Um grupo de homens ligados à Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf) no sul do Pará decidiu implantar o terror na fazenda Cristalino, em Santana do Araguaia, segundo denúncia feita na polícia por duas lavradoras - uma delas teve o marido assassinado a tiros. Além de quatro crimes de morte de que são acusados por lavradores -ameaçados de expulsão de seus lotes de terra-, os diretores da Fetraf espalham medo e intimidação armada. Quem não paga para ficar nos lotes, é ameaçado de morte e despejo.
As duas agricultoras estiveram na polícia de Xinguara para relatar o drama que estão vivendo juntamente com seus familiares. J.A.A, que mora no Acampamento Cristalino II, Retiro 07, da fazenda Cristalino, declarou que residia em Redenção com o seu companheiro Givaldo Lopes, que trabalhava como tratorista em fazendas da região, e seus três filhos menores. Em 2008, Givaldo ficou sabendo por Edmilson Rodrigues dos Santos, o “Gordo”, que havia uma terra disponível na Cristalino.
J.A.A e Givaldo ficaram interessados no lote e, em agosto daquele ano, mudaram-se com a família para a área, no retiro 4. Ao chegar, construíram um barraco e passaram a viver ali. Três meses depois foram procurados pelo homem conhecido por Ademar, um dos coordenadores da Fetraf. Sem rodeios, Ademar disse que o casal teria de pagar uma “taxa” de R$ 6,5 mil à entidade para ficar com o lote. A família pagou, mas quatro meses depois voltou a ser procurada por “Gordo” e outro homem conhecido por Silvano. Eles fizeram a proposta de trocar o lote por outro, no Retiro 05.
J.A.A e Givaldo não aceitaram a proposta e os dois homens foram embora. Dias depois, a família voltou a ser procurada, desta vez por Ademar, Vando e Silvano, que ofereceram outro lote, no Retiro 07, argumentando que poderiam comprar a terra em nome da lavradora. Prometeram que se a família fizesse isso, ficaria com dois lotes. O casal aceitou a proposta, pagando R$ 7 mil pelo novo lote. Depois, sem explicações, “Gordo” tomou à força o lote de seu vizinho, e o vendeu a João Silva Sousa, atualmente vice-presidente da Associação dos Pequenos e Médios Produtores Rurais dos Retiros 1 ao 15, criada no final de 2009 e que teve a adesão da mulher de Givaldo.
Delegacia agrária teria ignorado denúncias
A mulher de Givaldo conta que, por ter ingressado na nova entidade, o grupo da Fetraf passou a perseguir sua família e outros agricultores. Foi quando a lavradora tomou conhecimento de uma “lista” de pessoas marcadas para morrer. Entre os ameaçados de morte estava Joacy, presidente da Associação, o vice, João Paulo Paim, o marido dela, Givaldo, a tesoureira da entidade conhecida por Rosário, além de outras pessoas.
No dia 28 de maio deste ano, um dos primeiros da “lista”, o lavrador Paulo Paim, pai de dois filhos, foi assassinado a bala. Em junho, no dia 26, outra morte: a do agricultor conhecido por “Zé Pretinho”, que deixou sete filhos. Com esses assassinatos, a família de J.A.A passou a viver com muito medo e cada dia mais perseguida e ameaçada. Pessoas eram vistas rondando a casa dela, durante a noite, fazendo disparos de arma de fogo.
Apavorada, a agricultora e sua família passaram a dormir na casa do vizinho por cerca de 2 meses. A família sempre ouvia dizer que Ademar estava jurando o seu marido de morte, pois ele sempre acompanhava e apoiava as reuniões da diretoria da Associação, inclusive em Marabá.
Com muito medo, a família mudou-se em setembro passado para o Retiro 07, onde construiu uma casa. Givaldo chegou a fazer boletim de ocorrência por três vezes na Delegacia de Conflitos Agrários, denunciando as ameaças que sofria. Nenhuma providência foi tomada.
Givaldo foi assassinado no dia 22 de outubro na estrada do lote 04. Ele estava sozinho e de motocicleta quando recebeu os tiros. O principal suspeito do crime é Edmilson Rodrigues dos Santos, o “Gordo”. O próprio suspeito teria declarado no boteco de João Mariano que havia assassinado o agricultor. A declarante afirma que apesar das ocorrências feitas por seu marido, a Deca nunca esteve na área para apurar as ameaças. Ela acusa policiais da Deca de atender somente denúncias que partiam de Ademar. Nessas ocasiões, policiais civis se dirigiam à área para revistar os lotes, procurando armas.
Fetraf não nega envolvimento
Dois dias após a morte do marido de J.A.A, outro assassinato: desta vez, a vítima foi o agricultor de prenome Lourival, conhecido por “Baiano”. Ou seja, quatro pessoas já foram assassinadas na região. Tudo depois da morte do sindicalista Pedro Alcântara, da Fetraf. J.A.A contou ainda na polícia que o grupo de Ademar é composto por “Gordo”, Vando, Divino, Domingos, Mineiro Zelasmar, que fornece as armas, além de João das Botas. “Gordo” teria participado dos quatro assassinatos, segundo comentários na região.
Também ameaçada, a agricultora R.S.E acusou na polícia Vando da Fetraf de vender o mesmo lote para várias pessoas, inclusive com famílias dentro. Como não poderia deixar de ser, isso tem provocado grande confusão entre os agricultores. Ela declarou que seis meses atrás apareceu um cidadão estranho no lote dela e começou a erguer um barraco. O marido foi conversar com o homem, ouvindo dele que Vando havia vendido o lote para ele. O negócio acabou desfeito. O agricultor Azulim, segundo Roberta, estaria jurado de morte por Vando por ter defendido um vizinho ameaçado de expulsão pelo diretor da Fetraf.
O DIÁRIO tentou por diversas vezes ouvir os acusados, mas nenhum deles foi encontrado. A direção da Fetraf no sul do Pará diz estar preocupada com os conflitos e assassinatos na área da fazenda Cristalino. Ela disse que grupos armados ameaçam lavradores, mas não nega nem confirma que integrantes da entidade fariam parte do grupo de extermínio. A Deca informou que está apurando as denúncias das lavradoras. (Diário do Pará)
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