O caso do falso técnico de futebol de Icoaraci, acusado de tirar dinheiro de famílias de jovens atletas com a promessa de encaminhá-los a grandes times de futebol, e também de abusar sexualmente dos jovens, foi ouvido na tarde de ontem pela CPI do Tráfico Humano, na Assembleia Legislativa do Pará. Foram ouvidos os depoimentos de cinco mães, cinco jovens envolvidos e do auxiliar do falso técnico, que também teria sido enganado. A CPI ainda vai ouvir mais depoimentos para investigar as relações entre o suposto treinador e outros nomes mencionados nos depoimentos.
O relator da CPI, deputado Carlos Bordalo (PT), acredita que o futebol tem se tornado atrativo para o tráfico humano. “Esses casos têm sido recorrentes. Estamos atrás do Ronildo Borges, conhecido como Batata, que é suspeito de aliciar jovens do sul do Pará e levar para a Baixada Santista”, revela.
Para o presidente da Comissão, deputado João Salame (PPS), o caso de Icoaraci claramente envolve dois crimes. “Nos parece um caso de estelionato e pedofilia, mas, a partir dos depoimentos, temos novos nomes e vamos continuar investigando”, garante.
A CPI já ouviu 78 pessoas, 37 em sigilo e 41 em audiências públicas e está chegando a uma conclusão. “A CBF e todos esses órgãos esportivos precisam normatizar os agenciadores para termos um controle e para que essas famílias tenham segurança na hora de acreditar no trabalho deles”, diz.
De acordo com Maria, uma das mães que prestaram depoimento, desde o dia da suposta viagem, o treinador, que se apresentava como “Ruan”, não apareceu mais. “No dia da viagem para o Rio de Janeiro, onde os meninos iam disputar a Copa Rio, ele deu um horário diferente de saída do ônibus para cada mãe, e desde então ele sumiu com o dinheiro da gente”, relata.
Depois disso, ela e outras mães registraram um boletim de ocorrência por furto, denúncia publicada pelo DIÁRIO, que chamou a atenção da CPI. “Depois que saiu no jornal, o pessoal da CPI entrou em contato com a gente e viemos aqui contar o que sabemos”, diz.
O filho de Maria foi assediado diretamente pelo técnico. “Meu filho me mostrou as mensagens do Ruan dizendo que, se meu filho fosse para a cama com ele, se daria bem. Ele nunca aceitou, mas não queria perder a oportunidade de jogar fora, que o Ruan prometeu a todos”, conta.
Ruan, na verdade, se chama Luiz Carlos Rodrigues, como já foi descoberto. “Meu filho viu a identidade dele e descobriu que o nome dele era falso”, completou.
Durante os depoimentos, as mães contaram que o falso técnico garantia que o projeto era apoiado pela Prefeitura Municipal de Ananindeua, que também será ouvida pela CPI. De acordo com a assessoria da prefeitura, existem projetos semelhantes a esse apoiados por ela, mas todos funcionam no município de Ananindeua e nenhum em Icoaraci, distrito de Belém.
A CPI do Tráfico Humano vai encerrar os trabalhos em abril e já vai formatar um projeto de lei para levar à bancada federal. “Queremos que a normatização desses agenciadores seja obrigatória para diminuirmos esse risco”, conta Bordalo.
Para a mãe de outro jovem ouvido em depoimento, o sonho dos meninos não acabou porque eles atravessaram esse problema. “Eu e todas as famílias queremos ver esse homem atrás das grades, mas nós vamos continuar correndo atrás do sonho deles e quem quiser nos ajudar e for uma pessoa do bem será bem-vindo”, pede.
O CASO
No último dia 6, a Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio de Icoaraci divulgou a foto de Luiz Carlos Rodrigues Pinto, 53 anos, conhecido como “Ruan”. Ele foi denunciado por cerca de 20 mães de jovens levados para treinar em um campo de futebol no bairro do Tenoné.
O acusado alegava que os encaminharia para clubes no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, onde os jovens se tornariam atletas profissionais. Luiz Carlos recebeu dinheiro das mães, em Belém e Paragominas, e desapareceu.
O golpe ocorreu em janeiro e fevereiro deste ano. O acusado pediu valores entre R$ 300 e R$ 500, que seriam para custear as despesas com a viagem. Somando o dinheiro das mães vítimas do golpe, ele teria arrecadado cerca de R$ 8 mil.
O caso está sendo investigado pela delegada Elizete Cardoso, titular da Delegacia de Crimes contra o Patrimônio de Icoaraci, onde as ocorrências foram registradas. (Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar