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Sob o império do “jeitinho”

“Poxa, não dá pra dar um jeitinho para o seu amigo?”. Quem nunca ouviu essa frase? Todos nós, certo? Seja solicitando um ‘favor’ ou quando este nos é solicitado. O fato é que o famoso ‘jeitinho’ está enraizado na cultura brasileira. Para facilitar a vida,

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“Poxa, não dá pra dar um jeitinho para o seu amigo?”. Quem nunca ouviu essa frase? Todos nós, certo? Seja solicitando um ‘favor’ ou quando este nos é solicitado. O fato é que o famoso ‘jeitinho’ está enraizado na cultura brasileira. Para facilitar a vida, muitos de nós utilizamos o recurso para tirar proveito de alguma situação. A correria do dia a dia, a falta de tempo e a concorrência na sociedade de consumo é utilizada como justificativa para usufruir desse atalho, e, em muitos casos, leva ao desrespeito com o próximo, o descumprimento com as leis e, em outros, colocar em risco a própria vida.

Em Belém, facilmente podemos observar as pessoas darem um jeitinho: quando compram mídias piratas, atendem o celular enquanto dirigem ou quando preferem atravessar a rua em vez de utilizar a passarela. Flagramos o senhor Ataíde Moraes, 55 anos, técnico em eletricidade. Ele atravessava a avenida Augusto Montenegro, em frente ao conjunto Benjamim Sodré. Ao perguntarmos se em certos momentos ele recorria ao ‘jeitinho brasileiro’, o senhor Ataíde respondeu: “Todos nós, né?”. Mas ao ser questionado pelo atalho que pegou ao atravessar uma avenida movimentada, se o jeitinho que ele optou não colocaria a vida dele em risco, o técnico em eletrônica justifica em um sorriso encabulado. “Por causa do mau cheiro, de manhã ninguém aguenta passar por ela”, conta.

Em uma pesquisa realizada pela Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo (Direito-GV), sobre a percepção do brasileiro quanto ao respeito pelas leis, 82% dos brasileiros reconhecem a facilidade em descumpri-las e 79% admitem que sempre que podem, apelam para o ‘jeitinho brasileiro’. Além disso, 54% acham que existem poucas razões para obedecer às normas legais do país. Em compensação, 80% acreditam que alguém que desobedece a lei é mal visto pelas pessoas. O estudo entrevistou 3.300 pessoas em oito estados entre outubro de 2012 e março de 2013.

ORIGEM

A explicação para o tal ‘jeitinho brasileiro’ se fundamenta nos tempos da colonização do Brasil, quando se iniciou a formação das relações sociais entre negros, índios e portugueses. “Em Casa Grande e Senzala, podemos verificar que já existia essa relação de compadrio. O colonizador português possuía um comportamento mais flexível, fundamentado na educação católica, que é voltada para uma relação de devoção e não de razão, diferentemente, por exemplo, dos colonizadores anglo-saxões, que professavam a religião protestante, muito mais centrada na racionalidade. Então quando ele [português] traz o negro para casa grande ou oferta presentes ao índio, tudo isso são formas que ele utiliza para ‘beneficiá-los’”, explica o sociólogo e professor da Universidade Federal do Pará, Fernando Filho.

A estratégia desse benefício era utilizada também como uma forma de dominação. Ainda segundo o sociólogo, o negro e o índio aderiram à tática para amenizar a realidade em que se encontravam. Era uma forma de sobreviver ou de tornar a vida mais amena. “A realidade é que, atualmente, o jeitinho faz parte da cultura do brasileiro e a sociedade está embebida dessa ferramenta. Existem outras explicações, outros fatores para explicar essa cultura, mas o arcabouço está nas relações de dominação e dominado do Brasil Colônia”, conclui o sociólogo.

(Diário do Pará)

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