Domingo de Páscoa. Após uma semana em que se recomenda reflexão e reafirmação do compromisso com a fé cristã, é chegada a hora de comemorar a ressurreição de Jesus Cristo. Em muitos lares, a data é lembrada com mesa farta e muito chocolate. Há também quem opte por aproveitar o “feriadão” no interior do Estado. Mas afinal, qual o real sentido da Páscoa?
A seguir, o cientista da religião e professor da Universidade Estadual do Pará (Uepa), Giovanni Tuveri, italiano que vive no Brasil há 34 anos, fala ao DIÁRIO sobre a origem, os símbolos e o real significado da festa. Para ele, mais que jejuar é importante praticar a caridade.
P: De inicio é importante entender a origem dessa importante festa. A partir de que momento se começa a celebrar a Páscoa?
R: A Páscoa, na verdade, é uma festa que remonta o período pré-histórico. Primeiro veio a Festa da Primavera, depois a Páscoa Hebraica e chegou a Páscoa Cristã. A gente pode dizer que quem inventou a festa foram os pastores, quando o homem ainda era nômade. No inverno, as plantas perdem as folhas, parecem estar todas mortas, os pastos ressecam e, quando chega a primavera, as plantas começam a brotar, por isso se festejava em agradecimento aos Deuses. Já entre os hebreus, a comemoração faz alusão à libertação do Egito, onde eram mantidos escravos. E para os cristãos, representa a ressurreição de Jesus Cristo. Notem, no entanto, que o significado, incluindo-se aí a maioria dos símbolos, permanece o mesmo em todas elas. A passagem da morte para a vida.
P: Um dos grandes símbolos difundidos na mídia durante a festa pascal moderna é o coelho. Quando o senhor fala que a maioria dos símbolos tem origem na Festa da Primavera inclui-se também esse elemento?
R: Não. Nessa época temos essencialmente a presença de carneiros e cabras. Mas, sem dúvida, religiosamente, o símbolo maior da páscoa, cristã ou hebraica, é o cordeiro que vem da cultura pastoril. Na Amazônia, por falta do animal, não temos o costume de consumir o cordeiro, mas ele faz parte da festa. O coelho foi incorporado depois, ele representa a abundância da fertilidade característica da primavera, quando a Mãe Terra volta à vida depois da hibernação invernal. Muitos animais nascem no inverno, que também concentra o período do cruzamento, ou seja, é um período que remete a fertilidade. O coelho faz parte da festa nesse sentido, ele chega a produzir 12 filhotes por ninhada, até quatro vezes por ano.
P: E a partir de que momento o peixe, hoje tão tradicional, é incorporado à Semana Santa?
R: Entre os cristãos, o uso do peixe nesse período tem origem na Idade Média. Naquela época se fazia muito uso de carne, que ao mesmo tempo era um luxo para a maioria. Então, como um sentido de privação, de sofrimento, fez-se (a igreja) a opção de substituir a carne pelo peixe.
P: Mas entre os cristãos protestantes não há restrição em relação ao consumo da carne vermelha...
R: Isso me parece uma revanche com a Igreja Católica, uma forma de diferenciação, separação. De qualquer forma, no entanto, não é o consumo da carne vermelha ou do peixe que faz a diferença. Hoje, mesmo entre os católicos o consumo de carne é tolerado, quando não há condições financeiras de adquirir o produto (peixe), nesse caso, a orientação é de que se seja apenas comedido.
P: O ovo é outro símbolo marcante da Páscoa. Qual a ligação dele com a festa?
R: O ovo é, aparentemente, um elemento inanimado, mas na realidade é uma célula que no futuro pode se transformar em uma vida. Junto com o cordeiro, o ovo é símbolo da Páscoa desde o início. É passagem da morte para vida. Obviamente, estou falando do ovo de verdade. O ovo de chocolate é um produto do consumismo, sem ligação direta com a Páscoa.
P: Hoje o mercado em volta da Páscoa é muito forte. São várias as opções oferecidas pelo comércio que acabam sendo incorporadas pelos consumidores. Esse é um comportamento pós-capitalismo?
R: Na verdade, o comércio sempre existiu. Na festa primaveril era feito o escambo, ou seja, o comércio era limitado à troca. Nesse período ainda não existia preocupação com o lucro. Na Páscoa hebraica, apesar de existir no templo um comércio, ele não acontecia na festa da Páscoa propriamente dita, o comércio era voltado para o sacrifício. Eu diria que a exploração comercial da data dá-se sim a partir da implantação do capitalismo. Daí vem os ovos de chocolates, frutos tipicamente da modernidade.
P: E a penitência e a clausura, também pregados como importantes nesse período de reflexão, são elementos estimulados pela Igreja Católica como se tem a impressão?
