O vigilante José Dias, 65, mais conhecido como “Santico”, passa horas desejando que a água volte a cair das torneiras da própria casa. E quando ela finalmente chega, muitas vezes o desejo dele é que “caísse mais água do que cloro”, como ele mesmo diz. Seu Santico é morador do bairro de Algodoal, do município de Abaetetuba, distante 100 quilômetros de Belém.
Lá, não bastassem problemas comuns da capital, como falta d’água e má qualidade do produto que jorra das torneiras, a população ainda convive com tratamento de água à distância. Não foram poucas as vezes que o vigilante teve que gastar o modesto salário com remédios dermatológicos para ele e para os filhos, além de ter que pagar a conta da água que seria a causa das doenças. “Colocam tanto cloro nessa água que quando a gente sai do banho, é com o olho ardendo e a pele toda coçando”, se queixa.
Situação semelhante vive a família dos comerciantes Raimundo da Silva, 55 anos, e Joana Silva, 54 anos. No ‘chagão’ da casa deles há uma torneira quase à altura do chão, que serve para captar a escassa água que costuma pingar nos momentos em que o bairro fica desabastecido. No quarto da filha mais velha, que trabalha como atendente, há um filtro semi-industrial. O filtro é utilizado para que ela possa tomar banho e ir trabalhar sem cabelos duros demais que prejudiquem sua imagem de vendedora.
FALTA DE QUÍMICOS
Na Estação de Tratamento (ETA) da Cosanpa de Abaeté, que funciona há 20 anos, existem atualmente 10 operadores. Nenhum deles é químico por formação. Sendo assim, as 20 pastilhas de cloro, com 200 gramas cada, colocadas religiosamente de duas em duas horas, segundo o diretor da Cosanpa/Abaetetuba José Ferreira de Carvalho, 58, foram orientadas pelo próprio químico da companhia, mas por telefone, de Belém. “O ideal era ter um químico em todas as estações de tratamento, mas não é essa a nossa realidade. Muitos interiores ficam descobertos na área química. A gente [químicos de Belém] eventualmente faz uma visita nos interiores algumas vezes durante o ano”, relatou o químico da Cosanpa em Belém, José Carlos, 54 anos.
Para a maior parte da cidade, as pastilhas de cloro são colocadas como parte de um processo de tratamento. Mas no caso do bairro de Algodoal, a água vai diretamente do poço presente no próprio bairro para as casas. Então, 20 pastilhas são colocadas de uma vez a cada duas horas.
“A vida é dura pra quem é mole”, sentencia o carpinteiro Manoel do Carmo, 43 anos, habitante da comunidade Chicolândia. Ele diz isso enquanto bebe a água que todos os dias a mulher, Maria José, 35 anos, literalmente sua para conseguir numa torneira sob duas caixas d’água abastecidas graças a uma bomba comunitária, que busca nas profundezas do solo a salvação da sede e do cozimento de alimentos de cerca de 500 famílias da ocupação.
“As duas caixas d’água comunitárias, com capacidade para 10 mil litros cada, ainda distribuem água diretamente nas torneiras de cerca de 250 famílias, graças à minha articulação”, diz o pastor Luiz Alberto, 32 anos, da igreja pentecostal Amor de Deus. No início era cobrada uma taxa de R$ 5 por pessoa, mas, atualmente ninguém paga pelo serviço. “Quando a máquina quebra a gente faz uma coleta com o pessoal e ajeita”, explicou o pastor.
ÁGUA ENCANADA
Maria José pega água na bica, há cerca de 500 metros de sua casa, ao menos seis vezes por dia. No quintal dela e da vizinha, a xará Maria José, 33 anos, que é casada com o ajudante de pedreiro Benedito de Souza, 30 anos, há uma caixa d’água com capacidade para 500 litros. A caixa é abastecida com água do riacho no fundo do quintal delas. Água utilizada somente para lavar louça, dar descarga e tomar banho, pois é bastante insalubre para consumo.
São cerca de 150 metros do riacho até a caixa sobre uma ponte improvisada e perigosa. Por isso, para prevenir acidentes e melhorar o abastecimento, uma engenhoca hidráulica foi criada graças à sabedoria popular. O funcionamento consiste em uma espécie de balde/funil que recebe as águas do riacho puxadas por outro balde atado a uma corda. A água do balde cai no funil, cujo fundo é atrelado a uma encanação que leva a água diretamente à caixa, numa experiência solidária que, apesar de garantir a higiene da família, não é motivo de comemoração. “Eu espero um dia poder abrir a torneira e ver a água cair”, desejam as Marias José.
A Cosanpa garante que até setembro deste ano todas as casas de Abaetetuba terão água encanada, quando o novo reservatório for inaugurado e aumentar a capacidade de armazenamento de 240 m³ para 2.540 m³. (Diário do Pará)
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