A indiazinha da etnia Araweté, que foi internada na Santa Casa de Misericórdia com sinais de maus-tratos e desnutrição, apresenta quadro de saúde estável, porém ainda não há previsão de alta. Os pais da criança são acusados da agressão.
Segundo boletim médico divulgado pelo hospital, a criança se alimenta bem e passou por uma série de exames clínicos, mas alguns resultados ainda estão em fase de análise. A indiazinha deu entrada no hospital na última quarta-feira (6), vinda do município de Altamira. A criança é portadora de um distúrbio de crescimento que a mantém com idade óssea inferior à idade real.
Atualmente, existe um processo de destituição do poder familiar e guarda da criança que foi protocolado pelo Ministério Público Estadual (MPE) no dia 15 de fevereiro deste ano. De acordo com Estela Libardi, servidora da Fundação Nacional do Índio (Funai), o documento pede a suspensão da guarda dos pais e a concessão provisória a uma enfermeira, que estava cuidando da menina em Belém.
“Já aconteceu uma audiência e o juiz deliberou alguns pedidos, pois ainda não tinha a comprovação dos maus-tratos. Antes de uma criança indígena ser colocada em uma família não indígena é preciso ver se há possibilidade de colocar em uma outra família indígena, procurar os familiares”, conta. Foi solicitado também um estudo antropológico, que já foi realizado.
A nova audiência ainda não foi marcada, mas segundo Estela, isso deve acontecer o mais breve possível. A servidora adiantou que um dos resultados do estudo antropológico mostra que o afastamento impediu a criação de relação de parentesco e vínculos familiares entre a criança e os pais (a indiazinha passou quase dois anos longe dos pais, em tratamento médico em Altamira e Belém).
“Isso não é uma justificativa para maus-tratos, os arawetés se mostram perplexos. Este é um caso excepcional entre eles, ela não foi rejeitada pela tribo”, diz.
A situação gera discussões sobre o que deve ser levado em consideração para decidir o futuro da indiazinha. “Para mim, a melhor opção é que ela seja adotada, já que os pais a maltrataram”, opina a estudante Carla Almeida. “Ela vai vivenciar outra cultura, mas também acho melhor que ela tenha outra família que a ame”, diz o servente Cláudio Lopes.
DIFERENÇAS
O antropólogo Romero Ximenes explica que algumas sociedades tradicionais veem pessoas com deficiências como mau augúrio. “Elas são sintomas de uma ameaça e por isso são rejeitadas, pois estão fora do padrão da normalidade. Em algumas delas acontece o infanticídio, alguns são abandonados para morrer mesmo”.
Para Ximenes, a não aceitação das pessoas diante de um fato como este é comum porque cada sociedade tem suas regras. “Esse impasse se dá porque não admitimos as razões do outro, não sabemos olhar o outro pelas diferenças. Estamos diante de duas sociedades completamente diferentes, com valores diferentes. Estamos querendo entender a lógica de uma sociedade a partir dos valores da nossa”. (Diário do Pará)
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