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Malhação de Judas correu solta na Cremação

Ontem pela manhã, Arlindo Rocha, 63 anos, aposentado, admirava a brincadeira no palco enquanto segurava o neto Pedrinho, de 3 anos, na garupa da bicicleta. Daqui a alguns anos, Pedrinho vai ter idade suficiente para brincar com as outras crianças na tradi

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Ontem pela manhã, Arlindo Rocha, 63 anos, aposentado, admirava a brincadeira no palco enquanto segurava o neto Pedrinho, de 3 anos, na garupa da bicicleta. Daqui a alguns anos, Pedrinho vai ter idade suficiente para brincar com as outras crianças na tradicional malhação de Judas, que ocorre no bairro da Cremação, em Belém. “Eu moro aqui há 40 anos e lembro que a festa era ainda maior. Eu tenho muito medo que isso acabe, já tem tanta coisa acabando...”, diz emocionado seu Arlindo.

A festa no bairro da Cremação existe há 63 anos. Ela é organizada e produzida pelos próprios moradores, que se dividem em associações. Este ano, a malhação foi um pouco menos alegre porque a mãe do tesoureiro da Quincas, a primeira associação responsável pela organização da festa no bairro, faleceu. A mãe de Edilson Santos, coordenador de uma da Ajoc (Associação de Judas da Cremação) também faleceu recentemente. “A gente decidiu fazer a festa mesma assim porque a gente tem o compromisso de preservar a tradição”, afirma Edilson Santos.

A crítica social é um dos principais elementos da festa. Nos bonecos representados por Judas, a crítica ao descaso à saúde, educação, segurança e ao trabalho dos políticos. A Ajoc, este ano, resolveu homenagear o humorista Chico Anysio, falecido no último dia 23. “Nós achamos que o humor irônico e crítico do Chico têm muito a ver com o espírito da malhação”, afirma Edilson Santos. Um dos personagens, batizado de “Pantaleão”, podia se ler: “BRT: Vai de Icoaraci ao Ver-o-Peso e interliga com a macrodrenagem da Estrada Nova”, logo abaixo, “Pantaleão” questionava se o tamanho da obra seria o mesmo que de uma possível mentira. Apesar da “cutucada”, justiça seja feita, um dos apoiadores da festa era a prefeitura de Belém.

Contando com o velório de Judas, que acorreu na última sexta-feira e teve apresentação musical de grupos regionais, a malhação reuniu mais de 5.000 pessoas. Os protagonistas da festa foram as crianças. Nos colos, nos carrinhos de bebê, passeando em bandos ao longo da rua Fernando Guilhon, a meninada na rua enfeitada dava a cidade ares de interior. Serão elas, mais tarde, que darão continuidade à festa popular que luta para sobreviver contra o crescimento urbano de Belém. Agentes da CTBel, da guarda municipal e polícia militar protegiam a comemoração do trânsito e da violência, problemas comuns numa metrópole que se expande meio sem rumo.

BRINCADEIRAS

Corrida de ovo, brincadeiras envolvendo dança, quebra-pote... As opções eram muitas para as crianças atrás de diversão. Adrian, 10 anos, foi um dos que melhores tremeu na “Dança do Treme” e ganhou uma caixa de chocolates e uma passagem só de ida para o Iraque. O pequeno João Vitor, de 4 anos, não conseguiu quebrar o pote cheio de bombons.

Decepcionado, o garoto foi procurar o pai, Fabrício Pantoja de Souza, 27 anos. “Essa festa é uma forma da gente se expressar. Eu quero passar a tradição... fico até sem palavras”, fala Fabrício enquanto relembra as fotos de mais de 20 anos, em que ele estava no lugar do filho, e sua única preocupação era conseguir alguns doces.

Quando o primeiro boneco é lançado do alto do prédio, a meninada já está aglomerada pronta para destruir o Judas feito de papel, palha de miriti e garrafas pet. Silvia da Silva, 30 anos, funcionária pública, preocupada, afasta uma criança pequena do tumulto. “Eu acho um pouco perigoso, mas é tradição, né? Acabando isso, acaba tudo”. (Diário do Pará)

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