Gurupá, Alenquer, Cametá, Breves, Óbidos - não há como desmentir a forte influência portuguesa nos nomes dados às primeiras ruas de Belém. Aqueles que ajudaram a construir a cidade e o próprio país - Rodrigues dos Santos, Siqueira Mendes, Ângelo Custódio, Félix Roque, Padre Champagnat, Dr. Assis, Dr. Malcher e Almirante Tamandaré - também deram nomes a ruas no bairro da Cidade Velha, que ainda conserva a beleza e a graça do passado. Para celebrar não só os 395 anos de Belém, como a própria memória desse lugar, o DIÁRIO entrevistou diversos moradores que possuem olhos, digamos, “mais experimentados”, e relatam suas impressões sobre o passado e o presente vivenciados.
A Cidade Velha surge na Ladeira do Castelo - antiga Rua do Norte -, e se expande até a Praça do Arsenal e as ruas que cruzam o canal da Tamandaré, quando passa a fazer fronteira com o bairro do Jurunas. “Quando eu aqui cheguei, essa rua terminava ali onde mais ou menos é a Alenquer. Dali para frente, era um lamaçal enorme, mato e o terreno da Marinha ao lado”, relembra Gilberto Cabral, 98 anos, morador do bairro desde 1958, mesmo ano em que o Edifício Manoel Pinto da Silva foi construído no coração de Belém.
Seu Gilberto é dono do Mercadinho Cabral, na ativa há 53 anos e que começou como uma quitanda, de onde ele partia todas as manhãs numa carroça, para vender frutas à vizinhança. “Aqui montei meu negócio, criei meus seis filhos e gosto muito dessa morada, ainda é um lugar agradável e perto do comércio. Nem sei quanto custa uma passagem de ônibus”.
Hoje, a insegurança o obriga a ter grades na porta do mercado. “Não sei se a Cidade Velha vai melhorar, eu espero, mas não acredito. Isso aqui cresce como rabo de cavalo, só para baixo”.
Vivendo numa bela e enorme casa tombada pela União junto à sobrinha Maria da Conceição Carvalho, Isabel Amaral lembrou com saudade do tempo em que ficava sentada na porta da casa, conversando e vendo o movimento da rua. “Era a maior tranquilidade, a gente podia chegar tarde que não tinha problema. Lembro da quantidade de vizinhos portugueses que a gente tinha, mas foram todos morrendo”.
Dona Conceição, que está na Cidade Velha desde os 25 anos, quando se mudou com o marido e os três filhos, diz que educação e bons vizinhos são coisas raras hoje em dia. “Além disso, as ruas eram muito boas, não eram esburacadas. Tudo aqui já foi melhor, era um sossego, um paraíso há 50 anos.
Morando no bairro onde tudo começou, e que ainda possui locais importantes para a cidade como é o caso do Porto do Sal, a matriarca da família Carvalho fez um pedido: “Gostaria que o poder público olhasse mais para o nosso bairro, que conserve não só para nós, moradores, mas para todos os que vivem e visitam a cidade”. (Diário do Pará)
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