Uma pesquisa com participação do Pará conseguiu transformar um resíduo do babaçu, antes sem aproveitamento industrial, em um ingrediente rico em proteína com potencial para abastecer o mercado de alimentos à base de plantas (plant-based). O estudo foi desenvolvido pela empresa de biotecnologia BIOINFOOD, em parceria com o Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), e contou com a colaboração da Rede Terra do Meio do Alto Xingu, que reúne comunidades tradicionais da Amazônia.
A tecnologia utiliza a farinha do mesocarpo do babaçu, parte do fruto normalmente descartada após a extração do óleo, para produzir um ingrediente proteico por meio de um processo de fermentação. O teor de proteína da farinha aumentou de 1,5% para cerca de 7%, tornando o produto apto para a fabricação de hambúrgueres vegetais e outros alimentos plant-based.
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O projeto recebeu investimento de R$ 2,7 milhões do Fundo JBS pela Amazônia, por meio do Programa Biomas InovAmazônia do GFI Brasil. Os resultados foram apresentados em abril deste ano durante a New Meat Brazil, principal evento brasileiro voltado ao setor de proteínas alternativas.
Comunidades amazônicas participam da pesquisa
A participação paraense ocorreu por meio da Rede Terra do Meio do Alto Xingu, formada por 35 organizações de povos indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares que protegem cerca de 9 milhões de hectares de floresta. As comunidades forneceram amostras da matéria-prima e receberam visitas da equipe de pesquisadores durante o desenvolvimento do projeto.
Segundo o Fundo JBS pela Amazônia, a iniciativa representa um exemplo de como a ciência pode agregar valor aos recursos da biodiversidade amazônica, gerando oportunidades econômicas sem ampliar o desmatamento.
O babaçu é explorado tradicionalmente por comunidades do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins, especialmente pelas quebradeiras de coco, mulheres que há gerações vivem do extrativismo do fruto. Atualmente, o principal produto comercializado é o óleo extraído da amêndoa, enquanto o mesocarpo costuma ter baixo aproveitamento econômico.
Tecnologia aumenta valor do resíduo
O processo desenvolvido pela BIOINFOOD combina hidrólise enzimática, seleção de leveduras e fermentação em biorreatores automatizados. Durante a fermentação, os microrganismos convertem os açúcares presentes na farinha em biomassa rica em proteínas, sem necessidade de novos plantios ou abertura de áreas na floresta.
A tecnologia já foi validada em laboratório e permitiu a produção de um protótipo de hambúrguer vegetal elaborado com a proteína obtida a partir do babaçu. Agora, a empresa busca parceiros para ampliar a produção em escala piloto e atender indústrias de ingredientes funcionais e alimentos plant-based.
Além do babaçu, a mesma plataforma tecnológica poderá ser aplicada a outros coprodutos agroindustriais, como farelos de trigo, milho e arroz, além de resíduos de espécies nativas, entre elas castanha-do-Brasil, cupuaçu e macaúba.
Mercado em expansão
O segmento de proteínas alternativas segue em crescimento no Brasil e no exterior. Segundo dados apresentados pelo projeto, o mercado global deve movimentar cerca de US$ 88,8 bilhões até 2034. No Brasil, o setor alcançou faturamento de R$ 1,13 bilhão em 2024, crescimento de 14% em relação ao ano anterior.
A expectativa é que o aproveitamento de resíduos do babaçu possa abrir novas oportunidades de geração de renda para comunidades extrativistas da Amazônia, ao mesmo tempo em que fortalece uma cadeia produtiva baseada no uso sustentável da floresta e na produção de ingredientes com menor impacto ambiental.
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