Se os anos 80 podem ser considerados os mais polêmicos e com maior retorno de público no teatro paraense, a origem disso, certamente, deve ser procurada nos efervescentes anos 60 ou na multifacetada década de 70. É quando grupos como o icoaraciense Gruta ou o Experiência surgem. É quando Edyr Augusto começa a experimentar os primeiros passos que desembocariam no Cuíra e Luiz Otávio Barata enseja pequenas revoluções comportamentais com o Cena Aberta.
Na década de 70, o teatro paraense foi uma das principais expressões da contracultura local. Os grupos esperneavam contra a censura. Numa edição especial sobre Maio 68, o diretor de teatro Geraldo Salles relatou ao Diário que o clima era sempre desagradável com a censura. “Primeiro tínhamos de submeter o texto aos censores. Depois, apresentar o espetáculo montado para uma nova censura. Era desgastante”, diz.
Salles teve uma peça inteira censurada. Interditaram ‘Os Perigos da bondade ou o testamento de um cangaceiro’, montado pelo Gruta depois de o espetáculo estar todo pronto. O espetáculo só sairia da gaveta em Belém anos depois encenado pelo grupo Experiência. Em outra ocasião, Salles iria dirigir ‘Antígona’, um texto de Sófocles, da Grécia Antiga. O espetáculo seria nas escadarias do Theatro da Paz e os atores usariam roupas de plástico transparente, com uma sunga por baixo. O censor encasquetou com o visual. E foi mais longe: queria saber onde morava “esse tal de Sófocles”.
“Os textos eram mutilados, mas acho que apesar de tudo, foi uma época melhor em termos culturais. Havia uma disputa saudável em ver quem apresentava o melhor espetáculo”, lembrou Salles, que é considerado por Edyr Augusto uma das duas grandes escolas de teatro em Belém, a partir dos anos 70. “O outro é o Luiz Otávio Barata”, diz.
Provocativo, denso, polêmico e filosófico. Esses são os adjetivos usados para definir o teatro de Luiz Otávio Barata. “O Luiz Otávio ilustrava a cabeça das pessoas, com sua intensa pesquisa de texto, pesquisa de corpo. Ele formou uma geração inteira”, avalia Edyr Augusto.
Fortemente influenciado por toda a cultura pop dos anos 60 e início dos anos 70, Edyr Augusto começou a tentar traduzir isso para um universo amazônico. “Eu lembro que quando Woodstock foi exibido no cinema Olímpia, em 1972, assisti a todas as sessões ininterruptamente”, diz.
Foi a partir dessas influências que Edyr e o irmão Janjo começaram a pensar em escrever uma ópera rock, mesmo sem saber direito o que isso significava. Burilada por amigos como José Maria Villar Ferreira, ‘O Boto Andrógino’, a tal ópera rock, se transformou em ‘Foi Boto, Sinhá’, o primeiro grande sucesso de crítica e público de Edyr Augusto como dramaturgo.
(Diário do Pará)
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