Não é preciso grandes estudos para ter a certeza de que rir faz bem e sentimentos como alegria, felicidade e esperança são capazes de refletir em curas, sejam elas físicas ou mentais. Num ambiente envolto de boas sensações, quem não contagia? E se a atmosfera atingir espaços tradicionalmente sérios, a surpresa é ainda maior.
“Enquanto estivemos lá [no Hospital Universitário Barros Barreto] a visita deles fez muita diferença. Ele gosta tanto que dizia até que queria passar mais antes de ir pra casa”, lembra a Angélica Braga, sobre o período em que o filho passou internado na unidade de saúde. Os registros feitos com o celular captaram toda a emoção de mãe e filho ao assistirem uma das apresentações da Trupe da Pró Cura, grupo de jovens voluntários que leva altas doses de bom humor às crianças internadas no HUBB, em Belém.
Criada em julho de 2009, a iniciativa tem o intuito de romper os estereótipos acerca dos tratamentos e cuidados repassados aos doentes nos hospitais. Lá, o remédio mais indicado é o riso. “Queremos curar não apenas da doença, mas tratar o afeto, valorizá-lo, incentivar os sentimentos bons, o carinho entre paciente e médico. A saúde no Brasil carece desse tratamento mais humanizado, por diversos fatores, que incluem desde escassez de infraestrutura e formação adequada aos profissionais”, diz Vitor Nina, estudante concluinte do curso de Medicina e idealizador da ação.
A cada domingo, quatro voluntários abandonam o jaleco do dia a dia e vão ao local vestidos de palhaços, com todos os adereços típicos da fantasia, sempre munidos de muitas piadas, brincadeiras e disposição para roubar sorrisos dos enfermos.
“O nosso grande trunfo é mostrar que a desculpa de falta de tempo não existe. A ideia é envolver não somente as crianças que aguardam por uma melhora do quadro de saúde, mas também todos que fazem do local a moradia temporária”, complementa Vitor.
Mas são elas que fazem a maior festa quando o dia da Trupe chega. Os pequenos deixam os quartos em segundos e correm em direção aos visitantes ansiosamente esperados. Algumas enfermarias se esvaziam para reunir, em outras, a maioria das crianças. Em pé, lado a lado, elas se agrupam para rir em uníssono.
“Eles são muito legais”, diz Kauê, de 9 anos, um dos mais animados, que seguia com o olhar e gargalhada cada pulo, movimento e brincadeira no meio da sala.
VOLUNTARIADO
A iniciativa de palhaços dentro de hospitais surgiu no Brasil em 1991, com os Doutores da Alegria, grupo composto por atores voluntários que ajudavam a entreter os pacientes. Desde então, palhaços vestidos de médicos e alguns médicos vestidos de palhaços vão até hospitais para brincar e fazer atividades com os doentes e suas famílias.
A Trupe da Pró Cura faz parte de um núcleo do projeto de extensão da Universidade Federal do Pará (UFPA) e conta com aproximadamente 30 membros. Já a equipe de 17 palhaços é constituída por pessoas de diversas formações, incluindo adolescentes que ainda cursam o Ensino Médio e profissionais circenses. Todos os envolvidos se reúnem semanalmente para discutir temas como cultura, saúde, pesquisas e também promovem ações de orientação à saúde em espaços públicos, como praças. Foi a forma que eles encontraram para criar um alicerce entre academia e outros setores da sociedade.
Por isso, é natural que familiares e enfermeiros também se deixem envolver. E quando o momento de ir embora chega, as crianças se enchem de saudade. Porque ali, ser palhaço não se restringe a um personagem bem representado. Ele é uma pessoa que mostra a inadequação, a liberdade dentro de cada um. Num local onde todas as ações devem ser meticulosas, o palhaço instaura um novo espaço onde vale cantar, dançar, falar bobagens e rir de si mesmo.
Para Bruno Passos, também integrante do grupo, a missão no hospital é maior que a de fazer gargalhar. “O palhaço também é o cara que acompanha aquela criança quando ela precisar. O palhaço é mais um companheiro nessas horas que, às vezes, é de tristeza ou de choro”.
No último semestre do curso, próximo de se tornar médico, Vitor pensa em se especializar em cuidados com idosos, ratificando sua identificação com as relações mais próximas. E apesar de estar de saída temporária da ação, uma vez que deve seguir os estudos em outro Estado, Vitor garante que a o projeto continua. “Hoje a Trupe trabalha com autonomia. Há muitas pessoas interessadas em entrar e várias delas são estudantes de Medicina também. O nosso projeto pretende, cada vez mais, se aprofundar. Nosso trabalho é transformar a realidade do hospital para além do entretenimento”, explica.
Fazer parte dessa equipe mudou a concepção do jovem tanto como pessoa como futuro médico. “O trabalho, em termos de cultura e arte e como protagonismo, foi fundamental para um outro amadurecimento. Esse cenário é o passo perdido da medicina moderna. Indicadores mostram que a gente não está sendo eficaz nas ações de saúde, não estamos curando. Então a experiência, mesmo que pontual, mostra o modelo de algo a seguir para nos transformar”.
(Diário do Pará)
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