“Pensei que seria mais leve e fácil, mas vivi o puerpério e o luto juntos.” A frase é da cirurgiã-dentista Luana Lima, de 28 anos, mãe do pequeno Leonardo, de quatro meses. O que deveria ser apenas o início de uma nova fase foi atravessado pela perda da sogra, sua principal rede de apoio, apenas 11 dias após o nascimento do filho.
Do lado de fora, a maternidade ainda é vista como sinônimo de plenitude e romanização. Dentro de muitas casas, porém, ela também pode significar exaustão, sobrecarga e silêncio.
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Entre fraldas, mamadeiras e noites mal dormidas, milhares de mulheres enfrentam uma rotina que vai além do cuidado com os filhos. Elas assumem tarefas domésticas, responsabilidades profissionais e a pressão constante de “dar conta de tudo”. Sem rede de apoio e, muitas vezes, sem espaço para pedir ajuda, o cansaço físico pode evoluir para quadros de ansiedade e depressão.
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Medo, culpa e adaptação
Especialistas alertam que a saúde mental materna ainda é cercada de tabus. Enquanto o amor pelos filhos é real, o sofrimento também pode ser e precisa ser reconhecido.
Luana conta que a maternidade foi completamente diferente do que imaginava.
Nunca romantizei, mas vivi cada etapa. Foi tensa no início, com medo, culpa e luto. Aos poucos foi se tornando mais ‘fácil
Relata,Hoje, ela concilia a criação do bebê com múltiplas jornadas: trabalha no serviço público, atende em clínica particular e ainda atua como promotora e supervisora de ações e eventos. Além disso, cuida da casa.

“A rotina é muito puxada. Tento me desdobrar para ir à academia e ter um tempo para mim”, afirma. No pós-parto, enfrentou exaustão extrema e foi diagnosticada com depressão pós-parto. “Às vezes me cobro muito e sinto culpa. Já tive medo de ser julgada por pedir ajuda.”
Apesar das dificuldades, destaca o apoio do marido, que divide as responsabilidades. Ainda assim, a ausência da sogra pesa: “Tenho certeza de que, se ela estivesse viva, minha maternidade seria mais leve.”

Luana conta que, após a gravidez, passou a sentir uma forte pressão estética em relação ao próprio corpo, vinda de pessoas próximas e também das redes sociais.
“Eu acho que toda mulher sente essa pressão. Hoje, a internet julga muito os corpos em geral, e a gente acaba tentando se comparar, principalmente com pessoas que têm mais condições financeiras. Se você está magra demais, questionam. Se está acima do peso, também questionam. Então, a gente sente essa pressão o tempo todo."
Também existe cobrança em relação à maternidade: "Se você deixa o filho em casa para trabalhar, as pessoas criticam; se não tem renda e fica em casa, também julgam. Foi uma fase horrível para mim. Precisei procurar ajuda psicológica porque comecei a me comparar com outras mães que parecem ter um corpo ‘perfeito’. Foi necessário buscar apoio para lidar com essas críticas.” Desabafa.
Solidão mesmo acompanhada
A pedagoga Roberta Monte, de 33, mãe de Olívia, de dois anos, deixou temporariamente a profissão para se dedicar integralmente à filha. “Como educadora, sabia das dificuldades. Mas só vivendo percebi o quanto é grandioso. Há muitas dificuldades, mas nasce uma força na gente que nem sabíamos que existia.”
Mesmo com rede de apoio dos pais e do marido, Roberta relata que a solidão foi marcante no início.
A vida de todos ao redor seguiu normal, mas a minha mudou completamente. Era eu e minha filha. O puerpério foi doloroso, mas transformador.
Relembra,Sem ter conseguido retornar ao mercado de trabalho, ela acumula os cuidados com a filha e com a casa. Houve dias em que pensou que não conseguiria continuar. “Cheguei a um nível de exaustão que pensei que não conseguiria mais. Lágrimas, orações e o amor pela minha filha me fizeram seguir.”
A culpa também esteve presente. “Há muita culpa em fazer qualquer coisa para mim. Já senti medo de ser julgada e já fui julgada por quem deveria me defender.”

Se a cobrança pela produtividade já pesa, a exigência estética também atravessa a maternidade de forma intensa. A pressão para “voltar ao corpo de antes” e retomar a vida profissional como se nada tivesse mudado faz parte da realidade de muitas mulheres. Roberta relembra como foi viver tudo isso:
“Por incrível que pareça, sofri pressão para voltar a trabalhar, inclusive de pessoas que sabiam que sou a única cuidadora direta da minha filha. Já a pressão estética persegue todas as mulheres e com as mães não é diferente. Comentários como ‘Quando vai voltar para o teu corpo?’ acontecem. Mas esse novo corpo é meu, ele conta uma história. Tenho orgulho de estar lutando contra a obesidade, apesar de tudo. Tudo isso impacta negativamente, sim, mas tento não me abater além da conta.”
Durante a gestação, enfrentou episódios de tristeza profunda, desespero e ansiedade. “Engordei 17 quilos nesse processo.”
O que mais sentiu falta? “De alguém que me olhasse como uma pessoa que também precisava de amor, cuidado e proteção.”

