Da porta de casa, Hilda de Moraes, 61, enxerga uma Vigia diferente. A avenida Magalhães Barata, onde mora há 23 anos, é um dos principais acessos ao corredor da folia por onde passam toda segunda-feira de carnaval os blocos “As Virgienses” e “Cabraçurdos”.
“No começo eu estranhava, mas agora é uma diversão. Sento na varanda para acompanhar, é muito engraçado, principalmente os Cabrassurdos e as Virgienses”, comenta a aposentada, referindo-se aos blocos onde as mulheres vestem-se de homem e os homens de mulheres. “Amigos, vizinhos e parentes. Todo mundo entra na brincadeira”.
Por volta das 15 horas de ontem, o técnico de enfermagem Almir Marques dos Santos rendeu-se ao ritual de “transformar-se em menina”. Curtindo o carnaval do município pela primeira vez, ele seria mais um a divertir Hilda na tarde de ontem.
Ainda tímido, mas encorajado pelos amigos – e por uns goles de uísque – ele se sentou já de camisola preta para ser maquiado. “Eu me vesti de mulher uma única vez, mas foi só a roupa, sem muita produção. Acho que só vou relaxar quando estiver na metade do bloco”, dizia o jovem que, com outros três colegas, fantasiou-se de dançarina de cabaré, com direito a unhas pintadas de vermelho, peruca loira e meia-calça preta. “O perigo disso tudo é gostar”, brincou folião ao ver o resultado.
Mais experiente na arte de virar mulher no carnaval, Adilson Jesus, 69, desde cedo exibia o visual glamouroso na concentração do bloco. “Sou nascido em Vigia, mas moro em Belém. Desde 2003 não perco um carnaval aqui. Venho só para participar do bloco das Virgienses. Essa brincadeira dá uma oxigenada na cabeça, a gente volta renovado”, justificou o senhor, embalado pelo tema musical. “Chegou as virgienses, chegou as virgienses. Ninguém pode mais com a gente”, cantava.
O bloco “As Virgienses” surgiu há 27 anos como uma brincadeira entre amigos e a cada ano reúne mais e mais “foliãs desavergonhadas” na segunda-feira gorda. Este ano a animação ficou por conta das bandas centenárias União Vigiense e 31 de Agosto, que embalaram o público ao som de frevo e marchinhas. A tradicional caninha de “As Virgienses” também era servida gratuitamente.
Foram 160 quilos de limão e 60 de açúcar que renderam mais de dois mil litros de bebida. “Aqui ninguém paga nada, a única obrigação do homem é se vestir de mulher”, disse João Silvestre, presidente do bloco.
Mulheres “dão o troco” e saem vestidas de homem
Por oito anos “As Virgienses” reinaram absoluta na folia de Vigia, até que em 1993 veio a resposta feminina. Aproximadamente trinta mulheres mostraram que também podiam ser “macho” e ganharam as ruas vestidas de homem em busca de diversão, já que no bloco dos amigos, namorados, noivos e maridos elas não eram bem vindas. “Mulher não entra (no bloco As Virgienses). O jeito foi elas criaram um bloco pra elas”, esclareceu o vice presidente do bloco “As Virgienses”, professor Tavinho, como é mais conhecido.
Animadíssima Ângela Araújo, 55, deixou o marido em casa, em Belém, mas da roupa dele não abriu mão. “Ele ficou, mas a roupa veio. Deu certinho. Tô solteiríssimo, se aparecer uma gatinha afim, estamos aí”, divertiu-se dona Ângela.
Quem não quis arriscar foi a universitária Juliana Cunha que não largava o braço do namorado que vestia uma roupa dela. “Ele é mais cheinho, a única coisa que serviu foi esse vestido mais soltinho. Mesmo assim, ficou uma gata”, derretia-se olhando o namorado Roberto Junqueira. “Ela também ficou muito bem de barba”, retribuiu.
Os amigos Horácio Bastos e Márcio Lopes preferiram sair do “trivial” e não colocaram vestido e salto alto. Foram de Belém fantasiados de “Facebook” e “Orkut”, respectivamente. As fantasias ilustravam as telas iniciais das duas mídias sociais. “Foi de última hora. Optamos por ser mídia, encomendamos na gráfica e chegamos de manhã”, disse Horácio ouvindo a reclamação do amigo. “Ele tá querendo me deletar porque tô ultrapassado, mas tem quem me prefira”, brincou. (Diário do Pará)
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