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Barulho, a trilha musical do belenense

A música toca em alta intensidade no som, o ônibus acelera, os carros freiam, o ciclista assobia, o salto do sapato da pedestre bate no chão, os homens conversam, as mulheres riem, as chaves balançam no cós da calça, as buzinas pedem passagem, o facão da

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A música toca em alta intensidade no som, o ônibus acelera, os carros freiam, o ciclista assobia, o salto do sapato da pedestre bate no chão, os homens conversam, as mulheres riem, as chaves balançam no cós da calça, as buzinas pedem passagem, o facão da feirante corta a castanha, o motor do moedor extrai o caldo da cana.

Em cada uma das ruas mais movimentadas de Belém, os diversos sons se misturam. Unidos, se intensificam, se multiplicam, incomodam, viram rotina não só para quem trabalha ou vive nos locais de maior intensidade, mas também, para quem precisa passar por lá.

Aposentada, Creuza Pimenta tem a avenida Tamandaré como passagem certa. Quando precisa sair do silêncio costumeiro da vizinhança onde mora para ir ao centro da cidade, é na altura da avenida que abriga um shopping e diversas lojas que ela precisa esperar o ônibus. O centro do movimento que não pode apenas ser visto, mas também ouvido. “Aqui passa muito ônibus. Eles fazem muito barulho”, atribui. “Se eu tenho que ficar muito tempo aqui na parada, eu saio estressada. Esse barulho o tempo todo incomoda”.

Quase sempre, o barulho que mais incomoda a aposentada nos ônibus vem das freadas. A cada aproximação do local indicado para pegar os passageiros, freios, motores e arrancadas demarcam a presença dos veículos pelo som, ruído intensificado nos horários de pico. Às 11h, as três pistas da avenida já estão tomadas pelos transportes públicos que, entre uma parada e outra - e unidos à emissão de outras fontes –, elevam a emissão de decibéis na avenida para 84. “No final do dia, a gente sai daqui com dor de cabeça, querendo um lugar sem nenhum barulho”, afirma Emiliano Nascimento, taxista que trabalha no ponto mais próximo à parada.

A rotina comandada pelos ruídos intensos do local de trabalho é recente. Há sete meses, Emiliano tinha como cenário uma rua do distrito de Icoaraci. Lá, segundo ele, o barulho não era tanto. “Logo que eu vim para cá eu senti muito porque onde eu trabalhava não era assim. Aqui a gente tenta buscar um lugar de silêncio, mas não consegue porque fica um bom tempo parado aqui onde tem o barulho”.

SEM PARAR

Já o autônomo Laércio da Silva não trabalha parado. Durante as aproximadas oito horas de serviço diário, ele transita, passeia, percorre. O cenário muda por algumas vezes, mas é sempre o das fervilhantes ruas do centro comercial de Belém. Laércio não para, mas o barulho o acompanha. “Isso aqui é por causa da necessidade. Já fui cozinheiro, motorista, mas agora, por necessidade, tive que ficar na propaganda alternativa”.

Próximo da caixa de som que grita incansavelmente as principais promoções do dia, o autônomo ganha a vida, mas perde em saúde. “Eu sei que prejudica. Até para eu assistir a uma televisão em casa tem que ser alto, senão não consigo ouvir”.

Os problemas causados pela exposição constante aos 84 decibéis emitidos por sua caixa de som não precisariam nem ser explicados. Após cada pergunta, a primeira resposta obtida já é o exemplo das consequências da poluição sonora encontrada hoje nas ruas da capital paraense. “Oi? Você pode repetir, que não ouvi?”.

Para ouvir os pedidos dos clientes, o feirante Carlos Alberto também precisa exercer algum esforço. Dono de apenas uma das barracas da feira livre que é considerada a maior da América Latina, o Ver-o-Peso, ele é exposto aos 87 decibéis do motor que extrai o caldo da cana todos os dias. “Eu já me acostumei com esse barulho. No início, tinha dor de cabeça, mas agora já não sinto mais”.

O que ele também parece não sentir são as consequências da exposição extrema. Exposta ao mesmo barulho há aproximadamente dois anos, sua audição já não se incomoda como antes. Não é mais a mesma. “Se o cliente não gritar pra fazer o pedido, não tem como escutar”.

Quem também não vê grandes problemas no costume é o caminhoneiro aposentado Esteves de Souza. Desconhecendo os perigos do barulho intenso às células do ouvido humano, ele chega a elogiar os ruídos provocados pela intensa circulação de carros e pessoas na Boulevard Castilhos França.

“Cidade sem barulho não é cidade. As feiras têm que fazer zoada mesmo”, acredita. “Esse barulho não prejudica em nada. Não tem risco, não”.

“Tem que mudar a dinâmica do trânsito, limitar a circulação de veículos pesados em certas vias”, afirma a chefe de fiscalização da Semma, Ivanelma Gomes. “Só esse caminhão agora deu 94 decibéis”.

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