Desde 2009, quando o vírus H1N1 foi descoberto pelos cientistas, o Instituto Evandro Chagas (IEC) realiza diagnósticos sobre os casos referentes a todos os Estados da Região Norte, além de parte do Nordeste brasileiro. De acordo com o vice-diretor do IEC, o pesquisador Wyller Melo, somente em relação ao Pará, este ano o instituto já realizou 339 diagnósticos de pessoas de diversas faixas etárias com processos de suspeita de contaminação: 141 casos foram confirmados como vírus influenza, sendo 89 casos de gripe A (H1N1), 41 deles como influenza tipo B, outros três casos confirmados como influenza H3N2 e seis deles considerados inconclusivos. Além do IEC, no Brasil apenas outros dois institutos realizam diagnósticos de influenza: os institutos Adolf Lutz, em São Paulo, e Osvaldo Cruz, no Rio de Janeiro.
Biomédico, doutor em doenças infecciosas e chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios do IEC, Melo alerta para a necessidade das pessoas que estão no grupo de risco – idosos, crianças, gestantes e portadores de doenças crônicas – repetirem a vacinação contra a gripe todos os anos. “Quem foi vacinado fica imune apenas por um período. O vírus sofre mutação e todos os anos é fundamental a aqueles que são do grupo de risco se vacinar. Gripe tem que vacinar todos os anos, senão não fica imunizado”, esclarece ele nessa entrevista cedida às repórteres do DIÁRIO Aline Brelaz e Cíntia Magno. Confira:
P: O IEC é um instituto de referência para todo o País. Qual a média mensal de diagnósticos do vírus influenza?
R: O Evandro Chagas é credenciado pela Organização Mundial da Saúde como Centro Nacional de Influenza e para o Ministério da Saúde somos laboratório de referência para diagnóstico de influenza [gripe]. Somos responsáveis pela confirmação de todos os casos de gripe que ocorrem no Pará, mas também prestamos para o Ministério da Saúde esclarecimento de diagnóstico para todos os Estados da Região Norte e Pernambuco, Maranhão, Rio Grande do Norte e Ceará, no Nordeste. Todos os casos de suspeita de gripe são coletados e enviados para o laboratório do IEC detectar se há presença do vírus. O Ministério da Saúde tem um programa de vigilância da gripe em todo o País, nessas áreas que já mencionei. Toda semana as secretarias estaduais de saúde coletam amostras em uma unidade de saúde selecionada para o programa. Todos os pacientes que apresentam sintomas de gripe têm o material clínico coletado das vias áreas.
P: Por isso é importante procurar uma unidade de saúde se tiver com sintomas da gripe?
R: Sim, é muito importante. Porque o material coletado é enviado para o IEC e nós processamos o diagnóstico para ver se há o vírus da influenza ou outros vírus respiratórios. Logicamente a influenza desperta maior interesse em termos de saúde pública, mas existem outros que são monitorados porque ocasionam infecção.
P: Vocês chegam a fazer em média quantos diagnósticos de influenza?
R: Como nós recebemos inúmeros casos de diversos Estados, é difícil até quantificar, mas somente no Pará, 339 casos foram examinados neste ano. É importante mencionar que não são casos exclusivamente de óbitos. São pessoas que procuraram serviço médico em busca de diagnóstico. Mas é um número que não pode ser confundido com os dados da Secretaria Estadual de Saúde, que são bem maiores, porque têm dados epidemiológicos dos pacientes. A missão do Evandro Chagas é estabelecer o diagnóstico.
P: Dá para saber destes 339 casos o diagnóstico preciso?
R: Até esta semana foram 141 mostras de casos confirmados de infecção por vírus de influenza A [H1N1 e H3N2] e B. Dessas, 89 foram positivos para H1N1, outros três para influenza H3N2, 41 casos de infecção por influenza B e seis amostras foram inconclusivas.
P: Este H3N2 é muito diferente do vírus H1N1?
R: É um vírus distinto. Na vacina normalmente se tem uma amostra do H1N1, uma do H3N2 e uma da influenza B. A vacina de influenza é trivalente, sempre compõe três vírus. Portanto, imuniza para os três.
P: Sabemos que a vacina distribuída atende a grupos de riscos com maior vulnerabilidade à influenza. Grande parte fica vulnerável. Quem fica sem a cobertura vacinal corre perigo?
R: Veja bem, a vacina é disponibilizada desde 2009, quando o vírus pareceu pela primeira vez. Não há possibilidade de se vacinar toda a população.
P: Seria o ideal?
