A forma de consumir moda está mudando. Em meio aos impactos ambientais causados pela indústria têxtil e ao aumento da consciência sobre sustentabilidade, a chamada moda circular tem ganhado espaço no Brasil e no mundo. O modelo propõe o reaproveitamento de peças, prolongando sua vida útil e reduzindo o descarte, um contraste direto com o consumo acelerado do chamado fast fashion.
De acordo com a consultora de moda e professora universitária Felícia Assmar Maia, a moda circular rompe com o ciclo tradicional de “produzir, consumir e descartar”. “Esse modelo foca na durabilidade, na economia de recursos e na reinserção das peças no mercado, seja por meio da revenda, customização ou reaproveitamento”, explica.
Ela reforça que a mudança vai além de uma tendência estética. “A moda circular representa uma transformação estrutural. Não é algo passageiro, mas uma resposta necessária aos impactos ambientais causados pela indústria da moda”, destaca.
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Impacto ambiental e mudança de consciência
A indústria da moda é considerada uma das mais poluentes do planeta, responsável por cerca de 8% a 10% das emissões globais de carbono, além de consumir grandes volumes de água e utilizar produtos químicos que contaminam o meio ambiente.
Segundo Felícia, o problema está diretamente ligado ao modelo de produção acelerado. “A lógica do fast fashion incentiva o consumo constante e o descarte rápido. Isso gera um volume enorme de resíduos e pressiona os recursos naturais”, afirma.
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Nesse cenário, a reutilização de roupas surge como alternativa viável. “Quando reutilizamos peças, reduzimos a necessidade de novas produções. Isso impacta diretamente na diminuição da poluição e no uso de recursos naturais”, explica.
Ela também chama atenção para os números alarmantes. “Hoje, a indústria têxtil produz milhões de toneladas de resíduos por ano. A moda circular ajuda a desacelerar esse processo e a reduzir a pegada de carbono.”
Brechós impulsionam economia e empreendedorismo feminino
O crescimento da moda circular também tem impacto direto na economia, principalmente no fortalecimento de pequenos negócios. Os brechós, antes vistos com preconceito, hoje ganham espaço como alternativa sustentável e acessível.
A empreendedora Cyrlene Serra Bentes afirma que entrou no segmento motivada pelo propósito ambiental. Ela é proprietária de um brechó localizado no bairro do Umarizal, em Belém, e atua no segmento desde 2022. “Meu objetivo sempre foi trabalhar com moda circular e incentivar o consumo consciente. Eu vi nesse modelo uma oportunidade de gerar renda, mas também de contribuir com o meio ambiente”, conta.
Atualmente, o brechó é sua principal fonte de renda, e ela já percebe aumento na procura nos últimos anos. “A demanda cresceu bastante. Muitas pessoas chegam primeiro pela economia, mas acabam entendendo a importância da reutilização”, relata.

Cyrlene também destaca o impacto social do negócio. “Além de gerar renda pra mim, o brechó também acaba movimentando outras pessoas, seja com pequenos serviços ou parcerias. É uma cadeia que cresce junto”, afirma.
Apesar do crescimento, os desafios ainda existem. “Um dos maiores obstáculos é o reconhecimento do mercado. Muitas pessoas ainda veem o brechó como algo informal ou de menor valor. A gente precisa trabalhar dobrado para mostrar qualidade”, explica.
Ela também detalha o trabalho por trás do negócio. “Existe todo um processo de curadoria, higienização, organização e precificação. Não é só vender roupa usada, é oferecer uma peça com valor, em boas condições e pronta para uso”, ressalta.
Para Cyrlene, a mudança de mentalidade é essencial. “A gente ainda precisa quebrar o preconceito de que brechó vende roupa velha. Na verdade, vendemos peças com história, qualidade e propósito.”
Consumo consciente ainda é motivado pela economia
Apesar do discurso sustentável, a economia ainda é o principal fator que leva consumidores aos brechós.
A analista administrativa Juliana Ribeiro Costa, de 29 anos, começou a consumir moda de segunda mão durante a pandemia. “No início, foi por economia, mas depois passei a valorizar também a questão ambiental”, relata.
Hoje, ela prioriza brechós na hora de comprar roupas. “Sempre procuro primeiro em brechó antes de ir a lojas tradicionais. Já encontrei peças de ótima qualidade, muitas vezes melhores do que as novas”, afirma.
Juliana também percebe mudanças na percepção social, embora o preconceito ainda exista. “Diminuiu bastante, mas algumas pessoas ainda têm resistência. Mesmo assim, sinto que está cada vez mais aceito”, diz.
Democratização da moda e mudança de comportamento
Outro ponto importante da moda circular é a democratização do acesso ao vestuário. Com preços mais acessíveis, consumidores conseguem adquirir peças de qualidade e até de marcas conhecidas.
Felícia destaca que esse é um dos grandes méritos do modelo. “A moda circular quebra a lógica do alto custo e permite que mais pessoas tenham acesso a roupas de qualidade. Isso torna o consumo mais inclusivo”, afirma.

Além disso, o consumo consciente tem provocado mudanças no comportamento. “Estamos saindo de uma cultura de excesso para uma lógica de uso mais responsável. O consumidor começa a refletir mais antes de comprar”, completa.
Para Juliana, essa mudança é evidente no dia a dia. “Passei a comprar com mais cuidado e evitar impulsos. Também sinto que desenvolvi mais meu estilo, porque encontro peças diferentes”, conta.
Uma tendência que veio para ficar
Para especialistas e empreendedores, a moda circular não é apenas uma tendência passageira, mas uma transformação estrutural no setor.
“Estamos vivendo uma mudança profunda na forma de consumir moda. O modelo de comprar e descartar está sendo substituído por práticas como reutilizar, reparar e reciclar”, afirma Felícia.
Ela reforça que ainda há desafios importantes. “É preciso investir em conscientização, tecnologia e também em políticas que incentivem esse modelo. A sustentabilidade precisa deixar de ser discurso e virar prática real no setor”, pontua.
Cyrlene concorda e acredita no crescimento do segmento. “A moda circular veio para ficar. Mas para crescer mais, precisamos de mais profissionalização e também da digitalização dos negócios, principalmente na gestão de estoque e vendas”, avalia.
Enquanto isso, iniciativas como os brechós seguem ganhando espaço e mostrando que é possível aliar estilo, economia e responsabilidade ambiental, um caminho cada vez mais necessário em um mundo que pede mudanças urgentes.
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