Nos quatro cantos, sorrisos. Alguns tímidos. Outros escancarados. Todos vaidosos. Eram mulheres vivendo, e comemorando, a feminilidade que nunca foi retirada delas. Cristina Ferreira fazia parte do grupo. No Dia Internacional da Mulher, ela pôs o vestido mais florido, pintou-se com um batom especial e exibiu orgulhosa o novo visual pelos corredores do Centro de Reeducação Feminino do Coqueiro (CRF).
“O cárcere é analogicamente um jardim de ferro e concreto. Somente as flores que nascem aqui foram regadas com lágrimas. Meu corpo está preso, mas a minha mente é livre e posso continuar a sonhar”, repetia Cristina, lendo trecho do discurso que preparou com antecedência para a data. “Estou muito feliz. Aqui dentro a gente precisa de ações como essa. Ajuda no físico, mas também cura a alma”, argumentou Cristina, que chegou a estudar Pedagogia antes de ser presa.
Como ela, outras 636 reeducandas aproveitaram a programação do Programa Cidadania Presença Viva e sentiram o gostinho da liberdade. Receberam tratamento de beleza, orientação jurídica, atendimento médico e odontológico e ainda participaram de oficinas artísticas. “Acho que não fazia uma escova no cabelo há uns quatro anos. Sou mulher e sou guerreira, pelo menos hoje mereço tratamento digno de rainha”, defendeu Maria Francisca da Silva, 55, que só fez uma exigência ao entrar no espaço da beleza: “o importante é mudar o visual”.
Nas mãos da cabeleireira, Regina Rocha, a jovem Jesiane da Silva, 19, vivia seu primeiro dia de “miss”. Grávida de sete meses de um menino, e ainda tímida com a novidade, ela optou por uma produção suave. “Ainda estou com um pouco de vergonha”.
Próximo dali, a estética era outra. Pouco a pouco, um muro branco ganhava vida. Lá, as reeducandas pintavam aquele que talvez seja o maior sonho de todas, a liberdade. E nem o sol forte atrapalhava a oficina de grafite. “Realizei meu desejo de aprender grafite. Sei pintar em tela, mas assim no muro é a primeira vez”, disse Jacinta Souza, 36, sem parar de colorir uma árvore que devagar começava a aparecer na parede.
Para o superintendente do Sistema Penitenciário do Estado (Susipe), o tenente coronel André Luiz Cunha, as ações representaram um marco para a instituição. “Outras ações dessa natureza já foram feitas, mas não com essa magnitude”, destaca.
A ação de três dias resultou da integração organizada pelo programa ProPaz com oito instituições. Apenas nos dois primeiros dias, foram registrados 1.601 atendimentos. (Diário do Pará)
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