R: Sim, mas a gripe é particularmente grave em pessoas do grupo de risco, gestantes, idosos, crianças pequenas e portadores de doenças crônicas, como diabetes, insuficiência renal, cardíacos, pessoas com pneumonia... Elas são prioritárias. Se você tiver gripe e tiver agravamento dos sintomas, pode ir a qualquer hospital de Belém que é disponibilizado medicamento antiviral. Se for detectado agravamento do quadro respiratório, todos os hospitais estão aptos. Eles têm a medicação disponibilizada pelo Ministério da Saúde.
P: Se percebe ultimamente que quando se chega aos hospitais que atendem urgência e emergência até os porteiros estão usando máscara. Isso não acaba deixando a população em pânico?
R: Mas, isso é normal. O vírus da gripe se pega até conversando com quem está contaminado. As pessoas conversando produzem saliva e uma pequena gotícula pode contaminar. O fato de uma pessoa contaminada com vírus influenza assoar o nariz e pegar em uma maçaneta também poderá contaminar outras pessoas que pegarem na maçaneta. Teclado de computador, telefone, todos estes objetos favorecem a transmissão. A máscara ajuda e é uma maneira de proteger as pessoas que estão trabalhando. Todas as medidas de higiene: lavar sempre as mãos, utilizar álcool gel, tudo ajuda. Mas, a gripe é uma doença de fácil transmissão.
P: Ocorreram alguns óbitos com suspeita de gripe A e algumas pessoas questionam sobre a vacina. Mesmo não sendo do grupo de risco, é preciso procurar os postos de saúde em casos de gripe?
R: As pessoas que já têm condições de favorecer que o vírus se instale devem se preocupar. Nos outros casos, como já falei, os hospitais estão preparados para atender com antiviral se o quadro da gripe se agravar.
P: No geral, em relação aos países desenvolvidos, o controle das epidemias de influenza no Brasil é eficiente?
R: Sim, é considerado muito bom. Temos o serviço de vigilância do vírus há mais de dez anos. O Ministério da Saúde tem controle do número de casos pelas secretarias de saúde e pelos laboratórios que realizam os diagnósticos de gripe no País. O que ocorre na maioria das vezes é que na gripe todo mundo tem o remédio específico, chá de alho com limão... As pessoas não têm o hábito de se vacinar, nem aquelas do grupo de risco. A vacina da gripe é diferente das vacinas para rubéola, sarampo, que vacina uma vez e fica imune para o resto da vida. Tem que se vacinar anualmente para o influenza. A cobertura vacinal muitas vezes não chega a atingir grande parte do público destinado. O vírus muda todo o ano. A vacina é produzida todos os anos especificamente para aquele vírus que está circulando na população para poder oferecer proteção. Poderá surgir amanhã outro vírus e se a pessoa que tomou a vacina do H1N1 e não tomar para o vírus seguinte poderá ser infectada. Toda vez que surge um vírus novo desbanca o antecessor. A OMS tem mais de 110 laboratórios espalhados no mundo inteiro, uma das missões é monitorar os vírus o todo tempo.
P: Há situações em que pessoas tomam vacina e gripam?
R: A vacina jamais vai causar doença em alguém. Tem que se considerar que não há na natureza somente o vírus da gripe. Há inúmeros outros, todos com manifestação clínica semelhante. Alguns afetam mais crianças, com maior agressividade.
P: A população indígena continua sendo um grupo de risco da gripe?
R: Sim e a baixa cobertura nas reservas preocupa. Há informações de que os indígenas foram os menos cobertos com a vacina, segundo o último boletim do Ministério da Saúde. Justamente por causa da dificuldade de acesso.
P: Mas, há vários municípios aqui por perto da capital no nordeste paraense em que a cobertura da população foi menos que a metade...
R: É verdade. Por isso, a Sespa pediu um suplemento maior de vacina ao Ministério da Saúde, por causa do número de casos, e também pediu para prorrogar a data final da vacinação para tentar alcançar a meta. Há casos de óbitos, então é necessário disponibilizar a vacina em um tempo maior, até porque estamos em um inverno prolongado na região. Já estamos em maio e ainda chove muito.
P: O H1N1 requer um cuidado especial, como o senhor já disse, nestes grupos de risco. Então porque ainda causa pânico na população em geral?
R: Porque é um vírus que ainda continua circulando. Não vai afetar as pessoas vacinadas, mas não é toda população. Se não tem para todos, é preciso priorizar os grupos mais vulneráveis. É preciso considerar que o H1N1 é um vírus comum.
P: A tendência é reduzir os casos agora com a chegada do período de poucas chuvas?
R: Sim. Ao contrário dos Sul e Sudeste, onde vai começar a temporada de chuvas. A tendência é começar a surgirem casos por lá. Aqui conosco o vírus chega mais cedo, natal, ano novo. A sazonalidade do vírus coincide com o período das chuvas. É preciso deixar claro que a vacina muda a composição todos os anos. Se deixar de tomar vai gripar, certamente.
(Diário do Pará)
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