R: A penitência, o sofrimento, o castigo não é típico apenas da Igreja Católica, é característica de quase todas as religiões. O sentimento de punição, de autoflagelação e até autocrucificação, como nas Filipinas, não são exclusivos do catolicismo. A maioria das religiões apresenta essa característica de induzir a pessoa ao sofrimento em virtude de alcançar a libertação, a salvação. Eu diria que isso vem da filosofia grega, onde temos “o corpo é a prisão da alma”, todos os desejos da matéria precisam ser eliminados para que a alma possa se libertar. Isso a gente encontra em todas as religiões.
P: As duas grandes festas do calendário cristão envolvem a Páscoa e o Natal. Existe uma hierarquia, ou seja, é possível dizer que uma festa se sobrepõe a outra?
R: Em termos cristãos a festa da Páscoa é mais importante. Poderia até haver o Natal, mas sem Páscoa não existiria o cristianismo porque a Páscoa significa “paixão, morte e ressurreição”. Sem ressurreição não seria Jesus Cristo homem e Deus ao mesmo tempo, ou seja, o cristianismo perderia sua razão. Do ponto de vista de importância para fé, a Páscoa é muito maior que o Natal. A Páscoa, no entanto, é uma festa menos familiar se comparada ao Natal. Eu gosto nesse caso de citar um provérbio italiano “Natale con i tuoi, Pasqua con chi vuoi”, que significa “Natal com os teus, a Páscoa com quem tu quiseres”, isto é, a Páscoa é mais uma festa a ser aproveitada, é uma festa de sentido religioso a qual se incorporou manifestações profanas para de aproveitar o feriado.
P: Ainda assim, o que a gente vê, em termos de comemoração, é uma importância maior dada ao Natal. O espírito natalino parece estar muito mais presente que o espírito de Páscoa...
R: O nascimento leva as pessoas a se reunirem em família, o fato em si implica na união de pelo menos três pessoas (pai, mãe e filho). O instinto materno e paterno nos leva a ficarmos mais juntos, há uma necessidade de apoio e proteção, base do espírito natalino. Também podemos dizer que o nascimento é muito mais comum às pessoas que a ressurreição, que você só aceita por fé. Não há explicação lógica, não há verdade cientifica na ressureição, você simplesmente aceita, ou não, diferente do nascimento.
P: A Semana Santa é cercada de tradições. No interior, a Sexta-feira da Paixão é, por costume, dia de visita aos padrinhos de batismo. Também é dia de reflexão, silêncio, jejum e quietude. Hoje, no entanto, muito da tradição já não é seguida como antes. Ao longo do tempo esses costumes estão se perdendo?
R: São inúmeras as tradições, mas para a religião é muito mais importante que você faça uma doação a um necessitado a passar fome, por exemplo. É claro que nem todos os padres, pastores, igrejas vão dizer isso. A maioria das religiões continua pregando o sofrimento, a clausura, o jejum, a restrição aos desejos corporais em favor do benefício espiritual, mas muitos teólogos e até igrejas já propõem a arrecadação de comida, na qual tu te privas em favor do outro. Um ato de caridade é muito mais importante que um ato de sofrimento, mesmo porque Deus é nosso Pai e como tal ele não deseja nos ver sofrendo.
P: A tendência então é que haja sempre uma adaptação desses símbolos e dessas tradições de acordo com a época?
R: Claramente. Sempre haverá uma adaptação. Embora com os símbolos seja mais difícil que com as tradições, sempre haverá ressignificações e, em alguns casos, fazendo-os até perder a validade. Isso é um produto da evolução. Pode ser positivo ou negativo. A perda de uma tradição cultural é sempre vista com negatividade, mas o surgimento de outras pode ser encarado como positivo.
P: Ao passo que vemos algumas tradições serem “esquecidas” ao longo do tempo, vimos outras manterem suas forças. É o caso da malhação de judas que só em Belém tem mais de 60 anos de história. A que se deve essa específica manutenção?
R: A malhação de Judas é muito remota na história. Pela Bíblia, embora depois tenha se arrependido, Judas traiu Jesus em troca de dinheiro e como nós temos o costume de descarregar todo o mal que a gente carrega no outro, descarregamos sobre Judas, todas as nossas raivas. O Novo Testamento condena Judas, mas tem quem veja Judas por outros pontos de vista, como tendo a intenção de selar a missão de Jesus Cristo, fazê-lo um mártir. Mas a maioria dos cristãos considera Judas um traidor e o costume acaba se mantendo por essa característica de culpar os outros, de descarregar no outro nosso as nossas angústias.
P: Para encerrar, qual é o sentido maior do dia de hoje, domingo de Páscoa?
R: Ao se falar de Páscoa é impossível se separar a ressurreição da paixão e da morte. Paixão, morte, ressurreição, essa narrativa é essencial para o cristianismo. Ela é descrita pelos quatro evangelistas. No início, para se converter as pessoas ao cristianismo não se pregava o nascimento de Jesus Cristo, e sim seu sofrimento, morte e ressurreição em seguida. A mensagem do cristianismo é essa. Sem Páscoa não há cristianismo. Esse é sentido maior.
(Diário do Pará)
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