plus
plus

Edição do dia

Leia a edição completa grátis
Edição do Dia
Previsão do Tempo 30°
cotação atual R$


home
NOTÍCIAS PARÁ

Raimundo Farias, um triste edifício ainda de pé

Duas cestas básicas e um silêncio quase absoluto. Quase 24 anos depois é o que cabe no latifúndio de lágrimas e dores mal guardadas da aposentada Neusa da Silva Santos, 71 anos, mãe de José da Silva Santos, um dos primeiros operários resgatados dos esc

twitter Google News

Duas cestas básicas e um silêncio quase absoluto. Quase 24 anos depois é o que cabe no latifúndio de lágrimas e dores mal guardadas da aposentada Neusa da Silva Santos, 71 anos, mãe de José da Silva Santos, um dos primeiros operários resgatados dos escombros após o desabamento do edifício Raimundo Farias, no dia 13 de agosto de 1987. José morreu horas depois. Neusa ainda fenece lentamente de lembranças não apagadas, tristezas que não cicatrizam e uma resignação que o tempo lhe impôs. Nunca recebeu indenização por parte da construtora responsável pela obra - e se diz que ‘não faz questão de dinheiro’, isso não significa que a justiça lhe deva faltar. Mas falta.
“Prometeram coisas que nem lembro mais”, diz ela, sentada num banco de plástico, ao lado da casa de madeira escura e sem pintura, numa viela localizada no bairro do Guamá. Neusa não sabe dizer se prometeram dinheiro, cestas básicas, compensações. Não há compensações para ela, mesmo tantos anos depois.

“É uma grande dor que nunca uma mãe esquece. Quando caiu esse edifício agora, eu nem quis ver, não queria lembrar”, diz ela. Neusa lembra tudo. O último dia do filho, a sensação que sentiu. Ao lembrar, diz que está cansada. E uma lágrima desce como se estivesse fazendo um esforço extremado para vencer o rosto enrugado e aliviar lembranças ainda doloridas.
“Ele era o filho mais velho. Era um rapaz bom. Tudo o que ele arranjava trazia para casa. Dizia que estava trabalhando para ajudar a fazer minha casa”. José era pai de três filhos. Duas meninas e um menino. Atualmente estão todos casados e com filhos. Tinha 22 anos na época e trabalhava como pedreiro. “Ele fazia tudo lá”, diz a mãe.

MEMÓRIA

O último dia de trabalho e de vida do operário José ainda permanece na memória da mãe. “Ele levantou cedo e perguntou se o café tava pronto. Depois de beber, me abraçou e me perguntou se eu não queria que ele passasse o dinheiro dele pra mim. Eu disse que não, que era da família dele. ‘Mas eu vou lhe ajudar, mãe’, ele disse”.
Depois do café, José teria ficado sentado na mesa olhando a mãe durante alguns segundos. Depois disse que precisava ir embora, porque já iria apitar sete horas. “Me abraçou e da boca da rua ficou me acenando”, lembra a mãe.

Foi um dia atípico para Neusa. Não quis fazer almoço, se recusou a comer. Visitou a mãe. Lavou roupas de José. Depois deitou na rede. “Fiquei pensando nele. De repente tudo escureceu na minha vista, como uma grande nuvem. ‘Vai acabar o mundo’, pensei”.

O mundo dela acabaria depois, quando um colega de trabalho de José bateu à porta e disse que o operário estava debaixo da terra, que o edifício tinha desabado. José foi um dos primeiros a ser resgatados, com múltiplas fraturas. Neusa não tinha televisão. Um vizinho detalhou a tragédia. O operário José não resistiu. Foi enterrado no cemitério São Jorge, um dos muitos santos a que se apega Neusa Santos, fazendo jus ao sobrenome. “Só vou me esquecer quando morrer”, diz ela.
É uma sensação semelhante à sentida por Marlene de Nazaré Araújo. “Me senti muito mal quando esse prédio caiu, minha vista escureceu, foi como se eu estivesse revivendo tudo de novo”, diz. Ela jamais conseguiu esquecer como ficou viúva do pedreiro Osmar de Nazaré, morto há 24 anos por esmagamento de crânio, traumatismo provocado pelo soterramento nos escombros do Raimundo Farias.

Ela tinha 25 anos quando casou com Osmar, um homem moreno, viril, que gostava de trabalhar e estar com a família. “Ele trabalhava naquele prédio como pedreiro de acabamento, fazia coisas muito bonitas como azulejar e colocar ladrilhos. Sempre trazia o dinheiro direitinho pra casa, apesar de gostar de uma cervejinha, mas era um ótimo marido. Sou apegada com as irmãs dele, já a mãe dele, dona Cândida, ficou muito doente quando ele morreu, e acabou morrendo também logo depois”, lembra.
No dia do acidente, Osmar tomou café e saiu para trabalhar na obra, não sem antes receber um alerta da esposa. “Falei que dia 13 não era uma boa data, mas que como era quinta-feira não tinha muito problema, pior se fosse uma sexta-feira. Ele disse pra eu parar, que era besteira”. O prédio caiu e famílias ficaram despedaçadas. “Tem uma mulher que vaga por aí pedindo nas casas, não sei o nome dela, mas também teve o marido soterrado no Raimundo Farias”.

Marlene dependia do dinheiro de Osmar para sobreviver. Depois que ele morreu, a situação mudou. “Ele tinha 45 anos, dava o sustento, e eu fiquei recebendo da construtora cesta básica e o salário semanal dele até sair minha pensão do INSS, o que não demorou muito. A partir de então fiquei sobrevivendo dela. Gastei muita sola de sapato em busca dos meus direitos”.
Foi quando conheceu as outras viúvas e mães que perderam parentes na tragédia. “Lutei muito, eu vivia indo no sindicato, na construtora, e só em 1999 saiu a indenização, que dividida entre todos ficou em R$ 4.272,32 pra mim”, diz, mostrando o amassado recibo do poder judiciário.
Marlene mora na casa que herdou dos pais, e que foi reformada graças a um acordo comercial que fez com o comprador do terreno ao lado, também de propriedade dela. “Vivo com menos de um salário mínimo, porque o INSS ainda me descontou mais ou menos 40 reais não sei por que motivo, e desse dinheiro tiro alimentação e plano de saúde. É muito pouco”.

Marlene se pergunta por que o prédio não desabou de noite. “Assim não ia prejudicar as pessoas que trabalhavam nele, que geram o progresso pra construtora, que depois do que aconteceu mudou de nome, nos esqueceu e continuou enriquecendo”. Ela acredita que as famílias vitimadas pela queda do Real Class devem ficar ‘em cima’ da construtora, mesmo sendo difícil, mas não podem se deixar abater ou correm o risco de passar anos aguardando por uma decisão, como ela.
Foram mais de dez dias até que todos os corpos dos escombros do Raimundo Farias fossem retirados. Atualmente, Osmar está enterrado no cemitério São José, no bairro do Bengui. Marlene busca uma oportunidade de falar com o prefeito, pois o cemitério está desativado e ela já foi avisada pela administração que deverá retirar os restos mortais do marido. “Eu comprei uma lápide na parede, paguei, ele e a mãe dele estão enterrados lá e não tenho onde colocá-los”, esclareceu Marlene. (Diário do Pará)

VEM SEGUIR OS CANAIS DO DOL!

Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.

Quer receber mais notícias como essa?

Cadastre seu email e comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Conteúdo Relacionado

0 Comentário(s)

plus

    Mais em Notícias Pará

    Leia mais notícias de Notícias Pará. Clique aqui!