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Diversidade da língua dá vida à cultura popular

Sai hífen, entra hífen, some trema, cai acento. Se no papel, ela parece dar um nó na cabeça da maioria, é no dia a dia - das rodas de amigos a grandes congressos científicos - que ela mostra seu valor. “Não consigo imaginar alguém que encare a língua como

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Sai hífen, entra hífen, some trema, cai acento. Se no papel, ela parece dar um nó na cabeça da maioria, é no dia a dia - das rodas de amigos a grandes congressos científicos - que ela mostra seu valor. “Não consigo imaginar alguém que encare a língua como uma vilã. Ela nasceu da própria necessidade humana. Deixar de manuseá-la é fadar-se ao isolamento”, avalia o professor e coordenador do curso de letras da Universidade Estadual do Pará, Alonso Junior, que tem razão, afinal de tão importante, a língua nacional [no caso do Brasil, o português] tem um dia dedicado só pra ela. O 21 de maio.

“A língua é um instrumento. Assim como a faca tem a função de cortar, a língua serve para comunicar”, metaforiza Alonso em alusão a apenas uma das funções da língua que se inventa, e reinventa, no cotidiano das pessoas como um fenômeno dinâmico e em constante evolução.

LINGUAGEM CABOCLA

“Quando vinham contar uma história pra minha avó lembro que ela tinha um dizer escolhido. ‘Hum, só quer ser o que a folhinha não cobre’”, conversa com memória uma das mais antigas erveiras do Ver o Peso, Bernadete Freire, a Beth Cheirosinha, que carrega no DNA a peculiaridade do falar cantado do povo paraense, relembrando a avó que não gostava de ‘pavulagem’ - a típica metidez cabocla – e afugentava os mais ‘bocas grandes’ com a expressão. “Também lembro que se tinha uma coisa que eu gostava quando criança era de ouvir o caboclo do interior falar como um cumprimento: ‘Ôh, sumano, que tar’”, diz sem deixar de gesticular. “Pra mim era uma graça. Só depois de mais ‘entendida’ é que fui refletir. Não é errado, é um jeito diferente de falar. O caboclo tem um, o mano da capital outro, o cearense outro e assim vi nesse Brasil todinho”, reflete a vendedora que não se faz de rogada. Conversa com todo tipo de gente. “No Brasil, a língua é a mesma, mas o jeito de falar e até umas palavras são diferentes, mas não tem problema. A gente se entende até com quem fala outra língua, vai deixar de entender com os daqui?”, descontrai.

Na barraca à frente de dona Cheirosinha, a prova da constatação popular. Silvana Serra, maranhense acolhida pelo Pará há mais de 40 anos, traz na ponta da língua a expressão impronunciável no vizinho ao lado. “Vem na minha ilharga [na minha companhia, ao meu lado]”, diz fazendo referência a um dos principais vocábulos aprendidos pelas bandas de cá.

“Uai. Diz o mineiro pra tudo, né!”, responde Emilio Evangelista demonstrando a via de mão dupla que é a língua. Paraense de Portel, o feirante dedica mais de 50 anos aos turistas que frequentam a feira. Se ensinou alguma coisa para quem passou por sua barraca, também não deixou de aprender. “O importante é isso. A gente ir falando e ir se entendendo. No final dá certo”, afirma seu Emílio que poderia muito bem ser ouvido pela paranaense Heloiza da Silveira.

No Pará há três anos, mas fiel ao sotaque sulista, artesã diz que se viu em apuros logo nos primeiros dias de mudança de domicílio. “Foi um moço trabalhar lá em casa e de repente ele me pede um ancinho. Eu não tinha ideia que o ancinho era o nosso rastel. Até chegarmos a esse entendimento foi muita conversa”, diverte-se Heloiza que para acompanhar o marido já morou em cinco estados brasileiros. “A língua é o português, mas as formas de falar são diferentes. De cada lugar a gente traz alguma coisa, hoje não falo égua, mas talvez quando for embora eu leve sim o termo comigo”, reflete com bom humor Heloiza durante passeio turístico com a irmã recém chegada, Elis, que lembra a polêmica. “Fala-se muito no que é certo e errado. Que o de lá seria o certo, o daqui errado, ou o contrário. Mas acho que na prática não tem disso”, avalia.

Alonso Junior ratifica. “Não existe certo ou errado. O certo é que funciona dentro da língua. Na variante popular, as regras são diferentes da gramática. Dentro do espaço apropriado os conceitos mudam”.

PAPACHIBÉ

Jornalista e colunista do DIÁRIO DO PARÁ, Raymundo Mário Sobral estuda a linguagem paraense há mais de 10 anos. Tempo em que lançou quatro edições do livro “Dicionário Papachibé”, uma coletânea com mais de 1500 palavras e expressões tipicamente paraenses.

“Penso que as palavras nascem com prazo de validade. Elas surgem, são usadas e depois são esquecidas. Comecei esse trabalho como uma forma de resgate dessa linguagem tão rica que foi se perdendo com o tempo”, comenta o autor que já planeja a quinta edição da obra, lançada pela primeira vez em 1996.

A ideia de conceber um dicionário com termos do “paraensês” surgiu inesperadamente, de uma conversa informal com um amigo. As palavras iam surgindo e sendo publicadas na coluna Jornaleco, com o tempo a lista cresceu e terminou em livro. “Não penso que sou filósofo ou linguista, na verdade, eu sou mesmo um linguarudo e daí surgiu o trabalho. O objetivo é preservar modestamente essas expressões que tendem a desaparecer em nome de outras que vão surgindo”.

(Diário do Pará)

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