Metade dos casos de Tuberculose da Região Norte está no Pará. E o estado ocupa o terceiro lugar no ranking nacional com maiores índices de novos casos da doença, segundo o Ministério da Saúde. Apesar do anúncio do Ministério de que os casos diminuíram, o panorama da doença local ainda é preocupante.
Em 2011, foram 3.637 novos casos da doença e 79 mortes apenas no nosso território. Para se ter uma ideia, em todos os estados da Região, houve 7.282 casos. Se compararmos a proporção por habitante, o Pará ocupa a terceira colocação entre aqueles com maiores índices de novos casos da doença.
E a situação ainda pode piorar. A partir deste mês os recursos do Fundo Global Internacional – parceria público-privada dedicada a captar e desembolsar recursos adicionais para a prevenção e tratamento do HIV/AIDS, tuberculose e malária - não serão mais liberados para o Brasil, incluindo Belém e Ananindeua. O prazo da parceria é de cinco anos e foi iniciada em 2007. Naquele ano, a fundação aceitou o pedido de ajuda do Brasil e colocou o país em sua lista de auxílio financeiro em ações de combate da doença. Os doentes recebem cestas básicas e auxílio transporte para fazer o tratamento.
E o abandono do tratamento é o principal problema para quem sofre desse mal. Algumas estratégias foram criadas visando diminuí-lo, e uma delas é o tratamento observado, um método onde o remédio é tomado no posto de saúde, diante do profissional responsável. Neste tipo de tratamento, os pacientes que moram longe do posto de saúde recebem um cartão de vale-transporte. O paciente chega até o posto de saúde, devolve o cartão utilizado e recebe outro para voltar pra casa e vir ao posto na próxima consulta. A maioria dos pacientes é pobre e mora nas periferias das cidades. Este auxílio-transporte funciona desta maneira para garantir que o passe seja utilizado apenas para o tratamento. Os pacientes mais carentes ainda recebem uma cesta básica mensal no valor de R$ 45,00, que é o recurso custeado pelo Fundo Global. Segundo a Secretaria de Saúde de Belém (Sesma), vários projetos estão sendo criados para que as estratégias de auxílio aos pacientes em tratamento de tuberculose continuem mesmo sem a ajuda externa.
Antonio Ernandes de Barros, coordenador do comitê que gerencia a aplicação dos recursos do Fundo no estado, avalia de forma positiva os anos de auxílio e investimento. Segundo ele, o aporte de recursos em equipamentos e a capacitação dos profissionais, e principalmente no social, foram significantes. “A tuberculose é uma doença que não depende só da área médica para ser controlada, não adianta só oferecer remédio, tem que trabalhar a parte social com os pacientes, pois a tuberculose é uma doença muito ligada à pobreza e ao alcoolismo”. Ernandes afirmou ainda que o governo firmou compromisso de continuar investindo no trabalho social em todo o país. O coordenador comemora os bons resultados, segundo ele Ananindeua teve melhor resultados que Belém na diminuição de abandono e índices de cura.
PROBLEMA
Carlene Castro, diretora da referência técnica em Tuberculose da Sesma, confirma que o Fundo Global injetou recursos ainda para que o município possa investir na qualificação dos profissionais que atuam nos postos de saúde e em ações de incentivo a continuidade do tratamento. Para ela, o abandono do tratamento é um grande problema.
“No abandono a doença se fortalece. Em alguns casos, o bacilo adquire resistência aos medicamentos, se tornando a Tuberculose multirresistente. Se o paciente não voltar logo ele pode ficar muito fraco e morrer”, alerta.
Para Carlene, passar seis meses ou um ano tomando quatro comprimidos é uma tarefa que exige disciplina com os horários do tratamento, o que faz com que aos primeiros sinais de melhora, muitos pacientes acabem abandonando o tratamento. Outro problema são as reações adversas causadas pelos remédios usados para a cura.
