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Duas obras fazem do trânsito de Belém o caos

A expressão “devagar quase parando” parece definir bem o atual estado de muitas avenidas da capital paraense. Pelas vias principais de Belém, em horários de pico, os motoristas precisam diariamente exercitar a paciência para chegar ao destino. Nos coletiv

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A expressão “devagar quase parando” parece definir bem o atual estado de muitas avenidas da capital paraense. Pelas vias principais de Belém, em horários de pico, os motoristas precisam diariamente exercitar a paciência para chegar ao destino. Nos coletivos, o murmurinho de passageiros reclamando de atrasos, lotações e estresses causados pela lentidão do trânsito já é quase uma constante. Graças a obras como o BRT e a construção da Estrada Nova, rotas de circulação importantes da cidade estão precisando ser alteradas, dificultando ainda mais a vida de quem depende de outros meios de transporte, além dos próprios pés, para chegar aonde quer.

Henrique Nascimento, 55, pintor, mora na passagem Tito Franco, no bairro do Souza, próximo à Avenida Almirante Barroso. Devido à mudança de sentido na passagem Ana Deusa, que passou a ser mão única para desafogar a Almirante Barroso, prejudicado por conta das obras do BRT, o fluxo intenso de carros está atrapalhando o sossego dos moradores da área. “Os carros ficam todos no meio da rua, não dá mais nem pra ficar na porta de casa”, protesta. Ontem pela manhã, a equipe do DIÁRIO flagrou um carro da CTBel escoltando um caminhão que transportava uma das 27 paradas de ônibus especiais que serão instaladas ao longo da Avenida Augusto Montenegro e Almirante Barroso. “Eles começaram a obra agora tem que continuar. Eu espero que terminem e que não seja dinheiro jogado fora”, fala Henrique.

Devido às obras do Bus Rapid Transit, outras ruas, como a Avenida Tavares Bastos, precisaram ter o sentido alterado. Além disso, o trânsito em outras vias, como as faixas centrais no túnel do Entrocamento, precisou ser interditado. “Tá difícil chegar no trabalho, o trânsito tá muito lento. Eu preciso sair de casa meia hora antes”, fala Joaquim Marinha, 42,, garçom. Joaquim mora no bairro do Mangueirão e precisa do transporte público para se deslocar até o trabalho, na Avenida Visconde de Souza Franco. Com as intervenções feitas pela CTBel, o ônibus que antes ia da Augusto Montenegro direto para Almirante Barroso agora precisa desviar pela Pedro Álvares Cabral. “Até agora eu não tô sentindo o trânsito melhorar, não. Mas eles têm que continuar a obra, agora não dá mais pra voltar a ficar como era antes”, fala Joaquim, conformado.

Os únicos meios de transporte que parecem não sofrer com o trânsito lento, em momento nenhum, são os barcos de pescadores e de transportes que cruzam as águas calmas da baia do Guajará. Na margem do rio Guamá, na macrodrenagem da Bacia da Estrada Nova, as obras da prefeitura também complicam o trânsito na Avenida Bernardo Sayão, bairro do Jurunas. Algumas transversais, como a passagem Conceição, permanecem parcialmente interditadas. “Agora tá fluindo bem, mas tem horas que ta horrível. Às vezes é carro, van, caminhão da prefeitura... todo mundo passando ao mesmo tempo”, fala Josiane da Silva, autônoma, que trabalha na Bernardo Sayão na esquina com a Mundurucus, outra área afetada pelas obras.

Para Jorge Soares, 51, que precisa enfrentar o trânsito complicado do bairro para trabalhar, a população precisa ser mais compreensiva. “Tá todo área em obra, é claro que vai ter problemas. As pessoas precisam ser mais pacientes, não adianta reclamar. Depois vai valer a pena, é o progresso chegando”, opina o taxista.

Progresso que vem à custa da desapropriação de áreas como a de seu Genésio Gomes, 70, que foi retirado do local próprio onde trabalhava há 28 anos. “Me prometeram casa e disseram que iam pagar meu aluguel enquanto eu não tivesse ela. Mas me deram só R$ 5.400, eu tô tendo que pagar um aluguel de R$ 500 e falaram pra mim que era só isso mesmo”, denuncia o morador.

Quem tem carro próprio sabe como é difícil enfrentar o trânsito ou achar uma vaga de estacionamento nas áreas da cidade. E a situação deve piorar. De acordo com dados da Unidade Central de Planejamento do Departamento de Trânsito do Estado do Pará (Detran), a frota de carros na Região Metropolitana de Belém deve crescer em, aproximadamente, 500 mil veículos até o final deste ano. Serão cerca de 350 mil veículos em circulação apenas em Belém. Para relevar os efeitos de avenidas superlotadas e do trânsito complicado com milhares de carros novos, só seguindo o exemplo do Jorge. “Eu coloco uma musiquinha pra relaxar, respiro fundo, me concentro em outra coisa... Não adianta nada reclamar, se não eu ainda morro do coração. Aí eu vou me embora e o carro e a obra ficam”, brinca o taxista.

(Diário do Pará)

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