É na religião que Simone Moraes, 40 anos, ampara-se para dar conta dos dias solitários. Presa há dois anos por tráfico de cocaína em Manaus, não sabe que fim levou o companheiro. “Ele sumiu. Só tenho notícias de que arranjou uma menina”, diz ela. Simone já cumpriu dois anos dos quase sete a que foi condenada. Desde então a palavra sexo foi riscada do vocabulário dela. Visitas, só a dos familiares próximos: irmãos e filhos. “Sinto falta, mas oro. E quando dá solidão, também rezo”, diz.
É uma realidade comum para a maioria das mulheres detentas. Ao contrário dos presos homens, as visitas íntimas escasseiam, o abandono é maior. Se aos homens há a presença da mãe, da mulher e muitas vezes de namoradas conquistadas já depois de presos, às mulheres restam filhos e outros parentes. Raros são os companheiros que continuam a visitar as presas. Carentes, muitas mulheres criam laços homoafetivos com outras detentas.
“Há uma carência afetiva muito grande. As mulheres são sim mais abandonadas pelos companheiros”, avalia a assistente social do presídio feminino Jaciléia Alves. “E o mais grave é que muitas vezes os delitos delas são por causa deles, como no tráfico”, afirma.
Segundo dados da Superintendência do Sistema Penitenciário do Pará (Susipe) existem 608 mulheres presas no Estado. A quase totalidade, 509, está lotada na Região Metropolitana de Belém. São mulheres jovens. Metade tem entre 18 a 29 anos, com baixa escolaridade ainda, já que 69% delas possuem apenas o ensino fundamental incompleto. O tráfico de drogas é a principal causa das prisões.
Para essas mulheres, é necessário estabelecer novas regras de vida na prisão. Em dias de visita, são poucos os homens que esperam a vez. Mães e filhos são quem costumam visitar as mulheres presas. A questão dos filhos suscita problemas, segundo a diretora do Centro de Recuperação Feminina, Dorotéa Soares Lima. “Muitas têm filhos registrados como irmãos ou como sobrinhos. Essa é uma coisa que mexe muito com elas, porque não se pode abrir exceções na lei”, diz.
Em relação à solidão, a diretora é mais cautelosa. “Acho que é uma coisa extremamente particular. O sentimento saudade é comum no ser humano, mas cada um tem uma maneira de lidar com isso”, analisa.
Presa por roubo, ele ficou três anos sem visitas íntimas
Presa junto com o companheiro por roubo seguido de morte em Tailândia, Valéria Silva, 30, está presa há cinco anos. A pena foi de 20 anos, mas pelos cálculos dela, de acordo com a legislação brasileira, já teria cumprido tudo o que tinha para cumprir. “Cheguei aqui na época em que cortaram as visitas íntimas. Passei três anos e cinco meses sem visita íntima. É complicado”, diz ela.
Valéria está cumprindo o regime semiaberto. É quando ela aproveita para namorar. “Aqui dentro é mais difícil para nós. Tem muita burocracia para os homens, às vezes eles não querem ver a gente. Arrumam logo outra”, diz.
“Aqui não tenho com quem desabafar”, diz Ana Lúcia Ferreira. “O tempo em que estou presa é o tempo em que não vejo mãe, irmãos, companheiro. Só uma filha vem me visitar. Já pedi pra Deus tirar o ódio do meu coração em relação ao meu marido. Ele tá solto. E minha filha foi presa sem motivo. É algo que vou ter de enfrentar quando sair daqui. Ela se sente magoada e não fala comigo”.
Para Simone Moraes, que foi presa no dia do aniversário, a ideia de conseguir independência financeira por intermédio do tráfico já ficou para trás. Pensar no companheiro que prometeu visitar e nunca apareceu é perda de tempo. O pensamento é nos filhos. “Quero recuperar o tempo perdido. Se eu encontrar o companheiro? Dou é um tapa na cara dele”.
Quando o parceiro leva à prisão
Ana Lúcia Ferreira foi condenada a 12 anos por tráfico de drogas em Castanhal. A data da prisão permanece gravada na memória. “Foi no dia 17 de junho de 2007. Fui presa por causa do meu marido”, diz ela.
No relato de Ana Lúcia sobram acusações para o companheiro. Segundo ela, o tráfico era feito por ele. Tanto Ana Lúcia como a filha, então com 16 anos, teriam sido presas injustamente. No momento da ação policial, Ana conseguiu fugir. O marido e a filha foram presos. Só depois é que Ana Lúcia foi capturada, acusada pelo marido de ser a mentora do tráfico.
“Fui abandonada todo esse tempo. Fiquei sem saber o que fazer da minha vida”, diz Ana Lúcia. “Cheguei a ter crises, a adoecer, a baixar no hospital. Ele nunca veio aqui me visitar. Descobri que ele tinha me acusado e desde aí não tenho contato com ele, que não me ajuda em nada”, desabafa.
Sexo e carinho são coisas que Ana Lúcia diz pensar às vezes, mas que não dura muito. “Passa pela cabeça, mas temos que nos conformar”, diz. “Muitos homens dizem que vem visitar. Aí chegam aqui na primeira vez, não gostam da revista, reclamam e depois não vêm mais. Já vi muito isso aqui”, afirma.
“Os homens têm dificuldades de continuar visitando”, confirma a assistente social Jaciléia Alves. Segundo ela, há sempre queixas sobre a ‘burocracia’ para se conseguir a autorização para entrar no CRF. Como as revistas precisam ser feitas de forma minuciosa, os homens se sentem constrangidos.
“A mulher é mais fiel, tem mais sensibilidade, é mais afetiva e companheira. Já o homem não tem o vínculo maior. O envolvimento deles é de momento, se afastam nas dificuldades”, compara a assistente social. (Diário do Pará)
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