Ao lado dos portões do prédio do Ministério Público de Icoaraci, seis cadeiras escolares permanecem vazias. No ato simbólico para marcar os dois meses de morte de seis adolescentes no distrito, os assentos relembravam cada vítima da chacina.
Um deles tinha 14 anos de idade, o outro 15, outros dois tinham 16 e os dois restantes, 17. Os garotos foram executados na noite do dia 19 de novembro de 2011, enquanto conversavam em frente à casa de uma das vítimas, próxima ao Instituto de Previdência e Assistência do Município de Belém (Ipamb). O grupo foi rendido por dois homens em uma moto, que se identificaram como policiais. Em seguida, os jovens foram baleados um por um, pelas costas.
A mãe de dois dos adolescentes, e tia de um terceiro, chora enquanto é feito um circulo de oração entre a dezena de parentes que participavam da vigília. “São dois meses sem respostas, sem conforto. Só dor”, lamenta.
“Meus filhos tinham ido naquela noite de sábado acompanhar o primo, na casa da avó deles. Era só pegar a carteirinha de vale-passagem do ônibus, pois eles iriam me ajudar a vender brinquedos na manhã seguinte, na Praça da República (em Belém). Eles encontraram uns amigos e pararam para conversar. Eu ouvi os disparos bem próximo de casa e corri para a rua. Cheguei a tempo de ver meu caçula, ainda respirando. Mas ele não sobreviveu, morreu no hospital naquele mesmo dia”, relembra.
O ato de ontem de manhã foi organizado para que os familiares pudessem ter acesso a informações do inquérito, que, por se tratar de um crime envolvendo adolescentes, atualmente corre sob segredo de justiça. Um suspeito permanece preso: o ex-policial Rosevan Moraes de Almeida, apontado pelas testemunhas e investigação criminal como autor dos tiros.
Mas o não esclarecimento da motivação do assassinato ainda consome os familiares. A dúvida se soma ao sentimento de insegurança entre os envolvidos no caso. No relato da testemunha, até agora sua irmã e sobrinhos, dois rapazes e uma menina de 14 anos, permanecem no mesmo bairro onde ocorreu o crime. A família não foi inserida pelo governo no programa de proteção à testemunha, e todos se sentem coagidos, com medo de um próximo ataque. “Só existe uma ronda policial que passa aqui por casa, temos medo que possa acontecer algo”, afirma.
SEM RESPOSTAS
“O promotor é favorável a manter a prisão preventiva do suspeito, mas a inserção dessas pessoas no programa de proteção devia ser garantida. Elas estão correndo riscos já que ainda existe um comparsa à solta, de acordo com testemunhas e o próprio inquérito da polícia. Vamos bater nessa tecla até que algo seja feito”, declarou Ronald Luz, representante da Comissão pela Paz e Direitos Humanos, que vem acompanhando as investigações.
A reportagem tentou entrar em contato com o promotor de justiça de Icoaraci, Luis Márcio Cypriano, para comentar o assunto, mas ele se recusou a dar entrevistas.
NOTA
Por meio de nota emitida pela assessoria de comunicação do Ministério Público, Cypriano afirmou que não irá emitir informações sobre o caso até que tenha acesso ao inquérito policial. (Diário do Pará)
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