Os cem anos de existência da vila de Murajá, distrito do município de Curuçá, na região do Salgado, irão ficar para a história depois que um grupo de desordeiros deteve um suspeito de ter assaltado um mototaxista e, numa sequência de selvageria, o amarraram, arrastaram por um quilômetro em uma estrada vicinal, o executaram com vários tiros e ainda incendiaram o seu corpo.
Uma equipe do DIÁRIO foi até a vila de Murajá, a 16 quilômetros da PA-136 no dia seguinte à barbárie, em junho passado. No local, a população recebeu a equipe sob o signo do medo depois que mototaxistas massacraram Ednelson da Silva Sodré, identificado na época apenas como “Diabo Louro” e que era acusado de ter roubado, juntamente com o parceiro “Rambo”, uma motocicleta na estrada de Arapiranga, perto da cidade de Curuçá.
Testemunhas não faltaram para relatar detalhadamente a sucessão de fatos que culminaram na “boca do povo” da pacata vila. Um morador disse que o assalto aconteceu próximo à cidade e que os ladrões, por não conhecerem bem a região, entraram na vila de Murajá, que acaba sendo um beco sem saída, perseguidos por colegas do mototaxista assaltado.
A dupla de ladrões entrou no mangue e se embrenhou durante a noite na mata fechada, dificultando a perseguição. Mas, na manhã da segunda-feira (14 de junho), um dos homens apareceu na Vila de Murajá bem cedo para pedir alimento - por azar, na casa da própria mãe da vitima. Reconhecido, o “Diabo Louro” foi perseguido até ser preso pelos populares, que acionaram a Polícia Militar. No entanto, segundo uma testemunha, ele tentou fugir e foi, então, amarrado com uma corda para esperar a chegada da PM, que o levaria para a Delegacia de Polícia de Curuçá.
A demora foi tanta que os mototaxistas que tinham iniciado a perseguição na noite anterior foram avisados e chegaram primeiro que a Polícia Militar: a sequência trágica acabou sendo filmada com celulares e máquinas fotográficas.
A vítima foi espancada impiedosamente pelos mototaxistas, segundo relato de moradores da comunidade: amarrado pelos pés e arrastado em uma motocicleta por um quilômetro até uma localidade conhecida como Piçarreira, lá recebeu quatro tiros e ainda teve o corpo queimado.
“A comunidade queria chamar a Polícia, mas as pessoas que estavam praticando o massacre nos ameaçaram”, disse uma moradora na época. Temendo represálias, ela não quis ser identificada.
Em conversa com o DIÁRIO, a dona de casa Joelma Athaíde contou que a comunidade estava com medo de uma possível vingança por parte de mototaxistas, porque muitas pessoas filmaram a ação. “Nossos filhos que estudam em Curuçá estão com medo de ir às aulas porque eles ameaçam pegar quem é daqui”, disse Joelma.
Socorro Ferreira, moradora da Vila de Murajá, destacou que este crime foi o primeiro ao longo de mais de 100 anos de existência da vila, um lugar onde se vive da agricultura, pesca e extrativismo. “Eles fizeram isto com o ladrão. Por mais que tivesse praticado um crime, ele não poderia ter um fim tão trágico, e ainda colocaram a culpa na comunidade” desabafa Socorro Ferreira.
Murajá, na época, viveu momentos de tensão e pavor. Frente à chegada da equipe do DIÁRIO à vila e às informações de que o jornal teria conseguido com exclusividade o vídeo mostrando toda a barbárie, a equipe recebeu, por meio de um rapaz, a informação de que não sairia de Murajá com o material - cedido por uma jovem que também recebeu ameaças e imediatamente se deslocou para a cidade de Curuçá, onde registrou ocorrência junto ao delegado Ronaldo Hélio, que apurou o caso.
Na saída da vila de Murajá, o veículo do DIÁRIO foi perseguido por motociclistas por mais de 10 quilômetros, até as margens da PA-136. Na vila São Pedro, um morador disse que ouviu o comentário de que nenhum jornalista sairia da vila de Murajá com o vídeo cruel.
Após três meses de investigações, ouvindo testemunhas, o delegado Ronaldo Hélio, que responde pela Delegacia de Polícia Civil de Curuçá na região do Salgado, apura com rigor o massacre, tendo apoio do juiz Porcion Klautau, da comarca de Curuçá. O juiz pediu agilidade no processo depois que o delegado identificou os autores do crime. Eles tiveram suas prisões preventivas decretadas pela Justiça e estão agora na condição de foragidos. (Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar