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Lábio leporino: mais que uma questão de estética

Uma vez por mês, Adriana Ramos de Oliveira toma a filha nos braços e faz um percurso que dura oito horas de ônibus, do município de Abel Figueiredo, no sudeste do estado, até Belém. O destino final é o Hospital Ophir Loyola. É quando a criança, que vai

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Uma vez por mês, Adriana Ramos de Oliveira toma a filha nos braços e faz um percurso que dura oito horas de ônibus, do município de Abel Figueiredo, no sudeste do estado, até Belém. O destino final é o Hospital Ophir Loyola. É quando a criança, que vai completar dois anos daqui a quatro meses, recebe o acompanhamento médico desde a cirurgia feita há dois meses, para corrigir um problema que parece não chamar a atenção, mas que põe o Pará numa situação desconfortável. O das crianças que nascem com fissura no lábio e no palato, o chamado céu da boca.
“Lábio leporino” e “goela de lobo” são termos que se popularizaram em relação a essa anomalia, cujos efeitos físicos, psíquicos e sociais costumam ser tão intensos que há especialistas que defendem que ela seja considerada uma deficiência. No Brasil, costuma nascer com esse problema uma em cada mil crianças. No Pará, a proporção é de um a cada 650 nascidos vivos.
“Temos mais de 10 mil ‘fissurados’ só no Pará. São 15 casos novos por mês que atendemos no ambulatório do hospital”, diz o cirurgião plástico Carlos Bragança, integrante da equipe multidisciplinar do Ophir Loyola que atende crianças com o problema. O serviço de fissuras HOL realiza em média 25 cirurgias plásticas por mês e atende 500 pacientes ambulatoriais nas várias especialidades da equipe.
É um mal que, embora seja democrático, ou seja, alcance todas as classes sociais, tem certa prevalência entre famílias mais pobres. Isso porque, entre as causas, há a alimentação deficiente da gestante, as viroses, como a rubéola, o cigarro, traumas, o raio-x na fase de formação do feto. “Podemos dizer que 30% dos casos são hereditários. Os outros 70% são desses múltiplos fatores”, diz
Bragança.
E é esse “fator pobreza” um dos motivos que fazem com que hospitais privados fujam desse tipo de atendimento. Isso porque não dá para fazer o tratamento sem envolver psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas, pediatras, odontólogos, fonoaudiólogos, enfermeiros, além dos cirurgiões plásticos. E num país onde saúde costuma rimar com cifrão, resta aos hospitais públicos lidar com a anomalia. O Ophir Loyola se tornou referência no estado. “Já atendemos pessoas do Maranhão, do Amapá e até da Guiana”, diz o cirurgião.

No Pará, Marajó e Cametá lideram número de casos
No Pará, o Marajó lidera o ranking de incidências. E com prevalência do fator hereditário, já que na zona rural do arquipélago o entrelaçamento consanguíneo é comum. Mas os municípios de Cametá e Abaetetuba também registram muitos casos. “Não temos dados exatos, mas sabemos que esses três locais possuem alta incidência. No caso de Cametá e Abaetetuba, não sabemos se é por conta de um trabalho de conscientização da população, o que os faz procurar atendimento”, diz o médico.
Tecnicamente, o fissurado labio-palatal é a criança que nasce com o lábio superior ou palato partido. Estas estruturas não fecham devido à má formação na face do bebê durante a gravidez. A criança com fissura tem dificuldade para se alimentar, respirar e falar, além de ser mais vulnerável a infecções. O mecanismo de formação dessa anomalia ocorre entre a 4ª e 8ª semana de gestação, devido a falhas do desenvolvimento dos processos maxilares e palatinos. Pode-se obter o diagnóstico precoce com a ultrassonografia, mas o tratamento só pode ser iniciado após o nascimento do bebê. Foi o que ocorreu com a filha de Adriana, em Abel Figueiredo. Como ela não tinha os lábios partidos, apenas o “céu da boca”, a mãe não percebeu de início o problema. Mas quando tentou dar de mamar, ficou assustada ao ver o leite sair pelo nariz da menina. E assim era com todos os líquidos que tentavam dar a ela. “Fiquei sem saber o que fazer”, diz Adriana, que via a filha perder peso, desnutrida. Foi num posto de saúde do município que se identificou o que havia de errado.

A cirurgia da filha de Adriana durou uma hora e meia. Ela continua sob acompanhamento. Na família já houve um caso. Uma prima dela morreu porque não se conseguiu identificar o que havia de errado e o bebê não resistiu à desnutrição.
“É necessário que a criança seja operada a partir dos três meses de idade para ter um bom rendimento, no caso do lábio. Na do ‘céu da boca’, é mais ou menos com um ano e meio”, diz Carlos Bragança, um dos três cirurgiões que fazem esse tipo de operação no Ophir Loyola.
Aos poucos o tema começa a despertar maiores interesses. Em Belém, existem pelo menos quatro trabalhos científicos nas universidades e faculdades voltados para essa anomalia. Em julho passado, no Congresso Brasileiro de Genética Médica, realizado em Cuiabá, foram apresentados dois trabalhos a respeito. Era um estudo estatístico com 150 pacientes, que tiveram o sangue colhido para uma avaliação laboratorial genética. Em dezembro, dois pesquisadores, um da Argentina e outra do Rio de Janeiro, vêm a Belém estudar 30 pacientes com as famílias.
“Há toda uma complexidade envolvida nesse tratamento. Precisamos de uma equipe completa, senão o serviço não anda. E como a maioria é do interior do Estado, às vezes a informação lá chega com atraso. E quanto mais cedo for feita a correção e o acompanhamento, melhor”, diz o cirurgião Vitor Aita, 50 anos.
Foi o que fizeram os pais de outra menina, de 7 anos, quando ela nasceu. O parto foi normal. “Levei um susto quando ela nasceu. Fiquei anestesiada”, diz a mãe Ediana Aguiar. “O que irritou é que veio todo mundo em cima para olhar, como se ela fosse aberração”, diz o pai, Sandro Aguiar. A criança recebeu acompanhamento desde cedo. Já passou por quatro cirurgias. A primeira quando tinha nove meses. A última na quarta-feira passada.
“Geralmente a criança, quando se olha no espelho, acaba se sentindo diferente. É gratificante quando ela se olha no espelho depois e começa a sorrir com o que vê. É gratificante para quem fez e para o paciente. Para todo mundo, no fim das contas. É uma boa recompensa”, diz Aita. (Diário do Pará)

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