Corpo, carreira e cobrança: a pressão que vem de todos os lados
Além da sobrecarga doméstica e emocional, muitas mães enfrentam outra camada silenciosa de pressão: a estética. O corpo que acabou de gestar, parir e amamentar passa a ser comparado ao que era antes da gravidez e, muitas vezes, ao corpo de outras mulheres nas redes sociais.
O ganho de peso, as mudanças hormonais, a flacidez, as cicatrizes e o cansaço estampado no rosto tornam-se alvos de comentários, palpites e críticas algumas sutis, outras explícitas. Perguntas como “já voltou ao seu peso?”, “quando vai começar a treinar?” ou “precisa se cuidar” atravessam um período que deveria ser de acolhimento.
Essa cobrança estética se soma à exigência de produtividade. A mulher precisa retomar a carreira rapidamente, mostrar desempenho, manter a casa organizada, ser mãe e mulher disponível e ainda aparentar que está tudo sob controle.
Na prática, muitas vivem a tripla jornada somadas a maternidade, trabalho e tarefas domésticas. E, no meio disso, tentam encontrar tempo para cuidar de si, que muitas das vezes não são apenas pelo bem-estar, mas para atender a uma expectativa social de que precisam “voltar a ser como antes”.
Nas redes sociais, essa pressão pode se intensificar. A romantização do pós-parto é frequente com influenciadoras digitais exibem corpos aparentemente “recuperados” poucas semanas após o nascimento do bebê, rotinas organizadas, maquiagem impecável e mensagens de superação constante. Embora essas imagens representem recortes individuais da realidade, muitas mães que enfrentam noites sem dormir, alterações hormonais e mudanças corporais profundas passam a se comparar.


Surge então a pergunta silenciosa: “Por que eu não voltei ao meu corpo?” ou “Por que não estou dando conta como ela?”. Para muitas mulheres, a recuperação física leva meses ou até anos e isso é natural.
No entanto, diante da comparação constante, o que deveria ser um processo individual transforma-se em cobrança interna e sentimento de inadequação. Para muitas mães, o desafio não é apenas criar um filho é sobreviver à comparação constante e à sensação de que nunca estão fazendo o suficiente.
O que diz a ciência
Para a psicóloga clínica Flávia Vieira, que atua em saúde mental corporativa e também é mãe, esse tipo de cobrança costuma surgir justamente em um momento delicado da vida da mulher.
“Após o parto, muitas mulheres enfrentam uma pressão para recuperar rapidamente o corpo que tinham antes da gestação. Essa cobrança vem da sociedade, das redes sociais e, muitas vezes, acaba sendo internalizada pela própria mulher.
No entanto, o puerpério é um período marcado por intensas transformações físicas, hormonais e emocionais. Quando surge a expectativa de ‘voltar ao normal’ rapidamente, podem aparecer sentimentos de frustração, culpa e inadequação. Isso impacta a autoestima e pode aumentar a ansiedade justamente em um momento em que a mulher mais precisa de acolhimento e apoio.”

A especialista explica que a maternidade é uma experiência profundamente transformadora, tanto emocional quanto biologicamente.
“Há alterações hormonais intensas, privação de sono e uma reorganização da identidade da mulher. Embora possa ser fonte de alegria, também é um período de maior vulnerabilidade psíquica, especialmente no primeiro ano após o parto”, afirma.
Segundo ela, entre 10% e 20% das mulheres podem desenvolver depressão pós-parto, além de quadros de ansiedade.
Flávia ressalta ainda que a solidão materna não significa necessariamente ausência de pessoas por perto, mas sim falta de escuta e validação emocional.
Muitas mulheres sentem que precisam demonstrar felicidade constante, o que dificulta expressar fragilidades.
Ressalta,A psicóloga também chama atenção para a diferença entre o cansaço esperado nos primeiros meses e sinais de alerta para o adoecimento mental. Entre eles estão:
- Tristeza persistente por mais de duas semanas
- Sensação constante de incapacidade
- Crises de choro frequentes
- Ansiedade intensa ou crises de pânico
- Isolamento social significativo
“A exaustão física constante impacta diretamente o funcionamento cerebral e é um fator de risco importante para transtornos de humor e ansiedade”, acrescenta.
A sobrecarga invisível
Além da jornada dupla ou tripla, muitas mulheres carregam a chamada carga mental invisível o planejamento, a organização e a responsabilidade emocional da família. “Não se trata de ‘ajuda’, mas de corresponsabilidade”, enfatiza Flávia, ao falar sobre o papel do parceiro e da família.
Segundo ela, a divisão desigual das tarefas domésticas pode favorecer esgotamento, ressentimento e maior incidência de sintomas ansiosos e depressivos. A ausência de rede de apoio, afirma a psicóloga, é hoje um dos maiores fatores de risco para o adoecimento mental materno.
Pedir ajuda é responsabilidade
Para prevenir o adoecimento mental na maternidade, a especialista aponta alguns caminhos:
- Informação realista sobre a maternidade
- Rede de apoio estruturada
- Divisão equilibrada de tarefas
- Acompanhamento psicológico quando necessário
- Espaços de troca entre mães
“O primeiro passo é reconhecer que pedir ajuda é um ato de responsabilidade, não de fraqueza”, orienta.
Entre o amor incondicional e o cansaço extremo, existe uma mulher que também precisa ser cuidada. Falar sobre saúde mental na maternidade é abrir espaço para que menos mães sofram em silêncio e para que mais famílias compreendam que criar um filho nunca deveria ser uma tarefa solitária.
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