Filho de pescadores, Doutor, como é mais conhecido Orimar Ramos, 44, carrega nas veias o talento para contar uma boa “estória”. E isso o faz famoso. Seja em Panacuera Açu, localidade do município de Abaetetuba, onde mora. Seja em Belém, na Pedra do Ver o Peso, onde o barco em que trabalha atraca. Todos conhecem o “Doutor das Potocas”.
“Eu vou confessar. Sou péssimo. Meio sem vergonha mesmo. Gosto de contar potoca para os outros”, revela dando risada o pescador que em 25 anos de profissão guarda na ponta da língua uma seleção de 124 boas conversas de pescador. “São só as melhores. Tudo conversa verdadeira”, garante Doutor dando uma piscadela para a pequena plateia que se formou dentro do barco para ouvir seus “causos”.
Doutor conta que desde menino acompanhava o pai nas pescarias e que durante as longas viagens prestava atenção nas “estórias” que se contava no barco. Observador, foi guardando na memória tudo que era contado até decidir se especializar, há cerca de 12 anos. “Eu sou igual papagaio. Fico na roda da conversa só ouvindo. Depois que saem. Eu me dano a repetir”, adverte Orimar que não discorda de quem diz que pescador gosta de inventar. “Pra ser sincero, pescador aumenta mesmo. Acho que é porque a gente passa muito tempo viajando. A noite, sem sono, o jeito é jogar conversa fora. Chega a ter vez que a gente passa a noite inteira conversando porque potoca é assim, uma puxa outra”, afirma o pescador que não perde a oportunidade de contar uma das estórias que ele jura ser verdadeira.
“Diz a história que o cara veio pra Belém receber um dinheiro. Na volta para Igarapé Miri, ele resolveu pescar. Iscou o anzol e esperou. Quando ele percebeu, um peixe ferrou a linha dele. Ele foi pra cima, foi pra baixo, ficou naquela luta com o peixe, mas não teve jeito. O bichão só largou quando chegou na cidade. Acredita que era uma pescada perdida que quando chegou em Igarapé Miri, largou o anzol, deu um salto e disse obrigado pela carona. É sério. Aconteceu mesmo com o ‘caboco’ ”.
O bar dos mentirosos
É no bar que muitas vezes se ouve as histórias mais mirabolantes da vida, e até da morte. Na maioria das vezes acompanhado, o cidadão senta, pede uma cervejinha e dá início a prosa, que pode até começar tímida, mas termina sempre em conversa fiada. No “Nosso Recanto”, bar em frente a praça do Carmo, é assim, garante o dono, Salomão Soares Casseb, 60, que ouve “lorota” de quarta a domingo, dias em que o local é aberto. “Os mentirosos vem todos pra cá. Só os que não mentem é que vão para os outros”, brinca o proprietário apontando para os demais bares que circundam a praça.
O estabelecimento, inaugurado em 1976, atrai tanto “potoqueiro”, diz Salomão, que há cerca de 17 anos ele pendurou na parede uma placa de advertência. “Minha irmã foi para Goiânia e quando voltou trouxe uma plaquinha pequena. ‘Aqui se reúnem pescadores, caçadores e outros mentirosos´, fez tanto sucesso que agora é pintado na parede. Quando começam a mentir demais eu aponto logo”, diverte-se.
A descontração ganhou tanta fama que hoje diversas “mentiras” estampam as paredes do lugar. Em uma delas vê-se a figura de um senhor carregando uma ossada para dentro do bar. É o próprio Salomão. “Fizeram uma brincadeira, porque quando vieram escavar a praça [do Carmo], apareceu um osso enorme. Como os escavadores vinham tomar sopa aqui [no bar], eu perguntei se eles não me arranjavam uma canelona para engrossar o caldo”, explica Salomão com um sorriso tímido ao apontar para o desenho. Mas mentira das grandes, diz ele, está em outra pintura.
“O pessoal conta que um homem bebeu tanto.... bebeu tanto que ficou caindo de bêbado. Saiu andando para o lado do Comércio. Não aguentou. Acabou dormindo dentro de um dos canhões do Forte do Castelo. Pois não é que o canhão disparou e ele foi parar lá dentro da casa dele. É muita estória, tanto que acabou na parede!”
“Cantador” de mentiras faz sucesso há duas décadas
Comprar camarão na banca de “Piolhinho”, nome artístico de José Pereira e Silva, 59, é mais que garantir um bom almoço. É diversão na certa. O maranhense que chegou a Belém em 1980 trabalha no Ver o Peso há 20 anos. E lá faz sucesso. Não só pelas vendas, mas especialmente pelas músicas. Piolhinho é compositor. Não só. Ele canta mentira. “Faço versos de música que são só mentira. Tem uma agora que vai sair no próximo CD que é especial. Um emaranhado de mentira”, confessa o artista.
Com apenas um trabalho lançado, “Piolhinho em ritmo de Arrocha”, mas com outros dois “engatilhados”, o compositor garante que ganhou o mundo. “Meus CDs estão espalhados. A cidade que mais vende é São Paulo, mas tem em Manaus, Rio de Janeiro, Japão, Itália, Alemanha...” enumera com ar sério e seguro.
Piolhinho conta que a inspiração para compor o acompanha desde os 12 anos, quando passou a escrever sobre os mais diferentes assuntos, verdadeiros ou não. “Não tenho dificuldade para escrever. De qualquer coisa eu invento. A música mais mentirosa tá aqui na cabeça. No primeiro verso veio a mentira aí só continuei”, admite cantarolando.
“Joguei a pata na água
Joguei o galo pra cima
O galo pegou a pata
Pensando que era galinha
Vou me embora, vou me embora
Segunda feira ou sexta
O cavalo da viagem da viagem
Está na barriga da besta
Vou contar uma piada
Pra você que está presente
O pires falou pra xícara
Ô nega do fundo quente”
(Diário do Pará)
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