Ao lado da política, as orquídeas são declaradamente uma das grandes paixões do médico Almir de Oliveira Gabriel. Agora, depois de muitas idas e vindas, elas receberão atenção quase exclusiva. O homem que foi senador, candidato a vice-presidente do Brasil e governador do Pará por dois mandatos está deixando a política partidária. “E agora me deixem sossegar. São 80 anos”.
O ex-governador recebeu a reportagem do DIÁRIO três dias depois de completar 80 anos em sua casa, em um condomínio fechado na Região Metropolitana de Belém. Dias antes do aniversário, fora internado ao saber da morte de um sobrinho vítima de câncer de pâncreas. “Fiquei chateadíssimo. Não é justo. Ele era 20 mais jovem que eu”.
Cercado por mais de uma dezena de belíssimas orquídeas floridas - presentes pelos 80 anos - Almir Gabriel ainda estava abatido. Caminhando devagar, reclamou da idade. “Eu diria que não há nada de bom em fazer 80 anos. Preferia ter menos idade. Mas tem, sim, o lado bom: a experiência, a capacidade de observação”.
E é como um observador atento e cheio de opiniões fortes que Almir parece querer atuar a partir de agora na política do Estado. Falante, comentou sobre as atuais lideranças do Pará. Definiu-se como um legítimo leonino “que tem mania de ser justo” ao elogiar a atual administração municipal de Belém.
MÁGOAS
Admitiu ter mágoas do atual governador do Pará, Simão Jatene de quem foi aliado e com quem está rompido desde 2009. Jatene foi indicado de Almir Gabriel para concorrer à sucessão em 2002, mas em 2006 não concorreu à reeleição. Almir Gabriel foi o candidato, acabou derrotado pela petista Ana Júlia Carepa e acusa o atual governador de ter feito “corpo mole” durante a campanha. “Sempre fica uma mágoa”. Arrependimentos? “Talvez outros tivessem merecido mais apoio do que ele (Jatene). Quem disser que nunca se arrepende está mentindo e quem disser que, no exercício do poder, fez tudo o que queria, ou está mentindo ou tem a cabeça pequena demais para os
sonhos”.
Sem mandato há seis anos, Almir, que já foi considerado uma das maiores lideranças políticas do Estado, ainda recebe visitas e pedidos de conselhos de alguns poucos ex-auxiliares, mas hoje está muito longe de ser alvo das atenções que atraía no período em que foi governador. Garante que não reclama do sumiço de alguns amigos, tampouco se sente sozinho. “Está acontecendo comigo o que é normal acontecer. Perde-se poder, progressivamente vai se perdendo força. A gente vê dezenas e dezenas de casos”.
A atual mulher, Raquel Gribel, com quem Almir mora desde que voltou para Belém, em 2009, tem sido a companheira mais próxima.
Logo no início do namoro, Almir pediu Raquel em casamento e determinou prazo para resposta: esperaria três meses porque avaliava que não tinha idade para esperar mais. Raquel disse sim. “O verdadeiro amor rejuvenesce. O amor é como uma chuva gostosa que alimenta as flores. A paixão é uma tempestade que arrebenta tudo. Eu prefiro o amor”, define Almir.
Desde então, é com Raquel que Almir tem discutido as muitas ideias de projetos que ainda pensa para Belém. “Gosto de debater ideais”. E é a ela também que recorre para lembrar o artigo da Constituição em que tem se baseado para fazer o que chama de desobediência civil.
A última vez que teve oportunidade de lançar mão do argumento foi diante de um oficial de justiça que tentou intimá-lo em uma ação por propaganda fora do prazo. Apontado como potencial candidato à prefeitura de Belém, Almir apareceu no programa eleitoral do PTB, partido do atual prefeito Duciomar Costa, e foi processado por crime eleitoral, mas se recusou a receber a intimação. “Mandei que ele levasse lá no partido, nem candidato eu sou”, contou, enquanto regava uma das orquídeas que ainda está sem flores.
A quase candidatura à prefeitura de Belém é um episódio sobre o qual Almir não dá muitas explicações.
Confessa que parte da decisão foi tomada para atender à família, mas diz que prefere contar os detalhes apenas depois das eleições. “Para a família, eu dou bola até certo limite. Até o limite que acho que minha contribuição possa ser superior ao que está sendo pensando pela família”.
CONVICÇÕES
Teimoso? Ele prefere se definir como “um homem de convicções”, mas admite também ter suas contradições. Uma delas surgiu quando se despediu de Belém logo após ser derrotado pela petista Ana Júlia Carepa.
Na época, chegou a garantir que não voltaria mais ao Pará. Em 2009, voltou e trabalhou para que o senador Mário Couto fosse o candidato do PSDB no lugar de Simão Jatene. Após perder a disputa interna na legenda, deixou o PSDB, partido que ajudou a fundar, e anunciou apoio ao PMDB do ex-arqui-inimigo Jader Barbalho. No segundo turno, surpreendeu ainda mais, apoiando a ex-adversária Ana Júlia. Neste ano, filiou-se ao PTB de Duciomar Costa. “Político que não tem contradição não é político. Todos nós temos direito. Agora não pode é ter mais contradição do que coerência”.
(Diário do Pará)
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