O trânsito lento da avenida Assis de Vasconcelos até o Boulevard Castilhos França, na tarde de ontem, já era indício da confusão mais à frente. Uma operação da Secretaria Municipal de Economia (Secon), em parceria com a Guarda Municipal, Companhia de Transportes de Belém (CTBel) e Polícia Militar, incluindo o Batalhão de Operações Especiais, fez a retirada de ambulantes que ficavam nas calçadas ao longo do Complexo do Ver-o-Peso. Caminhões recolhiam carrinhos, barracas, isopores e produtos que seriam vendidos enquanto vários ambulantes revoltados discutiam com os agentes municipais. Por conta da ação, o trânsito foi desviado pela Presidente Vargas, antes do acesso ao Ver-o-Peso.
“Além de interferir no trânsito de pedestres, essas barracas estão irregulares. Isso é crime contra a ordem pública. Nós já fizemos uma campanha de conscientização, mas os ambulantes sempre voltam”, reclama o chefe de operações da Secon, Ércio Costa, que afirma que os ambulantes foram notificados.
Mas os trabalhadores negam que tenham recebido qualquer aviso e estavam indignados com a ação dos agentes. “Eles chegaram metendo o pé! Levaram todos os meus bombons”, afirma Rui Francisco Lira Paes, 46 anos, que afirma trabalhar há 14 anos no Ver-o-Peso.
“A prefeitura não toma conta de nada. À noite tem assalto, droga, tem tudo aqui! A gente sabe que está irregular, mas nós estamos trabalhando. De onde vamos tirar nosso sustento agora?”, desabafa o ambulante Jorge Vilhena, 42 anos.
Segundo os ambulantes, é comum agentes municipais passarem por ali e pegarem propina dos vendedores. “A maioria daqui paga para esses caras. Eles chegam e a gente tem que dar o que tiver”, denuncia um ambulante que não quis se identificar. “Tá tudo errado. Todo mundo sabe que eles pegam dinheiro da gente. Como é que vamos sustentar nossas famílias agora? É mais ladrão, mais gente morrendo...”, afirma um outro ambulante.
Sobre as denúncias do ambulante, o chefe de operações da Secon limitou-se a dizer que os agentes que ele comanda não estão envolvidos nesse esquema.
PROTESTO
Os comerciantes devem realizar um protesto, hoje pela manhã, contra a ação da Secon em relação aos ambulantes. Eles sairão do Ver-o-Peso em direção à sede da Prefeitura Municipal. Os ambulantes exigem ressarcimento e a devolução dos objetos apreendidos. Segundo a Secon, uma parte do material apreendido ficará na sede da secretaria e o restante, na Ordem Pública. De acordo com o órgão, o material não será destruído e poderá ser retirado pelos ambulantes.
Aos poucos, eles voltam ao comércio
De capas de celular a bijuterias. Sem esquecer a tradicional “sombrinha” e o famoso “completo” (a combinação de um copo de suco e um salgado). Tudo pode ser encontrado ao longo da Avenida Presidente Vargas em bancas improvisadas que dividem espaços com os pedestres.
São ambulantes que, contrariando a determinação da Prefeitura de Belém, insistem em fazer seu comércio na área.“A gente fica aqui porque precisa. Não estamos fazendo nada de errado só queremos trabalhar a Prefeitura precisa entender. Aqui tem o maior movimento de pessoas é onde as vendas acontecem”, justifica Renato Silva sem tirar os olhos de uma espécie de grade metálica onde ficam expostos óculos de sol. É o medo de perder a mercadoria. “Vocês não vão me tirar daqui não, né?”, preocupa-se o homem misturando-se a outros vendedores com os quais compartilham as mesmas preocupações. “A gente tem que ficar atento com a fiscalização”, admite Eugênia Lopes que mantém um “tabuleiro” de bijuterias.
Mas em alguns casos, nem é necessário montar estruturas especiais ou barracas. Os braços são os únicos suportes necessários. “Olha a sombrinha. Tem de 10 e tem de 5”, anuncia animado um vendedor que preferiu não ser identificado. A felicidade tem motivo, em dias de chuva como o de ontem, é possível faturar o dobro do comum. “Já deu para vender bastante. A chuva foi abençoada”, conta o ambulante que para driblar a fiscalização adotou como estratégia não ficar parado. “Não dá pra ter ponto fixo, tem que ficar se movimentando”, afirma.
No mesmo ponto há 28 anos, Walter Araújo mantém a venda de comidas típicas na esquina da rua Aristides Lobo. A diferença é que, desde a última semana, ele vê sob sua barraca uma sinalização feita pela CTBel reservando a área para vagas de táxi. “Eles pintaram agora. Já conversei com os taxistas que terão que vir para cá para eu continuar aqui. Por eles não tem problema”, informou o ambulante reclamando da ação da Secretaria Municipal de Economia (Secon). “Durante 26 anos paguei os impostos, mas há dois anos eles resolveram não receber mais alegando que estou irregular. Então por que razão não estive durante os outros 26 anos? Sempre vendi comidas regionais”, questiona Walter preocupado com o futuro. “Já estive na Secon diversas vezes. Se precisar eu posso me adaptar, só preciso me manter aqui, minha barraca já é tradição”, alega.
Secon afirma que apreende mercadorias diariamente
A Secretaria Municipal de Economia (Secon) enviou uma nota ao DIÁRIO na qual esclarece que realiza fiscalização e apreensão de mercadorias diariamente na avenida Presidente Vargas. No caso específico do vendedor Walter Araújo, a Secon informou que desde 2010 a Vigilância Sanitária proibiu a comercialização de alimentos em via pública e que por esse motivo a situação do trabalhador não pode ser regularizada.
O coordenador de trânsito da Companhia de Transportes do Município de Belém (CTBel), Isaias Reis, informou que as vagas reservadas a taxistas na rua Aristides Lobo serão efetivamente ocupadas em breve e que o ambulante será retirado do local. “Já sinalizamos o chão, mas ainda falta a fixação da placa como regulamenta a lei. Ainda esta semana os taxistas serão remanejados e se o vendedor não sair por conta própria a Secon será chamada”, explicou Reis. (Diário do Pará)
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