Foi um sucesso ativação do implante coclear, que o Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza (HUBFS), da Universidade Federal do Pará (UFPA), realizou ontem com os deficientes auditivos Willian Wallisom Gomes, de 20 anos, de Curuçá, e Luciléia Silva, 32 anos, de Paragominas. Eles tinham surdez profunda e severa bilateral e agora contam com a oportunidade de descobrir de novo o mundo dos sons. As cirurgias elevaram a UFPA a ser a primeira instituição da Região Norte a realizar o implante.
O implante coclear, conhecido popularmente como "ouvido biônico", é realizado em pacientes pós-linguais, isto é, que perderam a audição, mas aprenderam a falar e possuem memória auditiva. Trata-se de um dispositivo eletrônico que capta os sons e os transmitem ao cérebro, por eletrodos.
Luciléia disse estar feliz ao conseguir ouvir depois de 14 anos, quando perdeu por completo sua audição após infecção hospitalar pós-parto. Agora, seu maior desejo pode ser o mesmo que toda mãe tem. “Quero ouvir pela primeira vez o meu filho me chamar de mãe. Sinto uma emoção tão grande ao poder ouvir de novo. O implante coclear foi um milagre na minha vida. Espero que todos que estão na fila possam ter a chance que eu tive. Torço por eles. Agora, vou fazer tudo para obter resultado excelenteâ€, afirma.
O rapaz perdeu a audição de modo diferente. Aconteceu em consequência de gripe forte, labirintite e tontura quando ele tinha 11 anos. Mas hoje ele e a famÃlia comemoram o resultado do implante. “Depois da ativação já ouvi pingos da chuva, barulho de água vindo da torneira e minha própria voz. Isso me emociona muitoâ€, conta Willian. “Ele descobre o mundo dos sons e tudo emociona demais a famÃlia. Agradeço pela oportunidade do Hospital Bettina ajudar a trazer de volta a felicidade para nossa famÃliaâ€, emociona-se ElaÃse Gomes, mãe do jovem.
>> Após a redescoberta do som, o sorriso da paciente Lucélia e da fonoaudióloga Cristina Ornelas
Para ativar o equipamento, a equipe médica multidisciplinar do Bettina contou com o apoio da fonoaudióloga Cristina Ornelas Peralta, do Grupo de Implante Coclear do Hospital das ClÃnicas de São Paulo, que atua há 10 anos atua no programa. Ela levou cerca de uma hora e meia para ajustar o equipamento em cada um dos pacientes, explicou sobre o aparelho e como seria o pós-operatório. Ao final, sua avaliação foi positiva. “Ambos tiveram bons resultados e boas respostas na estimulação elétrica, o que gera uma sensação auditiva que tende a melhorar com o uso do aparelho e ajustes periódicos que serão feitos. O resultado positivo da ativação se deve também ao acompanhamento pré e pós-operatório que tiveram junto à equipe do hospitalâ€, acredita a fonoaudióloga.
Nesta quarta, 10, Willian e Luciléia retornaram ao Hospital Bettina para continuar o acompanhamento. Eles foram recebidos pela fonoaudióloga Cintia Yamaguchi, que deu mais detalhes sobre a utilização do equipamento e seus acessórios. “Eles vão começar a reabilitação audiológica e auditiva, nas quais começam a aprender a ouvir os novos sons. Os ajustes periódicos nos equipamentos acontecem todos os meses e se prolonga na medida em que eles obtêm o nÃvel de audição satisfatóriaâ€, esclarece Cintia.
As cirurgias aconteceram no dia 4 de outubro deste ano e foi retransmitida ao vivo aos médicos residentes do hospital. “A expectativa era grande para toda a equipe, que ficou feliz com as respostas dos pacientes. É um serviço de alta complexidade e estamos muito felizes por ter chegado ao Pará, primeiro e único Estado da Região Norte a fazer esta operaçãoâ€, diz o doutor José Cláudio Cordeiro, coordenador do projeto de implante coclear no HUBFS, o qual atua ainda como médico cirurgião no implante.
Além da equipe multiprofissional (fonoaudiologistas, assistente social, psicologia, enfermeiros, etc.) da UFPA, participaram da cirurgia o professor doutor Robinson Koji Tsuji, presidente da Central Brasileira de Implante Coclear e coordenador do Grupo de Implante Coclear, do Hospital das ClÃnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC- FMUSP); e a doutora Valéria Goffi, fonoaudióloga responsável pelo Grupo de Implante Coclear do HC-FMUSP. Apoio técnico à realização do implante também foi dado pela equipe de infraestrutura do Bettina Ferro.
Próximas cirurgias
Existe um projeto, ainda em fase de aprovação pelo Ministério da Saúde, que prevê a liberação de verba para a realização de novas cirurgias no Pará. De acordo com um levantamento do Hospital Bettina Ferro, existem, pelo menos, 30 pessoas aguardando um implante coclear no Estado. Mas, enquanto o projeto não é aprovado pelo MS, o HUBFS realizará mais 16 cirurgias financiadas pela Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).
A cirurgia de implante coclear é considerada pela Organização Mundial de Saúde como a segunda cirurgia que proporciona melhor qualidade de vida ao usuário, acima, inclusive, do marca-passo cardÃaco. “É uma cirurgia de alta complexidade que beneficia – e muito! – a todos que perderam a audição ou que nasceram sem ouvirâ€, informa o professor José Cláudio. “Com o teste da orelhinha, obrigatório em todo o Brasil, vamos ter a confirmação de que a cada mil crianças, três nascem com deficiência auditivaâ€, afirma.
IMPLANTADOS
São cerca de 300 mil implantados em todo o mundo. No Brasil, são mais de três 3 mil. Os Estados do PaÃs que possuem Centro SUS de implante coclear são: Rio Grande do Sul (1 centro), Paraná (2 centros), São Paulo (3 centros na capital, 4 centros no interior), Rio de Janeiro (1 centro), Minas Gerais (4 centros), Distrito Federal, Bahia (1 centro), Pernambuco (1 centro), Rio Grande do Norte (1 centro), Ceará ( 1 centro) e agora o Pará (primeiro centro na Região Norte).
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