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BELÉM 406 ANOS

Padre Eutíquio: uma via com muitas histórias para contar

A travessa Padre Eutíquio foi aberta como uma travessia rural, mas com o passar das décadas, se tornou uma das mais importantes de Belém, onde o comércio se destaca. Saiba mais sobre o nome e o crescimento do local lembranças

terça-feira, 11/01/2022, 15:13 - Atualizado em 11/01/2022, 15:13 - Autor: Cintia Magno


Atual travessa Padre Eutíquio
Atual travessa Padre Eutíquio | Irene Almeida/Diário do Pará

Em pleno horário comercial, o cenário comum avistado na travessa Padre Eutíquio é marcado pelo trânsito intenso e calçadas agitadas pelo fluxo de pedestres. Apesar de tão característica da via, a movimentação embalada pelo intenso comércio nem sempre foi a realidade do local. Quando foi aberta, ainda no período colonial, a configuração da via tinha um caráter rural, muito diferente do visto hoje.

Dividindo, à época, os bairros da Campina e Cidade Velha, a travessa que hoje se conhece como Padre Eutíquio era chamada de travessa São Matheus. Professor do curso de história da Universidade da Amazônia (Unama), Diego Pereira Santos aponta que, desde o início da sua configuração, essa rua já era importantíssima para a cidade de Belém. “Naquele momento, ainda se vivia um processo de expansão da cidade, que tinha uma outra dinâmica. A travessa de São Matheus vem daquilo que era chamado de bairro da Cidade, o que hoje a gente chama de Cidade Velha, e vem em direção da Campina”, explica. “Como a Travessa São Matheus já era uma área afastada daquele centro histórico de Belém, naquele momento, é por isso que a gente vai perceber esse cenário mais ruralizado mesmo”.

 

Travessa de São Matheus, no século XIX
Travessa de São Matheus, no século XIX | Felipe Augusto
 

O professor destaca que é muito conhecida uma imagem do fotógrafo português Felipe Augusto Fidanza, que morava no Largo das Mercês, e que criou uma série de imagens sobre a cidade de Belém no final do século XIX. “No cenário que consta nas imagens do Fidanza é realmente muito comum a gente perceber esse caráter mais rural”. Nas imagens do fotógrafo, a antiga travessa São Matheus é formada por chão de terra batida, cercas de madeira e árvores.

Ao longo dos anos e com o desenvolvimento gradativo da cidade, a via também foi se transformando. Já por volta de 1890, a travessa recebeu o nome de Padre Eutíquio, refletindo o cenário de discussões que giravam em torno da República na época. “Porque o Padre Eutíquio? Porque ele foi o indivíduo que, de certa maneira, teve um envolvimento com causas que, depois, a República defenderia”, considera o professor Diego Santos.

 

Diego Pereira dos Santos
Diego Pereira dos Santos | Divulgação
 

O professor aponta que Padre Eutíquio é baiano, nascido na década de vinte, e vem para o Pará em 1851, quando assume, inclusive, a função de Padre. “Aqui ele vai participar do seminário e vai dirigir o Convento dos Carmelitas. No final da década de 50, ele chegou a se filiar num partido chamado Partido Liberal e, a partir daí, você tem uma atuação política porque ele vai ser vereador de Belém durante quatro mandatos e inicia, inclusive, na Maçonaria”, relata o historiador. “É na Maçonaria que ele vai ganhar notoriedade, onde vai haver grande divulgação da causa maçônica e, inclusive, ele vai chegar a fundar uma loja Harmonia Nº8, que existe até hoje”.  

Durante sua atuação no Estado, Padre Eutíquio publicou várias matérias em jornais, de tendência liberal, onde defendeu ideias abolicionistas, republicanas, ideais como a de uma educação para todos e criação de oportunidade aos jovens, além de ser um defensor fundamental da liberdade de expressão. “Ele teve conflitos ideológicos muito fortes em meados do século XIX, principalmente com Dom Macêdo Costa, que era o bispo do Pará naquele momento”, conta o professor. “Havia toda uma mudança eclesiástica porque a igreja passava por um processo de reforma e a ideia era que ela tivesse cada vez mais autonomia em relação aos governos e, principalmente, ao Governo Imperial. Então, ele vai ter esse embate muito forte com o Padre Eutíquio, que vai chegar a perder o exercício das suas funções, já por volta de 1866, porque principalmente o Dom Macêdo Costa questiona a influência da Maçonaria em questões religiosas”. 

 

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Eutíquio morre, em Belém, em 1880. “A ideia da rua aparece em 1890 e há todo um cenário republicano naquele contexto, já que em 1889 há a Proclamação da República”, contextualiza Diego. “Por volta de 1890, a rua passa a se chamar, efetivamente, Padre Eutíquio, dada a morte dele”, completa.

Travessa mantém a tradição de ser um local com muita movimentação comercial

Divisão entre os bairros da Cidade Velha e a Campina, a travessa Padre Eutíquio mantém desde muito tempo uma relação muito próxima com o comércio. Não é à toa que a via foi a responsável por receber, já na década de 1990, o primeiro shopping center de Belém. A relação do comerciante Wendel Gomes, 46 anos, com a travessa Padre Eutíquio pode ser dividida entre dois momentos distintos. Nascido e criado na travessa, ele conheceu uma realidade mais tranquila da via durante a infância. Depois de adulto – e de ter passado um período morando no Rio de Janeiro – ele retornou à Padre Eutíquio para trabalhar, já no bairro de Batista Campos. “Eu me criei no bairro da Condor e era muito bom, mas com o tempo piorou um pouco a estrutura de saneamento básico e calçamento. Já aqui, próximo do shopping, a mobilidade já melhora bastante”.

 

Raimundo Barata
Raimundo Barata | Wagner Almeida
 

Trabalhando com vinis e livros usados, no sebo instalado em uma banca de revista, Wendel lembra de outro aspecto da travessa que costuma figurar a memória dos moradores mais antigos da cidade. “Eu ainda lembro da antiga Mesbla (extinta loja de departamentos), quando ainda nem tinha shopping em Belém”, conta. “Eu lembro que, criança, eu ia na Mesbla comprar vinis. Lá era o lugar onde se encontrava essas coisas em Belém”. Hoje, a loja já não existe mais e o seu lugar deu espaço a outros comércios. Porém, ela também continua muito viva na memória do comerciante Raimundo Barata, 77 anos de idade e de travessa Padre Eutíquio. “Quando criança eu morei quase do lado da Mesbla, depois eu vim mais para a frente, mas sempre na Padre Eutíquio”, conta. “Eu gosto daqui e estou até hoje”.

Entre as mudanças destacadas por Raimundo Barata está o alargamento da via, que antes era estreita como no perímetro após a Praça da Bandeira, já no bairro do Comércio. “É um lugar calmo para morar, dentro de um bairro comercial e que cresceu muito. Desde então não parou mais, continuou crescendo como é até hoje”.

 

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