciativas que ajudaram a mudar a vida de quem mais precisa nas áreas de potabilidade da água e saneamento ambiental.
Uma das grandes dificuldades das populações ribeirinhas é ter acesso a água de qualidade, mas uma tecnologia social vem garantindo o recurso de maneira totalmente potável a partir da captação da água da chuva. Essa é a base do projeto “Segurança Hídrica e Saneamento na região insular de Belém”, coordenado pela pesquisadora Vania Neu, docente da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).
O projeto é desenvolvido pelo Laboratório de Hidrobiogeoquímica da UFRA e foi pensado na saúde das populações ribeirinhas, especialmente as que residem no meio rural. A equipe do laboratório realiza ações na Ilha das Onças, município de Barcarena, desde 2012.
A comunidade do Furo Grande, na Ilha da Onças, tem sido o sítio de pesquisa. “São quinze famílias beneficiadas diretamente com o sistema. Todo o sistema funciona sem a necessidade do uso de bombas d’água e da energia elétrica, a água chega até a cozinha por meio da gravidade”, explica Vânia. Entretanto, uma das dificuldades da equipe do projeto era garantir a potabilidade total dessa água coletada. “Até pouco tempo a água captada era muito melhor do que a água do rio, mas ainda faltava melhorar”, diz a pesquisadora.
Com a pandemia e a necessidade de trabalhar em casa, Vânia implantou um sistema na própria residência. Chuva após chuva, o sistema foi sendo estudado e testado, para chegar no melhor sistema, ao menor custo. “Foram muitos dias, muitos materiais e testes, até chegar ao que considero o ideal, um sistema que fornece água 100% potável, excluindo todo tipo de contaminação.”


Durante a pandemia e com acesso à água potável, muitos moradores da ilha não tiveram a necessidade de se deslocar até Belém, evitando o contato com pessoas de fora da ilha. “É emocionante ver a solidariedade entre os vizinhos, as famílias que hoje têm água da chuva e que agora doam água para as que ainda não possuem o sistema”, diz.
Com a nova descoberta, em agosto de 2020, 3 sistemas já receberam as adaptações em campo, na Ilha das Onças, todos com resultados positivos. A meta agora é conseguir fazer o mesmo nas demais residências. “Para implantar esta nova adaptação, são necessários apenas R$220 por sistema, ou seja, R$2.640,00 para que todas as quinze famílias possam desfrutar da tecnologia de forma totalmente segura”, afirma.
Banheiro ecológico não contamina rios
Outra tecnologia social que vem facilitando em muito a vida dos ribeirinhos da região é o Banheiro Ecológico Ribeirinho (BER). O projeto também é coordenado por Vania Neu e desenvolvido pelo laboratório.
Ela explica que a tecnologia é desenvolvida para áreas sujeitas a inundações, seja por influência da maré, ou pela variação sazonal do rio. Se antes os dejetos iam direto para o rio ou contaminavam o solo, com a instalação do BER, o material passou a ser depositado em um reservatório.
Com a adição de serragem e cal virgem, o material se transforma em adubo orgânico por meio da compostagem. “Pesquisadores do Instituto Evandro Chagas detectaram que esse composto orgânico não tem patógenos, ou seja, não causa doenças, podendo ser utilizado na agricultura”, diz a pesquisadora.
O BER é uma tecnologia social certificada pela Fundação Banco do Brasil e pode ser replicada em qualquer lugar do mundo. “Melhorar a qualidade de vida das comunidades ribeirinhas não é difícil, basta desenvolver e implanta tecnologias adequadas para a realidade local”, garante Vânia.
Com as adaptações e o aperfeiçoamento dos sistemas, ambas são tecnologias sociais seguras. “Nosso objetivo enquanto pesquisadores é de aperfeiçoar o sistema sempre que necessário, disseminar a informação e capacitar quem quiser implantar e replicar as tecnologias. Esse é o papel da universidade”, diz a pesquisadora.
O projeto tem uma parceria com o Instituto Evandro Chagas, que vai avaliar a saúde da população da ilha, examinando os moradores que atualmente possuem os projetos implantados pela comunidade, comparando com os que não têm.
“Os moradores sempre nos disseram que os problemas de saúde reduziram após a implantação dos sistemas de captação de água de chuva e dos banheiros ecológicos, mas não temos ainda dados clínicos e científicos sobre o assunto. Com a parceria, em breve teremos essas informações”, diz a pesquisadora. As tecnologias sociais desenvolvidas e implantadas são ideais, pelo baixo custo, desenvolvidas para a realidade local, fácil manutenção e aceitabilidade.

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