Belém registra mais de 1,2 mil novos casos por ano
Quando Hugo Cassiano Nunes Amorim, 27 anos, deu entrada no Pronto Socorro do Guamá expelindo grandes quantidades de sangue pela boca, não imaginou que estava com tuberculose. Foram três dias internados, sem que os médicos que o atendiam chegassem a um diagnóstico. Ele enfrentou ainda uma transferência precipitada para outro hospital, que o mandou de volta ao PSM, admitindo não ter condições de cuidar de um paciente com aqueles sintomas. Como não foi transportado de volta na ambulância, o paciente teve que voltar com sua acompanhante de ônibus para a unidade de urgência. E pior, na chuva.
Foram mais dois dias de internação até ser transferido para o Hospital Universitário João de Barros Barreto, onde ficou quinze dias internado. Nestes dias, aconteceram as piores crises, mas também o diagnóstico e o início do tratamento. “Pensei que iria morrer sem saber o que eu tinha. Pedia a Deus que alguém descobrisse o que eu tinha logo”, conta Hugo.
O caso dele não é isolado. Segundo a Sesma, por ano cerca de 1.200 novos casos de tuberculose são registrados só na capital. O programa de controle, afirma a Sesma, envolve todos os profissionais que atuam nas Unidades de Saúde e nos Postos de Saúde da Família. A secretaria afirma que periodicamente, são feitas ações de capacitação dos profissionais que vão atuar com os pacientes. Médicos, enfermeiros, assistentes sociais e agentes de saúde, recebem, afirma Carlene, orientações e mini cursos que visam aumentar a eficiência do programa.
TESTE
Hoje, a baciloscopia - conhecido como teste do escarro - e a cultura são realizados nos laboratórios do município graças a cursos de capacitação que visam melhor diagnóstico da doença (que também foi custeado pelo Fundo Global). Estes exames são importantes para o diagnostico da tuberculose. Caso o teste dê positivo, outro exame é feito para saber se o paciente é portador também do Vírus HIV.“Este teste é importante, pois a tuberculose é uma doença oportunista, ela necessita que o sistema imunológico esteja debilitado para atuar”.
Apesar das melhoras propaladas, as queixas ainda são inevitáveis. Segundo Hugo Cassiano, o pior problema é a demora na marcação de consultas especializadas. Ele conta que durante o tratamento sentiu algumas complicações e foi encaminhado para o clínico geral da unidade, porém o médico disse que o posto não tinha condições de fazer exames mais detalhados para o problema dele. “O médico me disse que tudo que poderia fazer era me dar um encaminhamento para um pneumologista. Toda semana ela me dava uma desculpa diferente, até que dois meses passaram sem a avaliação” afirma o paciente.
Na Unidade de saúde da Condor quem acompanha o paciente no tratamento é a enfermeira Danielle Monteiro. Ela conta que quando o posto não consegue resolver um caso a vítima da doençasegue para a unidade de referência que funciona no Hospital Barros Barreto. A enfermeira diz que a principal queixa dos pacientes é conseguir atendimento especializado quando apresentam algum problema durante o tratamento. Ela diz que houve um aumento nos casos este ano. Em 2010, 30 pessoas fizeram o tratamento no posto da Condor. Este ano até outubro já somam 50 pacientes.
Para a Secretaria de Estado de Saúde (Sespa) os números do Ministério da Saúde demonstram a busca cada vez maior das pessoas pelo tratamento. “Quando se descobre os casos é melhor, é mais fácil para controlar a doença, isso quer dizer que estamos tendo resultado com as campanhas”, afirma Lúcia Monteiro, coordenadora estadual do Programa de Combate à Tuberculose.
Ela diz ainda que detectar os casos e iniciar o tratamento é importante para que o paciente não contamine outras pessoas. “Se a doença não estivesse sendo diagnosticada, isso sim seria um problema”, completa.(Diário do Pará)
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